No século XIX, algures entre a sombra do Rathaus (a Câmara Municipal) e o rumor dos Stammtisch (as mesas redondas de cerveja), apareceu um homem a quem a história — por ironia e justiça poética — chamará Bürger. Não lia relatórios: considerava-os “um atentado à boa disposição”. Trocava estatísticas por anedotas, números por onomatopeias e debates por gritarias. Prometia “mais pão, menos contas e zero aborrecimento” e, sempre que alguém pedia detalhe, respondia com o seu programa de governo completo: “Depois vê-se!”

Bürger tinha um talento raro: dizia parvoíces óbvias com tanta convicção que soavam a revelação. “Os impostos são altos porque nos tiram dinheiro!”, bradava do balcão da cervejaria. A multidão — grata por finalmente entender política — explodia em aplausos. Quando um adversário perguntava “como financiará o Estado?”, Bürger abria os braços, sorria e devolvia a pergunta: “Mas por que é que o Estado precisa de tanto?” Brilhante. O detalhe é um desmancha-prazeres; a interrogação, um espetáculo.

O percurso fez-se em três actos.

Akt I — Geräusch (O barulho).

Bürger começou nas feiras de província, entre salsichas, barracas de tiros e fanfarras. Descobriu cedo que a plateia não queria respostas; queria frases com legenda pronta a partilhar. Disse, por exemplo: “O orçamento é como uma par de calças: se não serve, faz- se uns calções.” Um conselheiro levantou o sobrolho, mas não havia sobrolho suficientemente alto para alcançar os ombros do disparate. O povo riu. E foi nesse riso que Bürger montou a sua primeira maioria — não no Landtag, o Parlamento Regional, mas nas conversas de taberna.

Akt II — Spiegel (O espelho).

Quando já tinha microfone e carruagem municipal, Bürger apercebeu-se da lei de ferro da popularidade: as pessoas não ouvem o que dizes; ouvem o que confirmas. Disse “a cidade está suja” e cada um pensou na sua rua. Disse “há desperdício” e cada um imaginou o vizinho. Disse “o povo é sábio” e cada um ouviu “eu é que tenho razão”. Bürger tornou- se espelho portátil — um espelho que elogia de volta.

Akt III — Krönung des Nichts (A coroação do vazio).

Entre bravos e vivas, Bürger foi eleito. Na noite da vitória pediu ao chefe de gabinete (ele próprio) um “plano de cem dias”. Recebeu um envelope com uma única folha em branco, onde se lia: “Plano de Cem Dias: continuar a ganhar.” Coerente: a governação, diziam os cartazes, “não é ciência de fogo de artifício” (até porque eram caros).

No dia seguinte, rebentou o silêncio. “Herr Primeiro-Tudo”, perguntou um jornalista, “qual é a sua prioridade?” Bürger sorriu: “A prioridade é o que preocupa as pessoas.” “E o que preocupa as pessoas?” “Exatamente isso.”

A máquina do Estado, pouco habituada a governar com slogans, começou a chiar. Os ministérios passaram a chamar-se coisas úteis: Ministério dos Aplausos, Secretaria de Estado do ‘Depois Vê-se’, Direção-Geral do Bom Senso (Por Intuição). O Conselho de Ministros reunia-se às sextas-feiras, mas os comunicados saíam às quintas, “para não estragar o m de semana”. O orçamento inaugural foi lido como poesia concreta: muita disposição estética, pouca soma.

Quando, finalmente, alguém ousou trazer um dossiê com páginas — páginas! — Bürger ergueu o tomo como quem afasta um pombo atrevido e proclamou o seu princípio de gestão: “Se não cabe num cartaz, não cabe no país.” A frase, impressa em cartazes gigantes, cabia lindamente nas praças.

O problema, como quase sempre, foi a realidade, essa mal-educada insistente. Os buracos nas estradas não se fechavam com hashtags, a dívida não aceitava metáforas e a energia não se liga com likes. Numa tarde de rara honestidade, Bürger convocou a nação para anunciar “reformas estruturais”. A plateia prendeu a respiração. Ele pigarreou, abriu a pasta, tirou uma folha (em branco; tradição é tradição) e declarou: “Reformar as estruturas é, desde logo, reformar a linguagem. De hoje em diante, os problemas passam a chamar- se desafios.” O país suspirou, aliviado: problemas resolvidos.

Claro que nada ficou resolvido. A única obra concluída no mandato foi o Museum des Offensichtlichen — o Museu do Óbvio — com salas temáticas: “Coisas que já sabíamos”, “Coisas que fingimos não saber” e “Coisas que não queremos ouvir”. À entrada, uma instalação repetia em loop a citação mais célebre de Bürger: “Eu digo o que todos pensam.” A curadoria, num lampejo involuntário de lucidez, colocou ao lado um espelho.

No fim, quando as contas chegaram (as contas têm esse mau costume), o governo descobriu que o vazio tem preço. Bürger tentou o último número: convocou uma conferência para apresentar “o plano para o plano”. “Primeiro precisamos de ouvir as pessoas”, disse, como quem inventa a audição. E as pessoas, nessa tarde, ouviram-se. Algumas ouviram o estômago, outras a fatura da cera da vela, outras o silêncio da diligência que não veio. E começaram, finalmente, a ouvir o que Bürger nunca dissera: que governar é chato, custa, exige contas e escolhas — e que o “depois vê-se” é apenas um modo elegante de dizer “nunca se vê”.

Ficou a lição — e é bastante económica: a popularidade não mede a qualidade de uma ideia; mede a temperatura do aplauso. Bürger não venceu porque dizia disparates; venceu porque os disparates eram confortáveis. Perdeu quando o conforto ficou caro.

Nesta Alemanha ficcionada do século XIX, como hoje em qualquer lugar, a democracia dá-nos o direito de nos enganarmos. O problema não é esse. O problema é quando, por preguiça intelectual ou puro tédio, confundimos barulho com coragem e chavão com clareza — e entregamos a chave da casa a quem só sabe fazer eco no átrio. O nosso Bürger passou; o método ficou. Cabe-nos decidir se repetimos a peça ou, por uma vez, lemos o documento até ao fim.