Os investidores e as instituições financeiras, responsáveis pelo financiamento da economia, devem encontrar as soluções e criar os produtos para apoiar os seus clientes na renovação das suas atividades (que foram afetadas pela pandemia de coronavírus), ao mesmo tempo que aceleram a transição para uma nova economia, sustentável, no futuro (novo crescimento e emprego). Do ponto de vista da conservação dos oceanos, esta estratégia inclui uma utilização sustentável dos oceanos, mares e recursos marinhos – tal como referido no SDG # 14 da ONU – “Vida debaixo de água”.

Os oceanos ocupam um lugar importante no nosso planeta – se fossem uma nação, classificar-se-iam como a sétima maior economia do mundo. Gerariam, direta e indiretamente, mais de 2,5 milhões de biliões de dólares do PIB e proporcionariam mais de 35 milhões de empregos diretos. A Economia Azul abrange, hoje, principalmente as indústrias baseadas no oceano, tais como o turismo, energia, navegação e pescas, mas também, e cada vez mais, os bens naturais e os serviços de ecossistemas que o Oceano proporciona, com abundância de novas oportunidades lideradas pela tecnologia e a inovação. De facto, o Oceano permanece amplamente inexplorado – ainda mais do que a Lua.

Embora a capacidade do Oceano para enfrentar alguns dos desafios existentes no nosso planeta – alterações climáticas, produção de energia, segurança alimentar e cuidados médicos – seja enorme, por outro lado, tem também os seus próprios desafios a enfrentar – sobre-exploração, poluição, perda de biodiversidade e enormes emissões de gases – de modo a poder desenvolver uma Economia Azul. Para ter sucesso, todos os negócios existentes relacionados com os oceanos precisam de passar por uma profunda transformação na forma como estão a ser realizados.

No que diz respeito à indústria dos transportes marítimos (80% da carga do planeta), um esforço conjunto liderado pelos bancos, em colaboração com os principais stakeholders da indústria e com o apoio de peritos, esteve na origem da definição dos “Princípios de Poseidon” – um quadro global para o financiamento responsável dos navios. Este quadro integra considerações climáticas em portefólios bancários e decisões de crédito para promover a descarbonização dos transportes marítimos internacionais. O objetivo dos “Princípios” é satisfazer a ambição da Organização Marítima Internacional (OMI) de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa dos navios em pelo menos 50% até 2050, em comparação com 2008. Eles irão fornecer os instrumentos para medir e gerir as intensidades de CO2 dos portefólios de financiamento dos transportes marítimos com base numa metodologia comum a todos os bancos signatários, da qual o BNP Paribas faz parte.

Se pensarmos no turismo, o mercado global tem sido desenvolvido em todo o planeta através de grandes hotéis e resorts marítimos, bem como gigantescos navios de cruzeiro, que transportam milhares de passageiros, sem qualquer consideração sobre alterações climáticas, perda de biodiversidade ou inclusão da comunidade local. Ao mesmo tempo que é necessário preservar a contribuição económica deste setor para o PIB e o emprego dos países, é urgente que o turismo marítimo e costeiro evolua para um Turismo Azul Eco sustentável.

Portugal tem a terceira maior zona económica exclusiva da União Europeia e, surpreendentemente, a Economia Azul representa apenas cerca de 5% do PIB nacional. Existe um enorme potencial para desenvolver a Economia Azul, nomeadamente na energia a partir dos oceanos (energia eólica offshore, ondas e marés) e na aquicultura (peixe e algas marinhas). Com o intuito de impulsionar o desenvolvimento a longo prazo da Economia Azul no país, estão a surgir iniciativas públicas e privadas, como, por exemplo: o Fórum Oceano – o cluster oficial português da Economia Azul, que já reúne mais de 100 membros, abrangendo diferentes setores de atividade da Economia Azul e áreas complementares, que não podem ser deixadas à parte (ou seja, por exemplo, a indústria bancária).

Numa demonstração da vontade de participar em grandes projetos internacionais e de acelerar o investimento na Economia Azul sustentável, estão a surgir novas startups, verdadeiras incubadoras de novas abordagens ao Oceano, para estimular o empreendedorismo e fomentar uma Economia Azul sustentável na área atlântica. Um bom exemplo disso é o novo consórcio europeu denominado Atlantic Smart Ports Blue Acceleration Network – que reúne os principais portos europeus, aceleradores, clusters marítimos e outros stakeholders públicos e privados relevantes.

A Economia Azul – relacionada com todas as atividades económicas com base no Oceano – tem a particularidade de integrar sistematicamente a sustentabilidade no seu modelo de negócio – alterações climáticas, biodiversidade e inclusão social, bem como de gerar um crescimento rentável duradouro.

Como sinal claro da contribuição do setor bancário, 185 bancos acordaram na definição e aplicação dos “Princípios para uma Atividade Bancária Responsável”, que fornece o quadro para um sistema bancário sustentável. Ao aderir a este movimento transformador e liderando o caminho para um futuro melhor, o setor bancário demonstra como pode ter um impacto positivo na sociedade e no ambiente, tal como é esperado pelas pessoas e demais stakeholders em geral. Contribuindo também e para além disso, para a conservação dos oceanos e para o desenvolvimento da Economia Azul em particular.

O investimento duradouro e integrado no desenvolvimento da Economia Azul tem sido uma prioridade adiada, faltando um plano de ação ambicioso e concertado entre o sector económico e a comunidade de especialistas ambientais. Felizmente, essa situação está a mudar, sendo hoje indiscutível o papel de agente de mudança que a Economia Azul pode ter na vida do nosso planeta. Afinal, vista do espaço, a Terra continua a ser o Planeta Azul!