Um pouco por todo o mundo, a Esquerda, em particular a Europeia, fez de Donald Trump persona non grata por todos os motivos e mais alguns. Por ser anti-woke, por não tem filtro antes de abrir a boca e dizer coisas que seriam impensáveis ouvir de uma criança, quanto mais de um líder da maior potência do mundo, por apoiar Israel. Bastava respirar que lhe caíam em cima. Do outro lado, à Direita, tudo — ou quase tudo — se aturava e aceitava em Donald Trump. Para a maioria dos líderes mundiais, o pragmatismo dos benefícios de se ter, num mundo complexo e com várias peças em movimento ao mesmo tempo, um falcão a liderar a maior potência mundial compensavam largamente quando comparados com os disparates, gaffes de protocolo e sucessivas indiscrições do Presidente norte-americano. A retórica abrasiva e o caos permanente da sua primeira Administração eram um preço relativamente justo a pagar pela garantia de um Ocidente forte e de um equilíbrio de forças que, apesar de instável, ainda assim funcionava.
Até isso se tornar um problema.
Comecemos pelo óbvio: Donald Trump nunca foi confiável. Começa todas as negociações com o revólver em cima da mesa, como que dizendo “Comigo é assim”. Não é um estratega frio e calculista, mas antes um jogador impulsivo, para quem o confronto é um fim em si mesmo. Precisa de inimigos e, quando não os tem, inventa-os. Faz o mesmo aos aliados e, quando já não precisa deles, descarta-os. A obsessão constante, qual macho-alfa, em busca do conflito porque só nesse cenário consegue ser superior, diz muito – mas não tudo – acerca do que uma pessoa destas é capaz.
Durante o seu primeiro mandato, a hostilidade contra os aliados europeus, a submissão a autocratas como Putin e Kim Jong-un e a incapacidade de lidar com crises internacionais foram vistas como excentricidades de um presidente diferente. Sem consequências catastróficas. Havia adultos na sala.
Mas agora, ao encetar um processo de rendição da Ucrânia e ao tratar Volodymyr Zelensky como um pária, Trump demonstrou, sem margem para dúvidas, que está disposto a abandonar os princípios básicos da politica internacional, ainda profundamente enraizados no pós-Segunda Guerra, e a reconfigurar a ordem mundial não apenas com base no interesse americano, mas na sua própria necessidade de domínio pessoal.
O perigo do isolamento e do desprezo pelos aliados
O seu plano para a Ucrânia não é um plano de paz. É uma rendição camuflada, uma tentativa de obrigar um país soberano a ceder território e autodeterminação em troca de uma ilusória promessa de estabilidade. É o que Chamberlain tentou em Munique em 1938. A paz a qualquer custo, de novo sem garantias. E sabemos como isso terminou.
A diferença é que Trump não é um líder ingénuo tentando evitar uma guerra: é um oportunista que acredita que as alianças são transações e que a segurança europeia pode ser usada como moeda de troca num jogo geopolítico onde o seu ego é a única consideração.
Se Donald Trump tivesse sido presidente dos EUA em 1938, em vez de Roosevelt, a Europa teria caído sob o jugo nazi sem resistência americana. Os EUA teriam permanecido isolacionistas até ao ponto em que fosse tarde demais. Hitler teria encontrado um facilitador, não um adversário. E a história da Segunda Guerra Mundial teria sido outra, possivelmente muito mais sombria para a democracia. Pouco distante, aliás, daquilo que Philip Roth imaginou em “A Conspiração Contra a América”.
Quando Trump dá luz verde à agressão russa e adopta um discurso pro-Kremlin, não está apenas a reconfigurar a diplomacia americana; está a enfraquecer o Ocidente, a enfraquecer a NATO, a enfraquecer a própria ideia de que as democracias se protegem mutuamente contra tiranias.
Trump não é apenas um problema de estilo ou de linguagem. É uma ameaça existencial para a ordem mundial como a conhecemos. Muitos à Direita justificaram o seu apoio argumentando que seria “o mal menor”, um presidente imprevisível mas forte. O tal desejo do falcão que tornou o mundo mais seguro entre 2017-2021. Mas agora vê-se que não é nem forte, nem eficaz, nem confiável.
Enfim — até um relógio avariado acerta nas horas duas vezes ao dia. E a Esquerda, qual cuco a precisar de remendo, teve razão o tempo todo.