No início do séc. XIX estabeleceu-se a Doutrina Monroe (1823), tendo ficado informalmente estipulado que as grandes potências tinham uma zona de influência que poderiam gerir a seu bel-prazer. Cada potência tinha um “jardim” que podia cuidar com as regras que considerava mais convenientes. Depois das guerras napoleónicas que destruíram a Europa tornou-se importante evitar novas guerras entre as grandes potências mundiais, ou seja, eu não interfiro no teu jardim, e tu não interferes no meu. Desta forma, havia uma esfera de influência informal para os EUA, para a Rússia, para a Grã-Bretanha, para a França, etc.
O Congresso de Berlim (1878) é um exemplo claro desta visão onde África foi dividida entre as diversas potências, como Portugal, Alemanha, Grã-Bretanha, França, tendo servido assim para estender as regras estabelecidas no Congresso de Viena (1814) para o resto do planeta, e atualizar os países considerados como grandes potências, definindo as respetivas zonas de influência de cada um para impedir o deflagrar de guerras. Considera-se que as regras definidas no Congresso de Viena impediram grandes guerras durante 100 anos, até 1914, quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu.
Após o término da Segunda Guerra Mundial o mundo tornou-se bipolar e os EUA e a União Soviética dividiram esferas de influência numa espécie de novo “tratado de Tordesilhas”. Numa fase inicial, a Grã-Bretanha e a França pensaram poder ter um papel na definição das regras mundiais, mas a crise do Suez em 1956 demonstrou que ambos precisavam se submeter às diretrizes impostas pelas outras duas superpotências. A Europa estava dividia em dois: os países da NATO e os países integrados no pacto de Varsóvia. Com a queda da União Soviética em 1991, o planeta ficou nas mãos dos EUA, a única grande potência remanescente. Mas durante os 20 anos seguintes, a hegemonia dos EUA demonstrou os excessos que um país com carta branca acaba naturalmente por cometer. A guerra do Iraque em 2003 é o expoente máximo destes excessos, porque foi iniciada devido a supostas armas de destruição maciças que nunca foram encontradas. A guerra do Iraque incendiou o Médio Oriente, e ainda hoje sentimos as repercussões desta ofensiva.
Chegámos então a 2025. Com a subida de Donald Trump ao poder em janeiro, “the madman theory” voltou à cena, onde o presidente dos EUA lança ideias para o ar, sendo que ninguém sabe se ele verdadeiramente acredita nelas, com o claro objetivo de fortalecer sua posição negocial, tanto com parceiros internos quanto externos. Desde que a administração americana tomou posse, que ameaça e recua com tarifas ao Canadá e ao México. A tarifa inicial de 25% a todos os produtos ficou em stand-by durante um mês, no dia a seguir a ser aplicada. A incerteza das medidas políticas tomadas em Washington é o novo normal, e as marcas automóveis dos EUA, por exemplo, têm uma cadeia logística complexa e pouco flexível com o Canada e com o México que não se coaduna com esta incerteza. Como é que se podem tomar decisões estratégicas e comerciais quando tudo e o seu inverso pode acontecer amanhã. O status quo das últimas décadas terminou.
De certa forma, a visão mundial de Trump tem como base a doutrina Monroe, estando definida informalmente a esfera de influência dos EUA, e é nessa área que tenta interferir, de forma a tentar tirar o máximo de concessões possíveis. Os EUA têm o seu jardim para cuidar. A China que faça o que bem entender com o seu jardim – mar da China e Taiwan, por exemplo. A Rússia também tem o seu – a Ucrânia e alguns outros países da ex-União Soviética. Nesta visão geopolítica, as grandes potências não interferem nos jardins uns dos outros e estão focadas em “cuidar” do seu próprio jardim.
Se considerarmos a Ucrânia como fazendo parte da zona de influência da Rússia, então, um acordo de paz – como o que Trump está a tentar alcançar – é relativamente fácil de negociar. De acordo com o conceito Monroe que estamos a descrever, a Rússia é que tem os direitos para definir qual o caminho político dos ucranianos. Durante centenas de anos, os planaltos da Ucrânia foram o celeiro do Império Russo, e o Kremlin invoca direitos históricos para garantir o seu controlo. Em 2022, Putin afirmou que a Ucrânia nunca foi um país, mas que foi apenas uma invenção Bolchevique .
Os países da União Europeia (Polónia, Moldávia, Roménia, Bálticos) que fazem fronteira com a Ucrânia e a Rússia estão naturalmente preocupados com esta visão, mas é um problema deles e da UE, nada tem a ver com os EUA.
Esta “Doutrina Trump” ou “Monroe 2025” implica que as grandes potências possam fazer o que quiserem na sua zona de influência, sem se terem de preocupar com as outras esferas de influência. Até certo ponto, a Europa Ocidental está ainda sobre a esfera de influência dos EUA e das “regras” definidas em Washington DC. Desde a criação da NATO, em 1949, que os países europeus delegaram a sua defesa nos EUA. Durante as últimas décadas, a maioria dos países europeus da NATO investiu menos do que os 2% estipulados – tendo sido das últimas prioridades para os governos. Este desinvestimento na defesa naturalmente garantiu que a Europa ficasse debaixo da esfera de influência dos EUA, o que as anteriores administrações americanas aproveitavam para vantagens comerciais.
Jean Monnet, um dos pais fundadores da EU disse: “A Europa será forjada nas crises e será a soma das soluções adotadas para as enfrentar”. Depois da crise económica de 2008, a UE tem de lidar com uma nova crise existencial, representada pela Rússia a este, e pelos EUA a oeste. Apesar de ambos representarem desafios distintos, os dois países representam uma coisa em comum: uma visão mundial onde prevalece a lei do mais forte, no qual as grandes potências tomam decisões entre si e intimidam os pequenos países de acordo com os seus interesses.
Numa era de esferas de grandes potências, a UE enfrenta uma escolha decisiva: ou se consolida como uma potência capaz de projetar força económica e militar ou arrisca-se a ser intimidada pelas demais.
Qual é a alternativa ao federalismo europeu?