1 É isto o que vivemos neste país. Os políticos fazem política? Não. Governam? Nem pensar. Não é para isso que se candidataram nem que foram eleitos.
Entendamo-nos. O eleitor é hoje o equivalente ao trabalhador que o marxismo identificou. O seu destino é eleger como, para o marxismo, era produzir. Em democracia política as opções do eleitor não faltam. É eleito aquele que mais lhe agrada, o que é perfeitamente legítimo. Com a eleição, transfere para o eleito um cabedal de legitimidade que logo este vai utilizar a seu favor. Se pagasse com a realização do que prometeu ao eleitos a troca estaria correcta. Mas não é isso que sucede. O eleito não faz nada do que prometeu porque não quer ou não pode. Assim sendo, beneficia de uma mais valia não paga que lhe foi atribuída pela eleição.
A questão começa aqui. O que é que o candidato vai oferecer ao eleitor? Numa democracia multipartidária como a que temos (finalmente) hoje, o que há para o convencer? Em sociedades de (relativa) abundância, a oferta do candidato a político não é fácil porque está sujeita a escrutínio. E mais difícil é porque a informação circula abundantemente, manipulada ou não, mas circula.
A única hipótese que o político tem é a de montar um espectáculo destinada a atrair o eleitor antes da eleição e a distraí-lo depois dela. O espectáculo nada tem a ver com a realidade. É apenas um balão de oxigénio destinado o a angariar votos, a influenciar sondagens e a convencer o eleitor de que faz bem em votar no eleito.
2 O espectáculo não é uma abstracção. É uma realidade presente na relação entre o eleitor e o eleito. Manifesta-se durante o período eleitoral e durante o mandato. É permanente.
Os políticos eleitos ou nomeados não têm a menor intenção de fazer «política» como nós a entendemos ou seja, como curadoria dos interesses dos eleitores. O que lhes importa é aproveitar o cabedal de legitimidade que a eleição lhes deu (ou a consequente nomeação) para se justificarem nas benesses do poder. Daí a organização e montagem do espectáculo que será transmitido por imagens sobretudo televisivas. O espectáculo consiste em aparecer, rodeado de submissos e atentos auxiliares, propondo reformas vagas e inexequíveis e criticando asperamente a oposição ou o governo apenas por criticar, sem fundamento e sem alternativa com um linguarejar «aderencial» e destinado a impressionar mais do que a convencer. É isto o espectáculo. O político aparece, divaga perante as câmaras, ora sorrindo se a favor dele, desculpando erros evidentes e protegendo correlegionários imbecis, ora irritado se contra a oposição ou o governo. Diz uns dislates e retira piscando o olho aos jornalistas.
Mas o espectáculo, como disse, é permanente. Acompanha toda a carreira do político actual. O especáculo da política é possível porque a própria política já é um espectáculo. Não se destina a fazer nada de útil ou de perene. Destina-se apenas a tourear os eleitores com umas capas berrantes ao som de música e em ambiente festivo de modo a justificar a sua presença no palco e perante as câmaras e com o bilhete já pago ou seja, com o voto na urna.
Se os projectos são bons, é a vez do espectáculo da oposição. E quanto melhores eles são mais garrido e barulhento terá de ser. Se as alternativas são razoáveis toca a vez ao espectáculo da maioria. São estas as regras do jogo.
O espectáculo não se destina a esclarecer o eleitor. Pelo contrário, o que pretende é prender a sua atenção com imagens e maravilhas se a iniciativa for do próprio ou exageros catastróficos se a iniciativa for da parte contrária. O espectáculo anestesia o eleitor leva-o a optar por emoções e imagens em vez de por razões e fundamentos. O seu objectivo não é directamente mentir mas sim condicionar o modo como as coisas são compreendidas pelo espectador. Para isso aposta na imagem. É precisamente o contrário do esclarecimento racional que deve estar na base da democracia.
3 É esta a lógica espectacular da política actual. Faz crer aos eleitores que o Estado lhes é mais do que nunca indispensável, que a sociedade civil integrada pelos indivíduos, pelas famílias, pelas associações e pelas empresas depende apenas do Estado, que sem ele fica órfã e que o seu bem-estar depende exclusivamente das reformas que o governo vai empreender. É por isso que Portugal será eternamente um país por reformar porque sempre na iminência das magníficas reformas que finalmente aí vêm, prometidas durante as campanhas eleitoriais.
O espectáculo tem regras. O governo recém-chegado ao poder começa por apregoar alto e bom som que vai reduzir o peso do Estado, vai extinguir institutos públicos perdulários e inúteis, vai racionalizar o cálculo das despesas públicas, vai atribuir mais poder às autarquias locais, vai moralizar as regras de acesso aos cargos dirigentes da função pública, vai apressar a justiça, vai ser mais exigente com o ensino e vai diminuir os impostos sobre a classe média. Vai começar o espectáculo. O governo vem exibir o que tem. Começa com uns pobres animais selvagens anestesiados e seguem-se uns acrobatas a fazer malabarismos e um trapezista. O objectivo é infantilizar os portugueses, fazer-lhes abrir a boca de espanto, arregalhar-lhes os olhos e fazê-los rir. E mais quanto mais o espectáculo for bem sucedido mais haverá para oferecer. Chega a vez dos palhaços. Este governo já entrou nessa fase.