Costumo dizer que o segredo para ter filhos é não planear nenhum. Eu e a Rute não planeámos nenhum filho e temos quatro. Acho que se tivéssemos tentado planear filhos a esta hora ainda estaríamos para os ter (e entretanto a nossa mais velha, Maria, já tem 21 anos). Pais que planeiam filhos podem levar décadas até se sentirem capazes deles. Felizmente não foi o nosso caso: tivemo-los talvez porque nos dispensámos do trabalho de termos planos eficazes para eles.
Sem planos eficazes, tivemos quatro filhos em seis anos (o quarto, Caleb, tem agora 15). O ritmo foi rápido. Sobretudo do segundo para o terceiro: o Joaquim chegou um ano e um dia depois de ter chegado a Marta—até nós ficámos sem saber o que dizer. As pessoas à nossa volta também. Recordo-me que quando a notícia chegou à Igreja, nem lá conseguiram disfarçar. Celebraram com cinto de segurança dois bebés que vinham tão seguidinhos.
Isso de uma Igreja celebrar com cinto de segurança a vinda de um bebé marcou-me. Marcou-me pela negativa, entenda-se. Creio que não guardei um ressentimento mas à altura começou a formar-se em mim uma determinação: a Igreja que pastoreasse no futuro nunca poderia reagir da mesma maneira. Qualquer bebé que viesse seria celebrado por mim e pela congregação que dirigisse. Afinal, de que adiantava defender a vida se quando ela surgisse menos planeada a reacção era morna?
De 2007 para cá passaram quase vinte anos. Em vinte anos surgiram muitos bebés. Não tenho todos contados mas diria poderem estar já perto da centena. Criou-se uma espécie de ritual na Igreja que sirvo, na Lapa: sempre que uma mulher engravida digo durante o serviço de culto que tenho uma novidade para partilhar. As pessoas já sabem do que estou a falar. Dou uns segundos de suspense para que a congregação se entreolhe e finalmente nomeio a futura mãe em causa e o seu marido apelando a que sejam abraçados por todos no fim da celebração dominical. É sempre emocionante e festivo.
Houve uma vez que foi complicado. A Stephanie e o Felipe esperavam um bebé que, à altura do anúncio, já sabiam ter uma deficiência grave que provavelmente o mataria no parto. A Igreja passou da alegria para a tristeza num segundo. Orámos durante toda a gravidez por um milagre que Deus não nos deu. O Josué morreu mesmo (escrevi sobre ele aqui, neste texto). A vida anunciada não aconteceu como esperávamos.
Anunciar bebés é das tarefas que gosto mais de cumprir. A minha job description também pede que proclame existências futuras—que emprego prodigioso! Não o trocava por nada. Anuncio pessoas, vejo-as nascer, apresento-as à Igreja, baptizo-as, caso-as e posso até vir a enterrá-las. Estou na primeira fila deste filme maravilhoso e por vezes miserável. Quando me tornei pastor, não planeei isto tudo. Mas que bom é Deus fazer muito mais além dos nossos planos.