Imaginem que acabo de fazer uma homilia. Ao contrário do costume, impecável, em conteúdo e em forma. Vou para o meu lugar e, de repente, um bebé começa a chorar, e não é um choro normal, é um berreiro. Os pais tentam sossegar a criança, ficam atrapalhados, não sabem se o melhor é sair da igreja, ou ficar; não sabem, até, como o vão tirar dali sem fazer mais barulho. Entretanto, eu não digo nada, não vou ter com eles a perceber a situação, não ignoro simplesmente, não peço para estarem calmos, ou, de maneira educada, para saírem. Não. Chego ao microfone e digo: “Rua. Chega de barulho. Não tinham condições para vir, não vinham”.
Em princípio, ninguém, na igreja, desconfiaria que sou cristão, que conheço a “doutrina”, e razoavelmente o que “diz a Bíblia”. Quem está na igreja sabe que a situação é incómoda, chata, distrai, mas aquele tipo de atitude soa a incoerente, a desconforto, a estranheza. E é normal que assim seja. Não se trata só de boa educação.
Existe uma versão bucólica do Cristianismo. Um modo glicodoce de apresentar a figura de Jesus. Mas Jesus não foi um hippie do séc. I, cujos ensinamentos se poderiam traduzir em “don’t worry, be happy”. Nos Evangelhos, Ele irrita-se, tem palavras que estão entre a sátira e a boca foleira aos seus interlocutores, e é, em alguns lugares, agressivo, contundente e surge, propositadamente, exagerado. Mas, ao mesmo tempo, nasce num curral de animais, pára um julgamento sumário, acolhe um “inimigo” quando ele o vem visitar a meio da noite, liberta do mal quem se encontra com Ele, come com pecadores, não tem vergonha de tocar nos leprosos.
Quando dizemos que somos Cristãos, estamos a assumir isso tudo. Por isso, o Cristianismo não é uma espécie de bálsamo que deitamos sobre nós próprios, para eliminar contradições, ou aliviar a consciência. Por isso, o Cristianismo não é uma espécie de menu onde eu escolho o que me convém, e esqueço o que me incrimina. Por isso, isto não funciona como se eu pudesse dizer: “Eu sobre isto concordo, mas sobre aquilo é o Cristianismo que está mal, e eu é que estou certo”. Por isso, muito oportunamente, a Comissão Nacional Justiça e Paz escreveu, esta semana, que “nem mesmo a luta a favor da vida ou a defesa da identidade cristã podem implicar, para um cristão, prescindir das verdades do Evangelho e da doutrina social que dele brota”. Por isso, o Cristianismo é muito exigente.
Ser cristão é inserir-se num legado que, embora afirme um absoluto – Só Deus é Deus – recusa, entre os imensos solavancos da História, todos os absolutos e todos os fundamentalismos. E Deus está do lado dos factos, não das opiniões. Nesta medida, a marca do Cristianismo é uma marca de equilíbrio racional. E esse equilíbrio rejeita as simplificações, as falsas dicotomias, e, no geral, qualquer chavascal mental. Por essa razão, Leão XIV já afirmou que “ser contra o aborto e a favor da pena de morte não é ser pró-vida”. Por essa razão, os Bispos americanos declararam, recentemente, que “dignidade humana e segurança nacional não estão em conflito”. Por essa razão, o Catecismo da Igreja Católica diz que a propriedade privada é legítima, mas não é absoluta, e está sempre subordinada ao bem comum.
Como cristão, tenho dúvidas sobre um Cristianismo friendly, mas também fico preocupado com o Cristianismo identitário. Como cristão, estou inseguro face à vergonha pela matriz cristã da Europa, mas também olho com enorme desconfiança para o espírito de cruzada e de reconquista. Como cristão, gostava que Jesus fosse mais referido no espaço público, mas prefiro que não seja evocado como medalha ou talismã em guerras de tribo. Afinal de contas, não se invoca o nome de Deus em vão.
Por último, permitam-me o desabafo. Ainda não tenho 30 anos. Durante uma parte da minha vida ouvi dizer que o cristianismo era a causa do atraso nacional, que era a justificação da violência na história de Portugal e a razão de todas as discriminações. Agora, noutros círculos, ouço que o cristianismo é o lugar do pensamento woke, da irrealidade e do idealismo. Já não há paciência.