Não podemos já dizer que o bipartidarismo está vivo e de boa saúde. Mas quase. O Chega ficou bastante longe, até dos objetivos menos ambiciosos traçados pelo coordenador autárquico do partido, Carlos Magno Magalhães, em entrevista à Renascença, em que apontava para 8 a 10 presidências municipais sobretudo no Alentejo, Algarve e Ribatejo. Venceu em três autarquias, Entroncamento, Albufeira e São Vicente, na Madeira, onde nem tinha sido vitorioso nas legislativas (ganhou o PSD e o Chega ficou em segundo lugar). Mas criou problemas e esteve perto de vencer em municípios como o Montijo.
Uma lição André Ventura aprendeu: as eleições locais são mesmo locais e os eleitores não se deixam enganar por colar a sua imagem a cada candidato nos cartazes. E ou o Chega é capaz de atrair quadros respeitados localmente – como nacionalmente – ou seguirá o destino de partidos que nunca conseguiram uma implantação local, como o BE. O desempenho dos seus autarcas vai ser igualmente importante para ver se consegue implantar-se.
O Chega acabou por alertar para problemas que estavam a abalar as comunidades e para os quais a classe política dominante se recusava a olhar. Mas esse alerta permitiu que alguns percebessem o que estava a acontecer, uns mais cedo do que outros, e fossem ao encontro das preocupações dos eleitores – quer a nível local como nacional.
E um deles, o mais visível e que percebeu cedo as preocupações da sua comunidade, foi sem dúvida Ricardo Leão, presidente da Câmara de Loures. Os eleitores deram-lhe agora uma maioria absoluta – teve quase mais 25 mil votos e passou de quatro para seis vereadores. Foram dois os episódios que o envolveram. Um em Outubro de 2024, quando defendeu o despejo de inquilinos de casas municipais que participaram nos distúrbios dessa altura em Lisboa. O segundo, mais recente, em Julho, quando se iniciou um processo de demolição de barracas no Bairro do Talude Militar.
Com o primeiro caso Ricardo Leão viu-se perante um ataque cerrado dos seus camaradas de partido, incluindo uma carta aberta assinada por António Costa, já presidente do Conselho Europeu, Pedro Silva Pereira e José Leitão com o título “Em defesa da honra do PS”. António Costa considerou o tema suficientemente grave para sair do seu papel de presidente do Conselho Europeu e meter-se em assuntos autárquicos nacionais. Na sequência disso, Ricardo Leão demitiu-se da liderança da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS. Também Alexandra Leitão demitiu-se da Comissão política da FAUL.
Os eleitores deram uma lição a António Costa – que onde está pouco se importa com isso – , mas o mais importante, mostraram aos socialistas que se estavam a afastar das preocupações e dos problemas que os cidadãos enfrentavam, resumindo as suas solidariedades e humanismos a defesas abstratas.
Só quem anda ou andava a viver numa bolha urbana super protegida é que não percebe, ou percebeu ainda, que há comunidades que consideram que existe um abandalhamento geral – é essa a expressão -, um quadro em que não se cumprem regras e ninguém tem coragem de as fazer respeitar. Não compreenderam que localmente sabe-se quem precisa e quem não precisa de ajuda e que cresce não só o sentimento de impunidade como a convicção de que há quem se aproveite, sem ter direito a isso, dos apoios sociais. A par disso, temos o problema do excesso de imigração, que o Governo conseguiu moderar retirando também ele essa bandeira ao Chega. Tal como o sentimento de insegurança, com alguns protagonistas mais preocupados em batalhas de estatísticas do que em perceber se e porque é que as pessoas se sentiam, ou sentem, inseguras.
O PS de José Luís Carneiro parece ter percebido finalmente que os partidos servem para ir ao encontro das preocupações dos cidadãos, servem para fazer o melhor possível para resolver os problemas, e não para desenvolvimentos abstratos sobre humanismo, recusando-se a ver a falta de humanismo que estão a gerar para todos, incluindo os imigrantes.
A candidatura de Alexandra Leitão, ao obter mais de dez mil votos a menos que a soma das partes dos partidos que compunham a coligação em 2021, mostra igualmente como o PS que de alguma forma representa se afastou das preocupações do seu eleitorado. A par, obviamente, dos partidos mais à esquerda.
O Chega teve a virtude de alertar para problemas que ninguém queria ver e passou a reconhecer. É possível enfrentar esses problemas sem populismos e com soluções concretas. Se PS e PSD conseguirem aproximar-se de novo dos eleitores, o Chega terá de encontrar outras bandeiras. O que vimos nestas autárquicas é uma lição para quem não se quer preocupar com alguns problemas e mostra que o bipartidarismo ainda vive, com uma alteração da sua representação no território, com o PSD a entrar no eleitorado urbano e a ter uma indiscutível vitória.