Enquanto médica oncologista, acompanho a realidade vivida pelas doentes com cancro do do ovário. Infelizmente, apesar dos avanços constantes, o diagnóstico continua a ser tardio, em fases avançadas, comprometendo o prognóstico destas doentes. Seria importante, uma introspeção multidisciplinar para refletir sobre o que pode ser alterado, na nossa realidade, para um diagnóstico mais precoce.

Em Portugal, em 2022, foram registados 682 novos casos de cancro do ovário, tendo resultado em 472 mortes. Estes números, por si só, revelam a gravidade do problema. Sabemos hoje que, quando diagnosticado precocemente, este tumor pode ter uma taxa de sobrevivência a cinco anos na ordem dos 93%. No entanto, na maioria das situações, o diagnóstico surge tardiamente, reduzindo essa taxa para cerca de 30%. Esta diferença mostra como um diagnóstico mais precoce pode ser determinante.

Um dos fatores a contribuir para o diagnóstico tardio de cancro do ovário, são os sinais e sintomas inespecíficos, como a: distensão abdominal, alterações no trânsito intestinal, dor pélvica e/ ou sensação de enfartamento. Esta sintomatologia discreta pode ser facilmente desvalorizada e atribuída a outras causas e este é um dos grandes desafios, e uma área onde podemos tentar intervir, através da sensibilização da população.

Este diagnóstico pode ter também um componente genético, sendo importante a identificação destas famílias para otimizar a sua vigilância e possibilidade de estratégias profiláticas, quando indicado. Estima-se que cerca de um quarto dos casos estejam associados a alterações hereditárias, sobretudo nos genes BRCA1 e BRCA2.

O impacto desta doença acaba por ter também impacto do ponto de vista emocional. física. O diagnóstico oncológico, consequências dos vários tipos de tratamento e a incerteza constante de uma possível recidiva, estão muitas vezes associadas a alterações emocionais, com as quais pode haver diferentes formas de lidar. Uma possível recidiva, após um período de remissão ou de ausência de sinais e sintomas — que afeta cerca de 70% das doentes com doença avançada nos primeiros três anos — são realidades que exigem uma abordagem verdadeiramente multidisciplinar, onde os apoios psicológicos, nutricionais e sociais são essenciais para uma melhor abordagem holística das doentes.

Recentemente, assinalou-se o Dia Mundial do Cancro do Ovário, a 8 de maio. Foi um momento importante para aumentar a visibilidade desta doença, sendo fundamental que este esforço não se limite a uma data. É preciso garantir que as mensagens tenham como destino final a população e a sociedade, de forma clara, acessível e sustentada.

Ainda temos um longo percurso pela frente,  na investigação, no diagnóstico precoce, na igualdade de acesso aos cuidados e no reconhecimento da saúde da mulher como uma prioridade contínua. O cancro do ovário pode ser uma doença difícil, mas não deve ser inevitavelmente uma sentença. Podemos sem dúvida, em conjunto e com uma abordagem multidisciplinar, fazer mais e melhor.