É quase uma da manhã. Em Londres não há Verão, faz calor de vez em quando e depois chove. Esta noite é um desses de vez em quando.

Como está calor, não durmo. Foi assim durante 3 dias o ano passado em Agosto em Portugal, aquando da onda de calor.

Ou então são os nervos antes da partida. Afinal, daqui por 12 horas estaremos em Portugal! Parece mentira. É mentira! Já não acreditamos. Deixámos de acreditar quando o ano lectivo entrou Julho adentro e as obrigações do dia-a-dia se encarregaram de drenar o último sopro de vida destes corpos, a última vontade de viver.

Entre a rotina, o trabalho, sair de casa às 5 da manhã e voltar às 7 da tarde, cinco dias por semana mais os sábados e domingos a pé às 6 apenas porque sim, porque o corpo assim o dita e as noites pouco dormidas, mal dormidas, o fechar do ano escolar e ainda assuntos pendentes pelas supostas férias adentro, tudo contribui para que já não valha a pena descansar, ir de férias, desligar, desfrutar da família e amigos.

Já perdemos a esperança e, no entanto, amanhã quando o caminho for outro, fora da rotina e do dia-a-dia, quando nos virmos às portas do aeroporto e nas asas do avião, tudo vai fazer sentido.

Amanhã voltamos a casa, ao abraço sem fim dos nossos pais e irmãos, um abraço quente igual ao nosso, cheio de lágrimas e saudade e a promessa de não partir nunca mais.

Porque voltámos a casa e aqui nada nos pode acontecer. Aqui estamos seguros, conhecemos as ruas e os vizinhos de cor, temos tios, primos e amigos mil com quem falar, com quem estar mais os seus conselhos e ajuda quando é preciso.

Lá em Londres não temos ninguém. Minto, ter até temos, mas a cidade é imensa, já lá estamos há 12 anos e só estamos com amigos de 6 em 6 semanas, com sorte. Entretanto, temo-nos um ao outro e já temos tanta sorte que muitos não têm ninguém.

Por isso a excitação, daqui por 12 horas em Lisboa, o táxi do aeroporto para o comboio, o comboio para as ruas caiadas de branco e de sol, a cerveja portuguesa que sabe muito melhor em Portugal (lá fora metem-lhe água e servem morna), as esplanadas e cafés, a cor da praia que já esqueci.

Esqueci-me da praia ou da cor? Provavelmente das duas. O cheiro do calor, as cigarras frenéticas, só respiro bem com 35 graus à beira-mar, as subidas de bicicleta à falésia e o mar a meus pés, a minha casa onde um dia hei-de morrer, se Deus quiser, os amigos de sempre à nossa espera, uma outra vida, um outro mundo a correr em paralelo a 2 mil quilómetros de distância e que é preciso sorver por inteiro num mês de Verão.

Neste momento tudo me parece distante e estranho. Não somos ingleses e já não somos portugueses. Em Inglaterra querem mandar-nos para casa, em casa já não nos entendem, a não ser um mês por ano. Um mês chega, mais não, ao fim de um mês já queremos voltar para casa, para a outra casa. Ao fim de um mês já queremos partir. Outra vez. E outra vez. E os anos vão passando.

Vou pensar em sardinhas, pilhas de sardinhas, gordas no pão regadas com cerveja numa esplanada ao cair do dia! Vou pensar em caracóis e como o segredo está no molho! Ah, e a cerveja! Vou pensar em tremoços, um tremoceiro inteiro à chegada ao aeroporto mais uma grade de cerveja bem gelada! Não por sofrer de alcoolismo, mas sim por gostar de cerveja, entenda-se.

Vou pensar no avião a aterrar em Lisboa e as palmas no ar, nas gargalhadas dos teus pais, nas tardes ao sol. Vou pensar no primeiro mergulho do mar, 78 kg de pura elegância a correrem areia fora e em pleno voo sobre as águas até ao abraço final enquanto prometo a mim mesmo nunca mais sair da água.