Quando ouvi dizer que há quem queira fechar ao trânsito a Baixa-Chiado, temi que os nossos autarcas, contagiados pelo coronavírus, quisessem fazer dessa zona de Lisboa uma réplica da cidade proibida de Beijing.

Antes de mais, devo dizer que, embora nascido em Haia, nos Países Baixos, onde o meu pai se encontrava ao serviço de Portugal, sou mais lisboeta do que a maioria dos aqui nascidos: não só os meus pais e quatro avós são naturais de Lisboa, como também aqui casaram todos os meus bisavós. Numa reunião, com uma dúzia de moradores na capital, de diversas idades e profissões, dei-me conta de que era o único que tinha os dois pais alfacinhas. Conclusão: o que há menos, em Lisboa, são lisboetas!

Não só sou de Lisboa, como vivi muitos anos na Baixa-Chiado, onde está a casa por onde já passaram sete gerações da minha família. Por isso, tenho com essa zona uma especial relação: afinal de contas é, como diria Fernando Pessoa, a ‘minha aldeia’!

Muito se tem feito, recentemente, pela Baixa-Chiado, como o magnífico restauro das igrejas dessa zona da cidade. Mas subsistem alguns problemas como é, por exemplo, o trânsito. Todos estamos de acordo sobre a necessidade de disciplinar o tráfego, numa zona histórica tão frequentada por peões e turistas. É lógico que se impeça o estacionamento selvagem, criando parques subterrâneos e silos, e que se desvie o trânsito pesado. Também parece positiva a política que privilegia os espaços verdes, as vias pedonais e as ciclovias, desde que não se transtorne a vida dos moradores, nem se impeça o indispensável fluxo rodoviário.

O que já não parece razoável é interditar, pura e simplesmente, o trânsito automóvel na Baixa-Chiado. Se a ausência de moradores no local foi, em parte, responsável pelas gigantescas proporções do incêndio que quase destruiu essa parte da cidade, a proibição do trânsito automóvel representaria, a médio e longo prazo, a morte da Baixa-Chiado, a começar pelo seu comércio, que dificilmente resistiria à concorrência das grandes superfícies, que têm a seu favor a facilidade de acesso rodoviário e de estacionamento.

Seria bom que os autarcas se consciencializassem de que a cidade não é deles, mas de todos os que nela vivem e trabalham. Mais ainda, é de todos os portugueses. Permitir que um residente num determinado bairro nele possa circular, mas não outro cidadão, é uma discriminação dificilmente justificável, embora se compreenda que os moradores tenham prioridade no estacionamento perto do seu domicílio. É desconcertante o à-vontade de alguns autarcas, no modo como põem e dispõem da cidade, como se fosse a marquise ou a varanda da sua casa, esquecendo que a liberdade de circular pela cidade é um direito fundamental dos cidadãos, que não lhes pode ser arbitrariamente negado.

Também seria conveniente que os responsáveis pela gestão autárquica tivessem em conta que os carros não são só máquinas, são também pessoas, muitas delas – penso, sobretudo, nos deficientes, nos velhos e nas crianças – sem possibilidade de recorrer ao transporte público. Hoje em dia, por exemplo, quem circula de carro numa via lateral à Avenida da República, não consegue acolher ou apear um deficiente, uma pessoa de idade, ou uma criança, a não ser que estacione, o que é quase impossível, ou interrompa o trânsito nessa via única durante todo o tempo necessário para essa delicada operação, que será necessariamente demorada se houver carrinho de bebé, cadeira de rodas, andarilho, etc. O mesmo se diga de uma ambulância. A alternativa é, então, estacionar mais longe, obrigando o doente, o menor, o deficiente, ou a pessoa de idade, a uma longa caminhada. Lisboa, mais do que amiga das bicicletas, do ambiente, da fauna e da flora, deveria ser amiga das pessoas, nomeadamente dos seus moradores. Pelo contrário, cada vez mais parece ser uma cidade hostil para quem mais necessita de apoio e solidariedade, embora talvez seja o paraíso dos turistas e dos ciclistas.

A obsessão pelas zonas verdes também é caricata, sobretudo quando é pretexto para dificultar ainda mais o trânsito nas grandes artérias urbanas. Foi o que aconteceu na Avenida 24 de Julho, nas imediações do Cais do Sodré, onde foi criado um separador central ‘verde’ que, a bem dizer, mais do que um canteiro, é um inestético matagal, sem beleza nem graça, que nem sequer distrai quem agora demora, graças a esse ‘melhoramento’, o dobro do tempo, senão mais, a fazer o mesmo percurso.

Até houve o projecto de reduzir as faixas de rodagem da segunda circular mas, felizmente, não foi avante, por exigências do trânsito aéreo. Há que evitar que a segunda circular sirva de pista para corridas de automobilistas loucos, que não só arriscam as suas vidas, como as três vítimas mortais de um recente acidente, mas também a de todos os outros transeuntes. Mas a solução não passa, como é óbvio, pela diminuição das faixas de rodagem, já insuficientes para a circunvalação da cidade.

Uma coisa é proporcionar à capital zonas verdes, outra é convertê-la numa espécie de Amazónia dos pequeninos. Lisboa é uma cidade, não um jardim, nem um campo de golfe, nem um parque natural, nem uma mata, nem um bosque, nem uma floresta. Quem queira espaços verdes, pode ir para Monsanto, para as serras de Sintra, da Arrábida ou da Estrela. Quer deleitar-se com a natureza em estado selvagem?! Então troque a Baixa pelo parque natural da Peneda Gerês, mas, por favor, deixe Lisboa em paz! Converter a capital numa imensa ‘zona verde’, onde só se pode transitar de BTT, é tão absurdo como abrir uma autoestrada no cume da serra do Caramulo. Não seria má ideia que os nossos edis lessem A Cidade e as Serras, e deixassem o campo ser campo e a cidade ser cidade.

O delírio municipal chegou ao cúmulo de se propor fechar a Baixa-Chiado ao trânsito, controlando os forasteiros e os moradores que, a bem dizer, se deveriam passar a chamar reclusos, na medida em que passariam a ter termo de identidade e residência. Se assim for, um desgraçado residente na Rua Garrett, antes de convidar alguém, terá que pedir uma licença camarária, com indicação da matrícula do veículo intruso! E para a visita urgente de um médico, ou familiar?! Se for preciso pedir autorização à Câmara, e esta só responder dez dias depois … já nem sequer chega a tempo da missa do sétimo dia! A isto não se chama zona histórica, mas ‘cidade proibida’, ou ghetto.

Haja dó de Lisboa e, sobretudo, da Baixa-Chiado! Tirar-lhe o trânsito é tirar-lhe o comércio, os moradores, a vida. Se se impedir o acesso a essa parte da cidade, quem participará nas vinte missas diárias que se celebram nas suas dez igrejas (Loreto, Encarnação, Mártires, S. Sacramento, S. Domingos, Vitória, S. Nicolau, Oliveira, Madalena e Conceição)?! E que acontecerá à vida cultural da zona?! Pense-se no Centro Nacional de Cultura, nos Teatros Nacionais D. Maria II, São Carlos, Politeama, São Luís, Mário Viegas e Trindade, no Círculo Eça de Queiroz, no Turf e no Grémio Literário, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, nas Livrarias Férin e Bertrand, etc. A vida é movimento – também de carros – e, onde não há movimento, não há vida. Restringir o tráfego automóvel na Baixa-Chiado é razoável, mas impedi-lo é condená-la à morte lenta, convertê-la num grande cemitério, em que talvez se possa passear, mas onde não se pode viver.

Já é hora de os autarcas lisbonenses, que certamente querem o bem da cidade e dos seus moradores, pensarem menos nas ciclovias e nos espaços verdes e mais nos lisboetas. Seria bom que pensassem menos nos seus caprichos e devaneios urbanísticos e paisagísticos e mais nas necessidades reais dos munícipes. Em vez de gastar milhões em arranjos florais de escassa utilidade e discutível gosto – como justificar as obras na Praça de Espanha quando há, em Lisboa, tantas pessoas que nem sequer têm casa?! – que tal pensar nas pessoas que vivem e se deslocam na cidade, sobretudo os sem-abrigo, os deficientes, os idosos e as crianças?!

Cada vez gosto mais da minha ‘aldeia’ e reconheço que muito se tem feito por Lisboa, mas falta humanizar a cidade, torná-la mais solidária, sobretudo para quem mais precisa. Lisboa não pode ser para ‘inglês ver’, mas para lisboeta viver, morar e se deslocar com liberdade e qualidade de vida. Lisboa merece mais, Lisboa merece melhor.