Falo-vos do único lugar que permanece intacto em mim: o coração.
Tive uma vida recheada de desafios. Treinei compaixão e força de vontade, resignifiquei resiliência como capa do amor. Ainda assim fui apanhada desprevenida.
A dor veio sorrateira, instalou-se de mansinho, foi ganhando espaço, até que um dia percebi que já não conseguia permanecer sentada por longos períodos. Fiquei atenta: a roupa em contacto com a pele das pernas provocava dor, quanto mais áspero o toque maior a dor, maior a sensação de queimação. Daí a deixar de conseguir dormir de noite foi um passo. Seguiram-se noites intermináveis com sensação de ter a pele queimada, com inúmeras idas ao chuveiro para colocar água fria no corpo; tentei sprays de água termal, cremes com efeito frio, vários tipos de lençóis. Algumas noites cheguei a ter sonhos vividos, nos quais era queimada viva numa fogueira, qual bruxa da idade média.
Costumo dizer que estive no inferno, de caras com o Diabo, o próprio. De dia ia trabalhar mas sempre em desconforto, sempre a tentar arranjar alternativas menos dolorosas: a roupa, a cadeira, a almofada, a posição. Passei a fazer consultas de pé numa mesa de bar gentilmente cedida por uma colega de trabalho.
Começaram as experiências com medicação. A primeira deixou-me lentificada, as quatro seguintes não surtiram qualquer efeito, outras tinham efeitos laterais intoleráveis (vómitos, boca seca, confusão mental). O resultado de incontáveis exames clínicos deixou como diagnóstico mais provável neuropatia de pequenas fibras.
Parei de trabalhar três meses para me concentrar na minha recuperação. Fiz fisioterapia, reforço muscular, psicoterapia, hipnose, acupuntura, consultas de dor crónica, neurologia, nutrição, psiquiatria e reabilitação. Um bem haja às minhas médicas da dor crónica e neurologia e à minha médica de família, que me sustentaram sempre, que se dedicaram, que investiram em mim.
Os dias iam passando e a dor alastrou, passou a ser também no tronco, um dia chegou ao couro cabeludo. Achei que não ia aguentar. Estava há semanas sem dormir uma noite completa, a sentir-me queimada 24 horas por dia.
Ninguém aguenta viver neste sofrimento sem saber que vai ter prazo. Pensei tantas e tantas vezes na frase do professor Nuno Grande nas aulas de anatomia: “Atenção, os doentes com dor neuropática não controlada são os que se suicidam.”
Neste período, doeu quase tanto como a queimação cada falta de compaixão, cada julgamento, cada falta de empatia, cada silêncio, cada crítica. Fiz um esforço ativo para deixar ir a imensa mágoa destas dores, assumindo que as ações que as geraram vieram de um lugar de desconhecimento. A dor é invisível e quem a sente pode pagar um preço muito alto por essa invisibilidade.
De volta aos medicamentos. Eureka! Um que funcionou, com efeitos laterais aborrecidos, mas suportáveis. Aumenta a dose, mais um bocado e mais outro ainda… Até que já não dá para aumentar mais. Soma outro medicamento. Respira. Volta a ativar a resiliência.
Retomei a minha atividade profissional com uma secretária elétrica elevatória que a direção forneceu para o meu gabinete e almofadas ortopédicas para quando tenho de me sentar. Em casa, durmo com um colchão anti-escaras, várias almofadas ortopédicas e lençóis de cetim. Tenho ar condicionado no quarto e vários frascos na mesinha de cabeceira: medicação de SOS, gel efeito frio, creme hidratante e spray de água termal.
Estou no processo, na adaptação a um novo eu, fazendo o luto do anterior. Vai demorar, talvez anos, mas sei que vou conseguir porque estou muito determinada a ter uma vida. O orgulho que tenho em mim, no meu percurso e na minha força dão-me a certeza de ser possível.
Andreia Soares é casada, tem dois filhos e dois sobrinhos. Licenciada em Medicina pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto e médica de família, é uma das cronistas convidadas da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor, respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade.
Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a FAI Therapeutics, um projeto da Ferraz Lynce (Grupo Iberfar), e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.
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