Estou sentado numa esplanada da Plaza Mayor de Madrid e penso mais uma vez em como é estranho que a filosofia, por meio da estética, não tenha quase nunca dedicado uma real reflexão ao tema das cidades como obras de arte. Porque as cidades — certas cidades, várias cidades, muitas cidades — são exactamente isso: obras de arte que os homens criaram para dentro delas viverem.

A criação é uma criação contínua, a muitas e contraditórias mãos, que dura séculos e que não pára até as cidades acabarem. Uma criação humana imperfeita, com golpes de génio e falhanços gritantes, previsível e imprevisível, que mistura estilos diferentes e que, no entanto, podemos capturar como um todo e não como um simples agregado de partes díspares e incomunicáveis.

Compreender uma cidade é chegar ao sentimento de a perceber, em toda a sua variedade, como um todo, mesmo que seja um todo do qual temos, de muitas das suas partes, uma percepção obscura e quase inconsciente. O filósofo Leibniz utilizou mais do que uma vez a metáfora dos pontos de vista sobre uma cidade para ilustrar a ideia de que cada um de nós tem apenas uma percepção, uma ideia, clara de uma pequena parte do universo, desse “cosmos pleno de ornamentos”, tendo do resto uma perceção apenas confusa, cada vez mais confusa e ténue à medida que nos vamos afastando da reduzida esfera das coisas em que a nossa percepção é clara e sobre as quais podemos exercer a nossa actividade (compreender era, para ele, uma forma de agir). A compreensão perfeita e integral exigiria que se visse simultaneamente a cidade sob todos os pontos de vista possíveis.

A metáfora pode ser aplicada, sem ser neste caso metáfora nenhuma, às próprias cidades. Também elas são “cosmos plenos de ornamentos”. E delas, por muito que nos permaneça obscuro, podemos ter uma compreensão que englobe os vários pontos de vista que já experimentámos ou imaginámos. Leibniz entendia a beleza como um excesso, o máximo de variedade no interior de uma única percepção. E o que é compreender a beleza de uma cidade senão isso mesmo: ter dela uma percepção que contém em si o máximo de diversidade?

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