Ainda me dói o corpo, depois de ter sido serrado e esfaqueado. Tossir dói. Levantar-me e deitar-me dói. Não são dores propriamente excruciantes, mas são dores fortes – cada dia que passa menos fortes, é verdade -, daquelas que nos fazem pensar duas vezes antes de iniciar um movimento. Mas sou um sortudo da pior espécie. A pouco e pouco, voltei a dar atenção às coisas, a fixar o olhar ou o pensamento, como nos maravilhosos pequenos quadros de Carl Spitzweg, o pintor por excelência da humana e humorística atenção, em vez de ser o receptáculo passivo de impressões informes que recebia como inteiramente alheias e sem significado.

Estou a falar de mim, mas poderia estar a falar de quem quer que tenha, como eu, feito um triplo bypass coronário, uma espécie de sacrifício asteca praticado com intenções benevolentes. A memória de quase um mês no hospital, em parte ditado, depois da operação, por complicações nos rins, bem como dos estranhos devaneios do espírito provocados pela anestesia geral, que fizeram de mim um perfeito Mr. Hyde dado a complexos de perseguição para um razoável Dr. Jekyll, tende a desvanecer-se. Escolhemos, firme e inconscientemente, o melhor. No meu caso, sonhos com comida. Uma experiência anterior já me havia informado que, numa enfermaria, se encontra com probabilidade alguém com quem falar sobre comida, um ideal suscitado pela cruel monotonia das refeições hospitalares. Desta vez, não foi excepção. Devo até dizer que os sonhos culinários alcançaram um patamar mais elevado do que no meu prévio internamento.

Esperei dois anos pela provação e pela redenção. Com efeito, em Abril de 2018, dei entrada na urgência do Hospital de Santo António, depois de nove noites sem conseguir praticamente dormir. Como escrevi na altura aqui, entreguei-me às autoridades, depois de uma vida em que fugi diligentemente de tudo o que fosse médico ou medicina. O meu raciocínio era de uma simplicidade e de uma verosimilhança cristalinas: competentemente observado, descobrir-se-ia certamente que, além da eventual maleita a curar, um sem-número de outras me habitariam (o que, de facto, veio a acontecer). Mas a maleita principal era um problema cardíaco: o meu coração – de cuja ternura nunca havia duvidado – batia lentamente, muito lentamente, como uma tartaruga paralítica. Doze dias de internamento, seguidos de uma medicação colossal, resolveram-me os problemas mais imediatos. Mas o triste estado das minhas artérias, dolorosamente fustigadas por uma vida intensamente dedicada à destruição, não permitia o pacato uso do banal cateterismo. Tinha de ser operado a sério.

Foi assim que passei do St. António para o S. João. E foi assim que começou uma espera de quase dois anos, com alguns adiamentos, até ao dia em que competentes profissionais me serraram e esfaquearam com sucesso. Quero ser muito enfático no meu agradecimento. E, sobretudo, afastar da forma mais veemente a possibilidade do que vou dizer ser interpretado como um queixume dirigido ao óptimo pessoal – médicos, enfermeiros, auxiliares de acção médica – que tomou conta de mim nesses longos dias. Devo-lhes muito. De facto, o que posso – e creio dever – dizer de negativo, o que me faz escrever este artigo, pode, em cada sílaba, ser lido como um elogio da dedicação e do cuidado desses profissionais. Permito-me insistir neste aspecto.

Mas é preciso falar do negativo, e aqui o meu caso pessoal confunde-se com o de um número vastíssimo de portugueses. Não falaria de mim, de resto, se não fosse assim. O negativo, ter-se-á adivinhado, é o estado presente do Serviço Nacional de Saúde. Indo mais directamente ao assunto: o negativo é político.

Com método e persistência, o governo navega entre a pura ideologia, estimulada pelo arcaico delírio do Bloco, que o faz proclamar a sua detestação por toda e qualquer parceria com o privado, declaradamente eficaz em muitos dos casos, e o mais primitivo tacticismo do dia-a-dia. O emblema típico deste estado das coisas foi o gesto de, face aos efeitos catastróficos das “cativações” de Centeno no SNS, iniciar a discussão sobre uma nova Lei de Bases da Saúde, uma nítida fuga para uma discussão abstracta com o fim notório de evitar a atenção aos problemas concretos.

Entretanto, e isto já dura há muito, sucedem-se episódios que revelam a situação política na saúde: demissão de direcções médicas, doentes que esperam seis meses por uma consulta de cuidados paliativos, mortes nas urgências por atrasos muito significativos no atendimento, encerramentos de serviços pediátricos e maternidades por falta de pessoal, inumeráveis aumentos nas listas de espera, e por aí adiante. Poderia continuar indefinidamente. O anterior ministro da Saúde prometia sucessivamente o que nunca vinha, mas sentia-se algum mal-estar na sua pessoa. A nova ministra da Saúde, Marta Temido, parece imune a essa compreensível reacção humana.

Que falte dinheiro ao país, e em particular que falte dinheiro para a saúde, é algo que toda a gente percebe. Vem de longe. Como se percebe que o PS nada tem feito, antes pelo contrário, para que a situação melhore. O que não se percebe – ou se calhar percebe-se muito bem – é que António Costa governe numa contradição permanente, ou, se se preferir, numa mentira ininterrupta que faz com que tudo surja desfocado. Por um lado, celebra-se o fim da austeridade; por outro, a dita austeridade salta aos olhos na vida quotidiana das pessoas. Isto, que toda a gente compreende e que muita gente insistentemente diz há muito, mas que vale a pena repetir, é grave em geral e é eminentemente grave no caso do SNS, em que os profissionais se vêem colocados em situações impossíveis e, pior ainda, os doentes – os chamados “utentes” –, criaturas inermes e, em situações-limite, desesperadas, se sentem abandonados, em pura derrelição.

Por tudo isto, uma voz que vale a pena sempre ouvir é a de Miguel Guimarães, o bastonário da Ordem dos Médicos. Sobriamente e com exactidão, diz aquilo que a ministra da Saúde procura silenciar ou costurar de modo a sofrer o mínimo de danos. Pelas razões que comecei por explicar, ouço-o sempre com atenção. E, por essas mesmas razões, permiti-me limitar-me ao óbvio, sem procurar ir mais além. Não consigo deixar de pensar que se António Costa abandonasse, pelo menos no caso concreto do SNS, a duplicidade e a mentira que são a essência da sua política, a austeridade insultuosamente disfarçada de ausência dela, algo de significativo poderia melhorar. Pelo menos, as coisas começariam a aparecer menos desfocadas e a pesada nuvem da ideologia feriria menos aqueles que trabalham no SNS e os doentes que precisam dos cuidados que ele oferece.