A frase “Bacalhau é no Canadá, não é na Noruega” (ironicamente dizendo) soa quase herética para alguém com raízes norueguesas, mas aqui estou, com um sorriso nos lábios e um prato de bacalhau com alho regado por azeite, ainda por mais estando em vésperas de Natal. Estou rendido à nova realidade: o coração do bacalhau bate agora no Canadá, e Portugal é quem lhe dá vida.
Como descendente de uma terra onde os fiordes guardam memórias de mares cheios de bacalhau, confesso um misto de nostalgia e admiração. Nostalgia porque a Noruega foi, durante séculos, a capital mundial do gadus morhua; admiração porque, após 30 anos de silêncio pesqueiro nas águas canadianas, o regresso do bacalhau a essas costas é uma história de resiliência, ciência e, claro, persistência portuguesa.
Do colapso ao renascimento
Nos anos 90, a moratória canadiana à pesca de bacalhau foi um choque para o mundo pesqueiro. Era como se o Canadá tivesse retirado a chave de um cofre secular. O colapso das reservas de bacalhau foi dramático e, por décadas, as redes ficaram vazias. Mas, em 2024, a espécie mostrou sinais de recuperação suficientes para que o governo canadiano reabrisse as águas com um total permitido de captura (TAC) de 18 mil toneladas.
Portugal, com seu apetite insaciável por bacalhau, viu a quota aumentar em 92%, para 2.296 toneladas, um presente que faz jus à nossa reputação de comer mais bacalhau do que qualquer outro país. Este aumento é uma celebração da sustentabilidade e, convenhamos, da diplomacia portuguesa. Afinal, poucos países conseguem transformar o bacalhau, um peixe simples, num símbolo de cultura e identidade.
De fiordes à Terra Nova: o bacalhau nas minhas veias
Como herdeiro de raízes norueguesas, fui criado a ouvir histórias sobre barcos vikings que navegavam mares gelados atrás do peixe salgado. Mas foi em Portugal, com seus fornos quentes e azeites dourados, que descobri o verdadeiro potencial do bacalhau. A minha rendição veio num jantar inesquecível: lombos suculentos de bacalhau assados com alho — tanto alho que senti a sua presença no dia seguinte.
A ironia de todo este percurso é deliciosa. Apesar de a Noruega continuar a exportar toneladas de bacalhau para Portugal, é no Canadá que a narrativa moderna se desenrola. Os pescadores portugueses regressaram às águas da Terra Nova, escrevendo um novo capítulo da epopeia do bacalhau, desta vez temperado por acordos internacionais e quotas meticulosamente negociadas.
Humor salgado e reflexões doces
Se me permitem um tom mais leve, imaginem o seguinte cenário: um pescador português na Terra Nova gritando para outro, em tom jocoso, “Oh João, avisa o Canadá que este bacalhau vai direto para a minha cozinha!” Ou melhor, parafraseando um provérbio adaptado: “De bacalhau salgado vive o homem português, mas também a economia canadiana.”
Este regresso à pesca não é apenas sobre números ou quotas. É sobre histórias de persistência. É sobre como um peixe atravessa oceanos e culturas para se transformar no rei da gastronomia portuguesa.
Conclusão: um brinde ao bacalhau e ao que ele representa
O bacalhau, seja ele norueguês, canadiano ou até imaginariamente da “Casa da Sorte”, é mais do que um alimento. É um veículo de identidade, uma ponte entre culturas. O retorno da pesca no Canadá não é apenas um triunfo ambiental; é uma celebração da conexão entre povos.
Hoje, levanto o meu copo (e uma fatia de pão embebida em azeite) em homenagem ao Canadá, à Noruega e a Portugal, que juntos continuam a escrever esta deliciosa saga marítima. E que nunca falte alho para o tempero. Afinal, como bem sabemos, o bacalhau pode ser do Canadá, mas o sabor é português.