Recordo-me como se fosse hoje. No Estoril, em inícios dos anos 90, na primeira aula de história do ano, lendo o manual que todos tínhamos aberto em cima das nossas pequenas secretárias, a professora a proclamar que o estudo daquela disciplina era fundamental porque, e cito de memória, “o conhecimento do passado permite compreender o presente e preparar um futuro melhor”. Achei brilhante. Aliás, daí em diante, durante muitos anos, citei essa proclamação com a convicção própria de quem descobriu uma verdade profunda sobre a vida e o mundo.

De facto, de certa maneira, assim é. Conhecer o passado — algo, já agora, que menos vamos sendo capazes de fazer no Ocidente — é uma ferramenta para compreender o momento que vivemos, bem como aprender sucessos e erros que, mediante as circunstâncias adequadas, poderemos repetir, ou evitar, por forma a acautelar o futuro. No entanto, e parece-me ser este um exemplo tão bom quanto outro qualquer, não é o facto de uma coisa ser verdadeira que a torna um princípio máximo, ou sequer primordial. Explicitando. A referida máxima, não obstante a verdade evidente que salienta, esconde pressupostos que, ao contrário da proclamação, limitam o alcance da verdade que se julga conhecer a um raio de acção muito mais pequeno que a maior parte das pessoas, em particular no Ocidente, imagina.

O primeiro pressuposto, desde logo, é a noção de conhecimento implícita na afirmação. Conhecer o passado, compreender o presente, preparar o futuro, tudo isso se baseia na ideia de que passado, presente e futuro são cognoscíveis na sua verdadeira essência; mais, que são cognoscíveis por nós. E, depois, em segundo plano, um outro pressuposto passa também de fininho: a natureza transformável do mundo. No fundo, como tudo para o homo occidentalis, o futuro é gerível, controlável, adaptável às nossas necessidades e vontades — e, de facto, o pressuposto de que se pode controlar o que aí vem encerra muito do pensamento mitológico Ocidental, bem como alimenta o grande sonho progressista do liberalismo contemporâneo.

Muito disto, no entanto, quando bem visto, assenta apenas em ilusão, crença e, claro está, muito optimismo. Desde logo, a ideia de que podemos conhecer o passado e compreender o presente não passa de um devaneio próprio da modernidade. Como sabemos, não existe uma máquina que nos transporte no tempo e nos permita “conhecer”, saber, de facto, verdadeiramente, de forma absoluta, “o que se passou”. A história, por mais técnicas, carbono 14, modelos computacionais ou relatos que se utilizem, é tudo menos factual. Será, na melhor das hipóteses, “conjectural”, ou seja, é um conhecimento sempre probabilístico, inevitavelmente hipotético, necessariamente interpretativo, portanto subjectivo, consequentemente questionável — tudo menos dogmático, portanto.

Ainda assim, essa mesma história, apesar desta impossibilidade para se conhecer o facto passado com a certeza da infalibilidade matemática, será das disciplinas que mais prega o dogma do conhecimento humano — duvidar, questionar, negar aquilo que consensualmente se crê ter acontecido são actividades capazes de gerar o mais público dos ostracismos. Aliás, hoje em dia, em casos particulares, negar certo conhecimento histórico pode mesmo resultar em muitos países, incluindo no Ocidente, em pena de prisão — algo que não deixa de ser verdadeiramente extraordinário, porventura, apenas revelando que a importância do dogma, bem como a violência decretada sobre a heresia, será inversamente proporcional à real fragilidade das bases que sustentam tais dogmáticas asserções.

Adiante. Visto que a primeira premissa do axioma se revela como quimérica — conhecer o passado —, temos depois a segunda, igualmente onírica, que é a de “compreender” o presente. Ora, compreender — assim, no sentido de conhecer as razões e as causas daquilo que é —, como Nietzsche, Gadamer e tantos outros autores dos últimos 200 anos explicaram, não é uma possibilidade real. A mente humana não é neutra, nem é capaz de aceder ao conhecimento universal, perenal, perpétuo, que revela as coisas em si mesmo. Pelo contrário, a nossa compreensão, subjectiva e parcial, é necessariamente interpretativa, logo condicional, falível — no fundo, como lembraria Karl Popper, altamente “refutável”.

Ou seja, conhecemos por intuição, por aproximação, muitas vezes por imaginação, aquilo que sabemos certamente nunca poder conhecer verdadeiramente. Na realidade, contra toda e qualquer intuição do homo occidentalis, a verdade do mundo será necessariamente muito diferente daquilo que imaginamos que ela seja, ou tenha sido. Daí, presume-se, este hábito terrível que o mundo tem em pregar-nos surpresas, quando não rasteiras, e o futuro quando se julga presente tender para algo muito diverso daquilo que nós desejámos que pudesse ser.

Aliás, em boa verdade, com a excepção de pontes, casas, cálculos matemáticos e coisas próprias do duro, palpável, concreto e material, no que concerne o mundo das acções, dos desejos, das ideias e do tempo, as previsões humanas tendem a errar por muito. Desde o ano 1000 que se imaginava apocalíptico, passando pelo 2000 que se desenhava como hiper-tecnológico pleno de carros voadores e viagens espaciais, não esquecendo a idade do gelo dos anos 70 e o degelo dos 2010, a capacidade profética dos humanos, incluindo os ocidentais, será, para ser simpático, reduzida, senão nula.

A razão por trás de tamanha debilidade, claro está, é precisamente esta que aqui se aponta: prevemos baseados em conhecimento que imaginamos ter, mas que não temos — logo, prevemos mal. Até aqui, como vimos, nada se afirma de extraordinário, aliás, a única coisa extraordinária é mesmo, relevando-se o pleonasmo, esta incapacidade para reconhecer a nossa própria incapacidade. Hume, por exemplo, há muito que a dignosticou e baseado num simples pressuposto: mesmo as mais avançadas teorias sobre o mundo que o homem julga conhecer apenas podem ser conhecidas na sua relação de causa-efeito, nunca em si mesmas, ou seja, a sua fundação, a sua razão de existir, a sua finalidade última, tudo isso nos escapa necessariamente.

Por outras palavras, apenas podemos conhecer, ou imaginar conhecer, os “comos”, nunca os “porquês”, o que nos condena a uma descrição meramente empírica do que ocorre, limitando-se desse modo a capacidade de previsão, mesmo no campo dos princípios e das leis, à ideia básica, simples, que amanhã o mundo se comportará como ontem e hoje — aquilo que Hume chamava de “hábito”. Ainda assim, é nesta fugaz corda bamba, pairando sobre o mais profundo desconhecimento — da origem de tudo, do porquê de tudo, da finalidade de tudo —, que erigimos as mais complexas e sólidas construções mentais, tal como onde assentamos toda a nossa esperança de que, armados desse (des)conhecimento sobre as fundações do mundo, no final, “vá ficar tudo bem”.

Só que nem isso passa de um sonho. Infelizmente, as coisas, como todos sabemos, vão sempre, mas sempre mesmo, correr mal. Só não sabemos é quando. Agora que o fim, ao contrário dos nossos maiores ensejos, é tudo menos bom, isso é uma garantia cósmica, das poucas que a nossa limitadíssima compreensão da realidade permite obter. Mas assim é. A vida, desde logo, está condenada à morte. Com ela, a existência individual, sabemos nós como um facto, terminará inevitavelmente na destruição e morte, desde a nossa até a de todos os nossos queridos e descendentes, bem como, já agora, das nossas cidades, dos nossos países, do nosso planeta, da nossa galáxia e, de acordo com algumas teorias, do nosso universo. No final, tudo será destruído, aniquilado, morto.

A escala cósmica, claro, impede o desespero. Ao contrário do pequeno Alvy que, em Annie Hall, consegue vislumbrar, precocemente, aos cinco anos, na teoria que postula a expansão universal (até a um momento em que num Big Crunch tudo se contrai numa voracidade destruidora de retorno ao momento primordial), o absurdo existencial que justifica a inutilidade de fazer os trabalhos de casa, no mundo real, o abismo negro, ameaçador, vazio e caótico do desconhecido que sustenta as nossas maiores ambições é, habitualmente, gerido pelo mais elementar talento intelectual humano — a negação. Nietzsche, que estudou demoradamente esse vazio abissal, a propósito, comentou que quando olhamos o abismo ele tende a olhar de volta para nós. Ora, a esse olhar, normalmente, corresponde o homem com a negação, fugindo agarrando à ilusão de que “vai ficar tudo bem”.

Não obstante, as coisas são o que são. Bem podemos correr que não desaparece a única coisa que podemos de facto conhecer sobre o mundo: a de que tudo assenta numa enorme interrogação que nos envolve no mais profundo dos mistérios — um mistério que não controlamos, que dele não podemos fugir, tal como nunca, por definição, poderemos explicar.

Aliás, a busca da certeza explicadora, essa húbris própria do homo ocidentalis que nem o exemplo de Ícaro afogado no mar Egeu lhe faz reconhecer os devaneios próprios da sua arrogância, apenas gerou a convicção da inevitabilidade da incerteza. Descartes, um bom exemplo, julgou vislumbrar a certeza no pensamento, mas que pensamento nem ele soube descortinar além da imaginação que no mero acto de pensar existe uma certeza de existir. Espinosa, por outro lado, logrou ver o todo na natureza e na sua lei universal. Mas de que nos serve essa lei se, como Hume explicou, apenas lhe conhecemos os efeitos, e nunca as origens? E, pior ainda, que dizer de Kant que sonhou um sistema de conhecimento de tal modo complexo e total, uma passagem imperativa e categórica para uma nova, libertadora, moral científica e racional que prometia o reino dos fins e a paz perpétua, mas que assim apenas acabou dispensando a derradeira certeza que tínhamos sobre o mundo, a de que havia Deus para nos salvar do abismo? Agora, sobra o vazio — e um vazio que, sabemos nós, a seu tempo, nos engolirá.

É um terror, portanto, o que temos em permanência debaixo dos pés. E é desse terror, absurdo, infinito, inegável, que nasce o temor ao divino — nem de outra forma poderia ser. É de aceitarmos, ao contrário de negarmos, que não passamos de trapezistas num enorme vácuo, um vazio incompreensível, mas inegável, que a vertigem do abismo olha de volta para nós e, como Kierkegaard lembrava, é temendo e tremendo que, reconhecendo a pequenez absurda, cósmica ao mesmo tempo que cómica, ridícula, da nossa própria existência, nos podemos propor a viver esse absurdo. Mas viver implica afirmar o que é, não esvairmo-nos na negação da única coisa verdadeira que sabemos existir — o tal abismo misterioso, transcendente, que nos gerou, que nos sustenta e que, todos o sentimos, chama por nós.

É aqui que reside o grande erro do homo occidentalis, aquele que nega o divino e se assume a si próprio como o centro universal. Benzendo-se na convicção que a bata branca, a sala desinfectada e o microscópio electrónico serão capazes de encher o vazio sobre o qual o espírito se equilibra, medroso, aterrado mesmo, com o próximo passo, obceca o homo occidentalis com cada pormenor do seu complexo castelo, tudo para permitir o luxo da alienação sobre o facto de toda essa construção assentar num alicerce de areia que, inevitavelmente, a cada minuto, como uma ampulheta, se vai esvaindo rumo à inexistência. Mas é do alto desse patético pedestal que o homo ocidentalis nega aquilo que é — de facto a única coisa que se pode saber que é — escapando-lhe na sua soberba ignorância que o acto de negar implica tanto ou mais conhecimento como o de afirmar. Mais. Além de inglória, tal negação do divino será acima de tudo irracional: pois que se sabemos que nada podemos de facto saber sobre o mundo, então esse mundo real não poderá ser outra coisa além de misterioso, transcendente, tal como, porque nos gera, fecundo, logo Criador. Eis, em suma, o mistério da existência, do real que na vida material, por definição, se esconde sempre por detrás de uma espessíssima cortina.

Daí que seja muito limitado o caminho da razão que, afirmando-se a si própria, procure negar o transcendente: uma razão assente em conjuntura, ou ilusão, não passa de um sonho e, sendo sonhada, não pode demonstrar que aquilo que é, mesmo que desconhecido, não existe. Pelo contrário, a existir algo, é esse real que necessariamente nos transcende — nunca as efabulações das nossas pequenas mentes. Então, perante o abismo do desconhecido, sobra-nos a aceitação — a de, mesmo não se compreendendo, se saber ser nesse transcendente que fomos gerados, que somos sustidos, e onde retornaremos. A esta humilde aceitação da ignorância, Kirkegaard chamou salto mortale, ou seja, o reconhecimento que nada se podendo saber, tudo se crê. Já Pessoa, no Desassossego, explicou de outro modo: “a razão é a fé que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.” E há, mas que nos transcende.

No final, “temendo e tremendo”, resta apenas o que temos debaixo dos pés. E duas alternativas: vislumbrando o vazio que a seu tempo nos consumirá, gastar o entretanto na negação, na alienação gerada pelo medo, no pavor, adiando, perpetuamente adiando; ou, o proverbial salto de fé que, do temor, do terror, intente vislumbrar, intuir, crer, no misterioso a magia, o sagrado, o transcendente, o divino que, sendo inegável, factual apesar de incognoscível, ainda assim dele nos permite saber ser o alfa de onde vimos e o omega para onde tendemos — desse modo se aceitando um destino necessário, bem como um sentido para a viagem. Será, portanto, esse o oposto daquilo que o homo ocidentalis propõe: apenas rejeitando o medo da negação, afirmando o que é, crendo, esperando, humildemente aceitando, se poderá abraçar a libertação provida pela aceitação — e aí reside o alívio da salvação. Já a alternativa resume-se a uma condenação a um inglório exercício de perpétua fuga — até àquele instante onde, caindo o pano, se revela o facto incontornável daquilo que é. Mas aí, nesse momento final, já não dependerá de nós.