No primeiro artigo, “Alienação Parental Antes do Divórcio: Os Sinais que José Não Reconheceu (I)”, acompanhámos o testemunho de José sobre os primeiros indícios que, hoje, identifica como tendo surgido ainda durante o casamento. No segundo, “Alienação Parental: Quando o Casamento Chegou ao Limite (II)”, explorámos a degradação progressiva da relação conjugal e o impacto que essa escalada teve na dinâmica familiar. No terceiro, “Violência Doméstica e Alienação Parental: Quando o Medo Substitui o Diálogo (III)”, acompanhámos o momento em que as acusações de violência doméstica, os processos judiciais e as primeiras decisões do tribunal marcaram o início do afastamento entre pai e filha. Neste quarto artigo, regressamos aos anos que antecederam a sua separação para compreender melhor a forma como o José viveu a relação com cada uma das suas filhas.
A alienação parental raramente começa de um dia para o outro ou com uma decisão judicial. Quando existe, costuma construir-se lentamente, muito antes da separação, através de pequenas dinâmicas do quotidiano que, isoladamente, podem parecer irrelevantes. Contudo, a sua repetição continuada pode influenciar a forma como a criança perceciona o pai ou a mãe que se torna alvo desse processo, favorecendo, progressivamente, o enfraquecimento da sua relação com o mesmo.
Quando o pai deixa de ter um espaço próprio
Ao revisitar os primeiros anos de vida da filha mais velha, Rita (nome fictício), o José recordou que, desde cedo, sentia o seu espaço enquanto pai progressivamente reduzido. Na sua perspetiva, não se tratava de episódios isolados, mas de uma dinâmica persistente em que a mãe assumia frequentemente o papel de mediadora da relação entre ambos, dificultando a construção de uma comunicação direta e espontânea com a filha. Como descreveu: “Com a Rita, que era a minha filha mais velha. Sempre foi difícil no sentido em que a mãe sempre esteve presente em tudo. Ou seja, talvez tenha conseguido dar banho quando ela era pequenina, sem a mãe presente. Para a mãe estar a fazer outra coisa qualquer. Em tudo o resto, eu a vestir, eu a pegá-la ao colo, eu a brincar, eu a interagir com ela verbalmente, já ela com 2 anos, que acontecia é que a mãe estava sempre no meio. Quando digo no meio é nós tentarmos interagir com alguém verbalmente, “então como é que estás?”, “O que é que comeste?”, “Diz olá”, e quem responde é uma terceira pessoa. Portanto, a criança não consegue responder. Quem responde é uma terceira pessoa. E isso é uma constante. Portanto, o que a criança apreende, do ponto de vista do comportamento, é “Não respondo sem o aval, sem a permissão”, ou “em vez de responder, espero que a terceira pessoa me responda”. E esse comportamento não era só comigo, era com toda a gente. Toda a gente que estava a interagir com a minha filha mais velha não conseguia interagir porque quem respondia era a mãe. A mãe respondia por ela, a mãe fazia tudo por ela e interagia. A criança era como se fosse um prolongamento do seu corpo”. Independentemente da forma como cada interveniente interpreta esta experiência, o relato traduz um sentimento claro de perda de espaço relacional. O José descreveu uma dificuldade constante em construir uma interação espontânea com a filha mais velha, sentindo que essa comunicação era frequentemente mediada pela mãe, dinâmica que, na sua perspetiva, fazia parte do processo de alienação parental que viria mais tarde a identificar.
A chegada da segunda filha
O José acreditou que o nascimento da sua filha mais nova, Ana (nome fictício), pudesse alterar a dinâmica familiar: “Com a minha filha mais nova, foi diferente. Aliás, eu tomei a decisão de aguentar e não me separar antes da mais nova nascer, precisamente porque achei que, com a segunda criança, a diferença podia ajudar a abrir e a dispersar, digamos assim, aquela atenção exacerbada, aquela fixação. A verdade é que não abriu os horizontes, digamos assim, não aligeirou a questão. Portanto, a nossa filha mais velha continuou a ser o alvo, mas a mais nova ficou esquecida, entre aspas, e eu pude contactar com ela. Eu pude ser verdadeiramente pai com a minha segunda filha. Só não dei de mamar. Tudo o resto era eu que o fazia. Durante muito tempo. Adormecia, arrotava, banhos, roupas… Mas era sempre… ou seja, não era algo que a mãe das crianças o fizesse de bom tom. Como esta é tua. Não era bem assim. Sim, eu fazia as coisas, mas estava constantemente a ser determinado”.
Este testemunho revela duas experiências profundamente distintas de parentalidade. Com Ana, o José descreveu uma participação ativa nos cuidados diários, referindo-se à alimentação, ao sono, ao banho, ao vestir e ao conforto como momentos que lhe permitiram exercer plenamente o papel de pai. Ao mesmo tempo, mantém a perceção de que a sua autonomia parental permanecia condicionada. A expressão “estava constantemente a ser determinado” sintetiza esse sentimento de exercer a parentalidade sob permanente validação ou controlo.
A participação consistente de ambos os pais nos cuidados quotidianos constitui um dos principais fatores de proteção para o desenvolvimento emocional dos filhos e para a construção de vínculos seguros. Da mesma forma, uma coparentalidade positiva assenta no reconhecimento mútuo das competências parentais, permitindo que pai e mãe exerçam o seu papel de forma complementar, respeitosa e cooperativa, colocando sempre as necessidades dos filhos no centro das suas decisões.
Duas filhas, duas formas de vinculação
Quando questionado sobre a forma como viveu a relação com cada uma das filhas, o José descreve diferenças muito marcadas entre a Rita e a Ana. Na sua perspetiva, desde muito cedo, a filha mais velha desenvolveu uma relação de enorme exclusividade com a mãe, enquanto a filha mais nova estabeleceu consigo um vínculo espontâneo, próximo e afetivo. Como nos relatou: “A Rita exigia… não só muita atenção, exigia estar a só. O comportamento que ela gerou para a mais velha continuou. E não permitia que se estivesse com outra criança ao mesmo tempo. A própria Rita já estava habituada a isso e pedia essa atenção e no fundo…. Sim, sim, e já era crescidita, a partir dos dois anos já falam, já interagem …. como … já só respondo com a mãe, já não quero outro colo, só quero a mãe e aquilo já era uma… eu não tenho formação, não tenho legalmente formação para dizer, mas já era algo nefasto. Já era patológico. Uma simbiose ali. Sim, já era patológico. E com a Ana não. Com a Ana sempre foi muito… foi libertada por este comportamento que se criou. Sim, eu lembro até há pouco tempo, a Ana, enquanto conviveu comigo, entre as duas, a Ana era mais proativa, efusiva na busca e na companhia do pai. Ela sempre gostou muito de estar comigo, de fazer coisas comigo. A Rita fazia coisas comigo, mas era mais eu que me adaptava e procurava ir ao encontro daquilo que eram os gostos dela e a puxá-la um bocadinho para novas experiências, que eu também podia proporcionar, do ponto de vista físico, do ponto de vista das atividades. A Ana aderia rapidamente, mas mesmo quando estavam elas, nos momentos em que brincavam juntas, a Ana era muito de ir buscar o pai e de querer ser a figura do pai a todo momento, quando o pai não estava. As roupas do pai, além de ela ser pequenina… de repente ia-me ao armário e vinha-me vestida com os meus calções e com os meus sapatos. Portanto, ela procurava muito mais isso. A Rita era mais menina. A Ana era mais na busca do ser ou da imagem do pai. É engraçado”. A comparação entre as duas filhas ocupa um lugar central nesta reflexão do José. Enquanto descreve Rita como uma criança cuja relação consigo se tornava progressivamente mais difícil, recorda Ana como uma filha que o procurava espontaneamente para brincar, cuidar, explorar e simplesmente estar. As recordações que guarda, a filha a vestir os seus calções, a calçar os seus sapatos ou a procurá-lo nas brincadeiras, são, para o José, símbolos de uma identificação afetiva construída de forma livre.
A imitação espontânea que uma criança realiza de uma pessoa significativa constitui uma manifestação frequente de vinculação segura e de identificação com a mesma. As crianças crescem experimentando diferentes formas de ser, observando e reproduzindo comportamentos daqueles com quem estabelecem relações afetivas consistentes.
O Direito de Todas as Crianças a Amar Ambos os Pais
O testemunho de José descreve um conjunto consistente de comportamentos e dinâmicas familiares que, são compatíveis com um processo de alienação parental. Contudo, importa recordar que cada situação familiar é única. A alienação parental constitui uma realidade complexa, cuja compreensão exige sempre uma avaliação rigorosa, integrada e contextualizada da história, das dinâmicas familiares e de todos os intervenientes.
Independentemente da forma como este caso possa ser interpretado, a história de José convida-nos a refletir sobre uma questão que ultrapassa esta família, o direito de todas as crianças a crescerem livres para amar o pai e a mãe, sem conflitos de lealdade e sem sentirem que têm de escolher entre aqueles que mais amam.
Mais do que qualquer conflito entre adultos, importa proteger o direito da criança a construir uma relação segura, autónoma e significativa com ambos os pais. É essa liberdade emocional que lhe permite desenvolver a sua identidade de forma saudável, fortalecer a sua autoestima e crescer emocionalmente protegida.