1 Será hoje, segunda-feira 20 de Janeiro, que tomará posse em Washington, DC o Presidente-eleito Donald Trump. Mandam as regras civilizadas e as boas-maneiras da democracia liberal euro-atlântica e ocidental que o evento seja assinalado com respeito e consideração.
Donald Trump foi eleito muito expressivamente, de acordo com as regras do jogo de uma das mais antigas democracias liberais do mundo moderno. Não é por isso necessário concordar com ele para respeitar a sua vitória. Basta respeitar as boas-maneiras inerentes à democracia liberal – precisamente as mesmas que permitem simultaneamente expressar as críticas e os alertas acerca das suas opiniões.
2 As boas-maneiras e as regras da democracia liberal, no entanto, não parecem ser do conhecimento de um tal sr. Elon Musk – cuja obra não conheço, uma vez que premeditadamente não frequento as chamadas “redes sociais”, mas que me dizem ser uma espécie de “braço direito” (não eleito) do Presidente-eleito Donald Trump.
Entre as inúmeras citações do sr. Musk que os jornais têm referido, destaca-se um alegado apelo-ordem do sr. Musk ao Rei Carlos III para demitir o Primeiro-Ministro britânico, Sir Keir Starmer.
3 Parece que o “argumento” terá sido qualquer coisa do género “he [Sir Keir] doesn’t have what it takes”. Mas mais básica ainda é a ignorância do sr. Musk acerca da ancestral democracia liberal britânica – na qual, nomeadamente, não compete ao Rei demitir um Primeiro-Ministro que disponha de maioria parlamentar.
Mais ainda, o Rei não pode entrar na Câmara dos Comuns, apenas na Câmara dos Lordes, de onde pode enviar um emissário à Câmara dos Comuns para convocar/convidar os deputados. Esse emissário terá, literalmente, de bater à porta, a qual será, literalmente, fechada com enfase pouco antes da sua chegada. E os deputados deslocam-se então em procissão, dois a dois, sendo liderados pelo Primeiro-Ministro e pelo líder da Leal Oposição – que estarão lado a lado.
4 Não é possível neste espaço recordar as origens ancestrais destas regras de boas-maneiras que permitiram o “milagre da Inglaterra moderna”, como lhe chamou o distinto historiador francês Élie Halévy: a capacidade de ter assimilado tantas revoluções – industrial, económica, social, política, cultural – sem recorrer à Revolução.
Mas talvez seja possível citar aqui uma das inúmeras reflexões de Winston Churchill sobre esta especificidade não-revolucionária da tradição política britânica — que lhes permitiu resistir a Hitler, inicialmente sozinhos, e depois serem os primeiros a denunciar a “cortina de ferro” soviética.
Disse Churchill a propósito da filosofia política conservadora (e liberal) de seu pai, Lord Randolph Churchill:
“Ele não via razão para que as velhas glórias da Igreja e do Estado, do Rei e do país, não pudessem ser conciliadas com a democracia moderna; ou por que razão as massas do povo trabalhador não pudessem tornar-se os maiores defensores destas antigas instituições através das quais tinham adquirido as suas liberdades e o seu progresso. É esta união do passado e do presente, da tradição e do progresso, esta corrente de ouro [golden chain] nunca até agora quebrada, porque nenhuma pressão indevida foi exercida sobre ela, que tem constituído o mérito peculiar e a qualidade soberana da vida nacional inglesa.” [“Personal Contacts” in Thoughts and Adventures, London, 1934, p. 52].
5 Na próxima sexta-feira, apenas 4 dias após a tomada de posse do Presidente-eleito Donald Trump, teremos a 3ª edição das Conferências do Atlântico na Madeira, em Churchill Bay, Câmara de Lobos – onde evocaremos a visita de Churchill e sua mulher, Clementine, à Madeira em Janeiro de 1950, há precisamente 75 anos. Significativamente, o tema geral será “Winston Churchill, Liberal Democracy and the Euro-Atlantic Alliance”. Conto poder reportar na minha próxima crónica, a 3 de Fevereiro.