A revisão em alta do crescimento do PIB em 2017 (de 2,8% para 3,5%) e em 2018 (de 2,1% para 2,4%), divulgada recentemente pelo INE, é, obviamente, uma excelente noticia que não pode ser minimizada.

Contudo, estando Portugal integrado numa União Económica e Monetária, importa analisar o desempenho de Portugal face aos seus congéneres europeus, procurando apurar o verdadeiro grau de convergência da economia portuguesa e, em que medida, estamos mais “europeus”.

A primeira grande constatação é a de que Portugal cresceu, nos últimos anos, acima da média da Zona Euro. Com efeito, os anos de 2017 (com a maior taxa de crescimento desde 2000), 2018 e, de acordo com as previsões do FMI, 2019 (para além de 2009 em que o PIB português caiu menos do que a média da Zona Euro), são anos de exceção a uma regra (desde 2000 já se registaram 16 anos de crescimento abaixo da média da Zona Euro), ao permitirem que Portugal convergisse, em termos de PIB, face à média da Zona Euro.

Uma segunda constatação, complementar da primeira, é a de que em 2019, Portugal irá registar um crescimento inferior ao observado em 14 países da Zona Euro (abaixo de nós, apenas a Bélgica, França, Alemanha e Itália). Registe-se, aliás, que apenas em 2009, 2010 (antevéspera do pedido de ajuda internacional) e 2017, Portugal cresceu mais do que a maioria dos países da Zona Euro.

Por fim, constata-se, igualmente, que o PIB per capita, expresso em paridades de poder de compra (PPP) situou-se, em 2017, nos 76,6% da média da União Europeia (último dado disponível), valor abaixo dos 77,2% observado em 2016 e dos 76,7% de 2015. Atente-se, que no universo dos países da Zona Euro, e de acordo com as previsões do FMI, Portugal deverá ocupar, segundo este indicador, o 17º lugar (apenas à frente da Letónia e Grécia), posição igual à registada em 2015 e abaixo do 12º lugar registado em 2000.

Os dados sobre o crescimento económico de Portugal face aos restantes países da Zona Euro fazem-me lembrar uma história que costumava contar aos meus alunos para ilustrar o cuidado que devemos ter quando olhamos para as estatísticas.

A história é simples. Imagine-se que no “País das Maravilhas” vivem apenas 3 indivíduos: O Sr. Rico, o Sr. Médio e o Sr. Pobre. O Sr. Rico tinha uma riqueza avaliada em 700, o Sr. Pobre uma riqueza de 100 e o Sr. Médio uma riqueza de 200, a que correspondia uma riqueza total desta economia de 1000 (700+100+200).

Admita-se agora que o Sr. Rico ficou mais pobre (-150), o Sr. Pobre ficou mais rico (+130) e o Sr. Médio também ficou mais rico (+20).

A riqueza total da economia manteve-se nos 1000 (550+230+220), com a riqueza do Sr. Médio a crescer 10% e a do Sr. Pobre 130% (ambos, acima do crescimento médio de 0% da economia).

Contudo, numa perspetiva de posicionamento relativo de cada um dos indivíduos em termos de riqueza, a situação sofreu alterações. Apesar do Sr. Rico continuar a ser o mais rico (55% da riqueza total), o Sr. Pobre já não é o mais pobre (23% da riqueza total) e o Sr. Médio passou a ser o mais pobre (22% da riqueza total).

Perante estes resultados, o Sr. Rico ficou relativamente contente, mas preocupado. Com efeito, apesar de continuar a ser o mais rico, tinha ficado mais pobre.

O Sr. Pobre estava duplamente contente, mas, ainda assim, insatisfeito. Estava mais rico, e até deixou de ser o mais pobre, mas continuava a ser mais pobre do que o Sr. Rico.

E o Sr. Médio, como estaria? Afinal tinha crescido acima da média, mas agora era mais pobre do que o Sr. Pobre.

Professor universitário