Boa parte da minha carreira tem sido passada a convencer pessoas, nas mais variadas indústrias, sobre os benefícios dos canais digitais. Redes sociais, smartphones e apps há muito que fazem parte do meu dia-a-dia no plano profissional e pessoal. E por isso sinto que estou em condições de dizer que não há qualquer razão para uma criança com menos de 16 anos ter um smartphone ou perfil em redes sociais.

Viver em Londres expõe-me a diversas realidades diferentes daquela a que me habituei em Portugal. Tradições novas, multiculturalismo, formas de estar distintas daquilo a que um português está habituado. Este melting pot bestial faz parte do encanto de cá viver, e há poucos lugares no mundo como esta cidade. Uma das várias coisas incríveis que o Reino Unido tem é a sua dimensão e a paixão por dados estatísticos. Seja no desporto, sector público, sector privado, entretenimento ou outra área qualquer, é certinho que há uma estatística feita sobre o assunto em questão. Afinal de contas, ter 65 milhões de pessoas ajuda muito quando se quer descobrir mais acerca dos hábitos e tendências dessa sociedade – como, por exemplo, que o chá mais consumido pelos súbditos de Sua Majestade é o chá preto, com English Breakfast, Darjeeling e Earl Grey à cabeça. Não é por acaso que se diz que uma pessoa bem informada toma melhores decisões.

Mas voltemos ao que nos traz aqui hoje. Em 2024, o regulador das telecomunicações do Reino Unido, Ofcom, divulgou dados preocupantes. Cerca de 25% das crianças entre os 5 e os 7 anos já têm smartphone, e aos 11 anos, 90% têm telemóvel. Além disso, um outro estudo recente revelou que 10% das crianças com 9 anos já tinham visto pornografia, e esse número subia para 27% aos 11 anos.

Quando se trata de redes sociais, 75% das crianças entre os 8 e os 17 anos têm um perfil próprio, apesar de a idade mínima para criar contas ser 13 anos. Por fim, o tempo passado em frente aos ecrãs é esmagador: crianças entre os 8 e os 12 anos passam em média 4 a 6 horas por dia a usar dispositivos, enquanto os adolescentes podem chegar a 9 horas diárias.

Atrevo-me a dizer que em Portugal a realidade não será muito diferente. Da próxima vez que entrar num restaurante, faça o exercício de olhar à volta – o mais certo é dar de caras com alguma(s) criança(s) de olhos vidrados no ecrã, num mundo digital completamente alheio à realidade física que o(s) rodeia.

Se às crianças isto faz mal, o que dizer dos adultos? Desde que me conheço que sou um leitor ávido. Ler livros, jornais e revistas sempre fez parte das minhas rotinas. É fonte de conhecimento, imaginação e entretenimento. Mas nos últimos anos tenho notado uma tendência cada vez maior para essas experiências darem lugar à falta de concentração e de paciência para pegar num livro e desfrutar. Canso-me rapidamente e, frequentemente, sinto a necessidade de pegar no telemóvel no espaço de pouco tempo e, a esforço, lá acabo por me obrigar a continuar a leitura.

Parece que não sou caso único. Um estudo recente da instituição de caridade Reading Agency revelou que apenas metade dos adultos no Reino Unido ainda lê regularmente por prazer, uma queda em relação aos 58% registados em 2015. Ainda mais preocupante, 35% dos adultos são leitores que abandonaram o hábito.

Não é, portanto, de estranhar que o termo “brain rot” (deterioração – ou podridão – cerebral) tenha sido eleito Palavra do Ano em 2024 pela Oxford University Press. Este conceito descreve o efeito do consumo excessivo de conteúdos digitais rápidos e de baixa qualidade. Somos, ao mesmo tempo, cozinheiros e clientes de faca e garfo desta dieta mental que nos habitua a gratificações imediatas. O menu, outrora extenso e farto, deu lugar a pequenos snacks, à custa de actividades mais complexas como ler um livro, escrever ou até pensar de forma crítica.

Se para nós adultos, com cérebros já desenvolvidos e amadurecidos, é este o impacto, o que dizer de crianças? Faz sentido dar-lhes para as mãos uma ferramenta que reconfigura a forma como os seus cérebros aprendem, pensam e processam o mundo, numa fase em que o desenvolvimento cognitivo é mais sensível e crucial?

Se queremos criar uma geração resiliente, criativa e capaz de pensar criticamente, é nossa obrigação oferecer às nossas crianças algo mais do que um ecrã brilhante. Ansiedade, depressão, baixa autoestima, violência, pornografia, cyberbullying, distúrbios de sono, variações de humor. Estes são os riscos que as nossas crianças enfrentam diariamente, numa fase crucial para o seu crescimento, com um smartphone na mão.

O que as crianças precisam é de tempo ao ar livre, de experiências reais, de brincadeiras criativas e de conversas cara a cara. Precisam de espaço para crescer e aprender sem a pressão constante de likes, notificações e a comparação promovida pelo mundo digital.

Fazer de conta que os smartphones e as redes sociais não fazem parte do nosso dia-a-dia é um exercício de ignorância. Mas não têm de ser parte das nossas vidas desde cedo. Adiar o seu uso, dando-lhes tempo e espaço para crescerem e descobrirem o mundo sem a pressão do digital, não é um acto de privação – é um acto de protecção.