Por uma feliz coincidência, duas notícias relativas a dois portugueses de grande prestígio internacional foram, esta semana, manchete na imprensa nacional. Refiro-me à última proeza futebolística de Cristiano Ronaldo e à viagem de circum-navegação protagonizada, há quinhentos anos, por Fernão de Magalhães.

O capitão da selecção portuguesa de futebol, que joga agora na Juventus, depois de ter sido, durante vários anos, jogador do Real Madrid, marcou três golos contra o Atlético, também clube da capital espanhola. Acrescenta assim mais um troféu ao seu bem guarnecido palmarés: é agora, na história Champions, quem mais golos marcou. Não é pequeno consolo para quem é o melhor jogador de futebol do mundo, salvo parecer contrário da muito patrioteira e pouco ‘Real’ Academia da História espanhola.

Com efeito, a propósito dos quinhentos anos da primeira viagem de circum-navegação, que agora ocorrem, a dita Real Academia da História emitiu um comunicado, no passado dia 10, em que afirma que “é incontestável a plena e exclusiva autoria espanhola” dessa expedição marítima.

É curioso que supostos historiadores declarem, ex cathedra, que uma determinada tese científica é “incontestável” porque, se o fosse, não teria contestação possível, logo não seria preciso dizê-lo. Portanto, se se afirma que é “incontestável”, é de supor que o não é … A Real Academia da História pretendeu, através de um pronunciamento autoritário, impedir uma discussão que, ao contrário do que fez crer, é cientificamente pertinente.

É razoável que as questões de fé não sejam, para os crentes, discutíveis, mas as conclusões dos conhecimentos humanos são sempre questionáveis: muitas conclusões científicas, tidas por incontestáveis, como o geocentrismo, foram depois cientificamente desmentidas. A história, como ciência social, está sujeita a esta dialéctica e, por isso, não há questões históricas que sejam incontestáveis: cabe sempre a possibilidade de uma melhor explicação do passado.

É problemática a autoria de uma viagem à volta do mundo, que implicou muitos meios humanos e materiais. Decerto, é determinante a identificação do Estado proprietário das naus que realizaram essa viagem, bem como a origem dos fundos que a subsidiaram, mas não é menos relevante a nacionalidade do seu principal agente. Ora, se foi Castela a nação empreendedora desse feito, foi seu protagonista Fernão de Magalhães, cidadão português, nascido e criado em Portugal, cujas origens familiares foram recentemente apuradas por uma dupla de excelentes investigadores nacionais, os irmãos Engenheiros José Eduardo e António Luís de Mattos e Silva.

Por outro lado, é discutível que, a princípios do século XVI, se possa falar de uma “autoria espanhola”. O Estado espanhol nasce no momento em que os diversos reinos peninsulares, com a excepção de Portugal e do principado de Andorra, se uniram num Estado plurinacional, o que acontece, de facto, pelo casamento dos reis católicos, mas, de iure, muito depois da primeira viagem de circum-navegação.

Portugal surge, como Estado independente, com D. Afonso Henriques, cuja dignidade real é reconhecida pelo então rei de Leão, de quem antes tinha sido vassalo, e pelo Papa, que era nessa altura a máxima autoridade internacional. Por este motivo, ao contrário do que por vezes se diz, Portugal nunca se separou de Espanha, porque muito antes de este país existir como um Estado único, já Portugal era uma nação soberana. O condado portucalense, que sim foi parte do reino de Leão, deixou de o ser quando se tornou independente e foi como tal reconhecido pelo monarca leonês e pela comunidade internacional.

É sabido também que Fernão de Magalhães, cujo nome foi dado ao estreito que faculta a passagem marítima entre os oceanos Atlântico e Pacífico, realizou essa viagem à volta do mundo em nome e às expensas do monarca castelhano, cabendo portanto à actual e moderna Espanha, como Estado herdeiro do antigo reino de Castela, a glória de ter patrocinado essa histórica viagem. É mérito que, certamente, ninguém discute, a não ser que, por absurda hipótese, algum membro da Academia da História alemã, tendo em conta que o então monarca castelhano era o imperador Carlos V da Alemanha, considere, ao jeito dos seus confrades espanhóis, que “é incontestável a plena e exclusiva autoria” germânica da viagem de circum-navegação …

Que tenha sido às ordens de Castela que Fernão de Magalhães realizou tão assinalado feito em nada afecta, contudo, a nacionalidade do navegador. Nem sequer foi, a bem dizer, um caso inédito. O facto de Cristóvão Colombo não ser castelhano, como se supõe, não obsta a que se atribua a Castela e, sucessivamente, a Espanha, o mérito histórico do descobrimento da América. Como Colombo pensou que tinha chegado à Índia, que era a meta pretendida, chamou ‘índios’ aos indígenas do novo continente… O que o navegante supostamente genovês não logrou foi, pelo contrário, conseguido pelo português D. Vasco da Gama, a quem se ficou a dever a descoberta do caminho marítimo para a Índia, que abriu ao ocidente a rota do extremo oriente.

Manuel Carvalho, em muito lúcido editorial do Público de 12-3-2019, recorda que a celebrada viagem de circum-navegação foi “dirigida inicialmente por um navegador português que conhecia a rota ocidental do Atlântico”, “na sequência de saberes acumulados por árabes, italianos e portugueses. Na tripulação de Magalhães havia 239 marinheiros de nove nacionalidades, dos quais 32 eram portugueses. Pretender que a façanha do navegador é portuguesa é um disparate histórico”. Seria o mesmo que dizer que o Vaticano é uma colónia argentina, dada a nacionalidade do actual pontífice romano, ou a ONU é uma instituição portuguesa, porque o seu secretário-geral é nosso compatriota. Mas não é menos disparatado afirmar, como fez a Real Academia de História espanhola, “a plena e exclusiva espanholidade da empresa”. Uma tal afirmação é mesmo uma plena e exclusiva espanholada …

Espanha, mesmo sendo um Estado recente e com graves problemas identitários, como se viu a propósito da crise catalã, não precisa de se apropriar das glórias alheias, porque as tem sobejas na sua história e na história dos reinos que a antecederam. Há até muitos vultos peninsulares que repartiram a sua existência entre os dois grandes Estados ibéricos, sem que sejam, por esse motivo, razão de qualquer contencioso entre Portugal e Espanha: a aragonesa Rainha Santa Isabel de Portugal; a portuguesa Santa Beatriz da Silva, que viveu praticamente toda a sua vida em Espanha, onde fundou a Ordem Concepcionista; a andaluza Rainha D. Luísa de Gusmão, que foi casada com el-Rei D. João IV e grande impulsionadora da restauração da independência nacional; o alentejano São João de Deus, muito venerado em Granada e também fundador de uma ordem religiosa; o genial pintor Diego Velázquez que tinha ascendência lusitana por seu pai, João Rodrigues da Silva; a Infanta portuguesa Bárbara de Bragança, que foi Rainha de Espanha e grande protectora das artes no país vizinho, etc.

Se ‘nuestros hermanos’ não tiverem o bom-senso de reconhecer o que a cada um dos Estados ibéricos corresponde, talvez seja bom lembrar-lhes que um dos ‘seus’ principais pintores é, nada mais nem nada menos, do que “el Greco” …

Dê-se, pois, o seu a seu dono: a Espanha reconheça-se o mérito de ter financiado e concluído, na pessoa de Juan Sebastián Elcano, a primeira viagem de circum-navegação, mas sem negar que essa empresa foi possível graças aos conhecimentos, experiência e heroísmo de um português, de seu nome Fernão de Magalhães. Com certeza que o Real Madrid, como agora a Juventus, são, respectivamente, excelentes clubes de futebol de Espanha e de Itália, mas o por ora melhor jogador de futebol do mundo é, com a devida vénia, português. José Saramago viveu uns anos em Espanha, onde morreu, mas a nacionalidade e obra do prémio Nobel é, indiscutivelmente, portuguesa.

Em boa hora, Espanha e Portugal acordaram uma candidatura conjunta da primeira viagem de circum-navegação a património mundial da UNESCO: seria bom que esse espírito de salutar cooperação, sem serôdios imperalismos nem disparatados nacionalismos, presidisse às comemorações desse feito histórico, que é certamente espanhol, português, italiano e europeu. Que Fernão de Magalhães não seja pretexto para a reedição da velha inimizade peninsular, mas o auspicioso padroeiro de uma nova e fraterna cooperação entre Portugal e Espanha.