“Também tive cancro da mama.” É uma frase comum, que os doentes reproduzem na consulta quando comentam o que aconteceu com uma amiga, vizinha, ou alguém conhecido. Na realidade, o intuito da frase traduz uma boa intenção, solidariedade, pretendendo dar suporte emocional. No entanto, são vários os tipos biológicos de cancro de mama, sendo que cada um deles apresenta comportamento e prognóstico distinto, com tipos de tratamento e respetivo resultado diferente. Desta forma, cada situação acaba por ser única, o paralelismo pode assim ser prejudicial, criando dúvidas e expectativas desajustadas.

Claro que uma partilha de experiências pode ser benéfico para ultrapassar este diagnóstico tão difícil, dando um apoio complementar ao da consulta, mas é importante destacar que o caminho, apesar de ser o mesmo, pode ser feito de forma distinta; não é melhor, nem pior, mas apenas diferente.  Na consulta de oncologia, por detrás do mesmo diagnóstico, “cancro da mama”, estão um grupo de doenças biologicamente heterogéneas, sendo importante explicar a cada doente o seu diagnóstico, as suas particularidades, o porquê dos tratamentos propostos, dando-lhe oportunidade de percecionar a trajetória oncológica que se está a iniciar. É fundamental adaptar a consulta a cada pessoa, à sua capacidade de interpretação e ao que pretende saber sobre o diagnóstico e respetiva situação clínica. Cada doente tem as suas próprias necessidades.

“O meu é diferente do teu”, é o que pretendemos que os doentes tenham capacidade de responder quando são interpelados com diferentes situações clínicas e comparações. Os tumores não são todos iguais. A classificação clássica – luminal A, luminal B, HER2 positivo e triplo negativo – foi durante anos, o pilar para orientação das várias opções terapêuticas. Baseia-se em três características das células tumorais: presença de dois tipos de recetores hormonais e consequente crescimento dependente das hormonas estrogénio e progesterona, e do recetor da membrana celular tumoral HER2, que pode estar ou não amplificado. No entanto, a biologia tumoral é mais heterogénea e dinâmica, e a categorização habitual permanece presa a simplificações estruturais.  As inovações terapêuticas estão a reforçar a necessidade de uma classificação molecular, influenciando as fronteiras que existiam entre os vários subtipos.

Além do subtipo de tumor, é importante ainda avaliar o grau de diferenciação da célula tumoral e a propagação do tumor, ou seja, o estádio tumoral. Estadiar implica verificar o tamanho do tumor primário da mama e o nível de disseminação, loco regional (para zona axilar, supra ou infraclavicular) ou à distância (para outros órgãos, tais como fígado, osso, pulmão, cérebro, entre outros). Nos tumores associados à dependência hormonal, o tratamento sistémico por norma inclui hormonoterapia. A prescrição de quimioterapia neste subtipo também pode estar indicada, principalmente nos que apresentam fatores de maior risco. Os tumores “triplo negativos”, são aqueles que não têm nenhuma destas características, pelo que o tratamento se centra na quimioterapia e imunoterapia. Para os tumores com positividade HER2, a terapêutica biológica, com anticorpos dirigidos a este recetor, e denominada antiHER2 é fundamental. A realização de radioterapia depende adicionalmente de todos estes fatores e do tipo de cirurgia realizada.

Assim, a personalização do tratamento do cancro da mama é uma realidade. Esta individualização está então dependente das características associados ao tumor, mas também do próprio doente, sendo essencial a avaliação de outras doenças diagnosticadas ao longo da vida (co-morbilidades) e à robustez física da própria pessoa.

Este é motivo pelo qual um esquema terapêutico que tenha sido considerado para um doente seja diferente e considerado inadequado para outra pessoa, mesmo com a mesma idade, co-morbilidades e estado geral. A medicina de precisão é a realidade: adaptar o tratamento à biologia real de cada tumor e indivíduo.

“O meu tratamento foi diferente do teu”, não está a questionar o diagnóstico nem o sofrimento, está simplesmente a destacar que a realidade pode ser diferente, evitando comparações inadequadas.

A necessidade e o apoio que cada doente precisa também é diferente, de acordo com a sua situação clínica e vivências pessoais. O tratamento do cancro da mama é multidisciplinar sendo essencial uma abordagem holística, que avalie cada doente de acordo com as suas necessidades e qual a melhor forma de ajudar a percorrer um caminho tão difícil como quando é confrontado com este diagnóstico. Mesmo duas pessoas com o mesmo subtipo biológico de tumor com o mesmo estádio, vão percecionar a doença de forma distinta e podem apresentar necessidades diferentes.

O cancro da mama não é uma doença única, são vários os tipos de cancro de mama. “O meu cancro pode ser diferente do teu”, mas todos eles devem ter um tratamento adequado à sua biologia individual e um acompanhamento personalizado ao longo de todo o percurso e trajetória oncológica.