A fantochada cruel em que se tornou a governação e a administração pública tornava-se-me dolorosamente evidente a cada minuto. Talvez esta espécie de insuportabilidade tenha começado com o Presidente enfiado em casa a fazer de conta que era o Zé Maria do Big Brother. Ou quiçá tenha sido a surreal conferência de imprensa do Conselho Nacional de Saúde Pública que só acrescentou insegurança. Ou a notícia de que a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares fechara os seus serviços, isto no mesmo dia em que as escolas não tinham ordem para encerrar…

Seja pelo que for voltava aquele estranho trago, aquele nó, aquele não querer acreditar que experimentei em 2017 perante a desorganização, a irresponsabilidade e a leviandade no combate aos incêndios.

À medida que passávamos do coronavírus enquanto oportunidade de negócios para a nossa agricultura para a fase do coronavírus como “luta pela nossa própria sobrevivência“, sem esquecer o intermédio “tudo está a ser feito em Portugal para lidar com eventual surto de coronavírus“, mais evidente se me tornava que não podemos continuar a pactuar com estes líderes que nos entretêm com combates planetários quando nem sequer conseguem garantir que temos testes e máscaras para enfrentar uma pandemia.

Não é possível prosseguirmos nesta alienação da realidade em que os nossos governantes levam o tempo a anunciar avanços civilizacionais e depois ao primeiro embate com a realidade falham estrondosamente no que é básico. E falham mesmo em tudo. Por exemplo, como é possível que aos milhares de funcionários do ministério da Educação não tivesse sido pedido que concebessem plataformas e um plano para aulas à distância? Como explicar que aquela constelação de entidades, autoridades de que fazem parte uma Comissão Nacional de Saúde Pública, um Conselho Nacional de Saúde,  mais a Comissão de Catástrofe e Emergência Interna (isto apenas no âmbito do SNS) não tenham conseguido estabelecer uma linha coerente de actuação? Não faço a menor ideia se é melhor reagir bloqueando tudo como China, apostando na tecnologia como na Coreia do Sul ou arriscando na criação da imunidade de grupo como no Reino Unido, mas o que me parece que não pode acontecer é esta atitude errática em que primeiro se deram como fiáveis as informações da China, depois não valia pena controlar passageiros e agora vamos para a quarentena obrigatória.

Chegou o momento de exigirmos aos governos que governem! Sim, que se deixem de tretas e governem! Governem para os problemas reais das pessoas reais. Saiam desse mundo de fantasia que se move a índices de popularidade, selfies e notícias fofinhas. Deixem de papaguear as últimas novidades da agenda (a propósito agora que estamos  a viver no mundo da Gretazinha sem viagens nem circulação, já podemos dizer que tudo aquilo é um arrazoado sem nexo algum?)

Temos de questionar  que progresso é este que criou licenciamentos tão complexos e legislações tão perfeitas que acabámos cheios de direitos, cumprindo protocolos inovadores e acordos transcendentais mas sem as fábricas que nos garantem os medicamentos, as máscaras, os ventiladores…

Não podemos continuar calados perante a desindustrialização do país, presos numa agenda que nada acrescenta e nos distrai do essencial: constatámos agora que as casas de banhos escolares não têm desinfectante nem sabão, contudo levámos o ano escolar passado a discutir a criação de casas de banho nas escolas para as crianças transgénero.

Temos de exigir o fim deste activismo acéfalo que ainda há pouco mais de um mês dava como  indesejáveis os turistas e dizia inevitável a aprovação de mais planos e legislação para o combate ao alojamento local que, diziam, nos roubava as cidades. Agora vamos ter de pagar outros planos e mais legislação para conseguir atrair mais turistas. E quiçá uns apoios para o alojamento local.

O caos a cada imprevisto é o outro lado do progressismo-sorridente destes governos que trocaram o acto de governar pelo de entreter, mudar mentalidades, criar um mundo novo. Exigir ao governo que enfrente a realidade é o que de mais importante podemos fazer.