No último artigo, «Quando um filho acusa falsamente a mãe de violência (IV)», acompanhámos um dos momentos mais dolorosos do testemunho de uma mãe que nos relatou o afastamento progressivo do filho mais velho, num contexto de alienação parental. Depois de o filho começar a recusar estar com a mãe, o pai acusou-a de violência física, , tendo por isso requerido ao tribunal que a residência do filho fosse fixada exclusivamente consigo. Alegações que a mãe afirmou serem falsas

Neste quinto artigo, continuamos a acompanhar o testemunho desta mãe alienada, procurando compreender como o afastamento do seu filho se tornou uma forma de castigo e de controlo e quais foram as dificuldades que enfrentou para preservar a relação afetiva com ele.

Quando a autonomia da mãe se transformou num motivo de castigo

No testemunho desta mãe alienada, o afastamento do filho surgiu associado às ameaças e tentativas de controlo por parte do pai alienador, particularmente depois de ter decidido reconstruir a sua vida, comprar uma casa própria e libertar-se da influência que o ex-companheiro continuava a exercer sobre ela.

Segundo nos relatou, foi repetidamente ameaçada pelo pai com a perda do filho, ouvindo expressões como: «Se fizeres isto, vais ficar sem o teu filho. Vais ver». O pai procurava assim transmitir-lhe a ideia de que a única forma de resolver o conflito e continuar a ter os filhos junto de si, seria voltar para ele.

Apesar destas ameaças, esta mãe nunca acreditou que pudesse perder a relação de proximidade que tinha construído com o filho desde o nascimento: «Mas uma pessoa nunca imagina que isso possa realmente acontecer. Eu nunca pensei que fosse possível, porque sempre fui uma mãe extremamente presente. O meu filho sempre foi muito ligado a mim. Tive um dos meus filhos cá em Portugal, onde éramos uma família muito pequena e estávamos sempre juntos. O pai trabalhava e, quando o meu filho nasceu, estive algum tempo sem trabalhar. Depois, mesmo quando regressei ao trabalho, procurei sempre trabalhar menos para poder estar mais tempo com ele. Construímos uma relação familiar muito próxima, uma ligação imensa. Por isso, nunca pensei que uma coisa destas pudesse acontecer». Este testemunho revela uma dimensão particularmente preocupante de determinados conflitos parentais, que corresponde à possibilidade de a relação com os filhos ser utilizada como instrumento de pressão, retaliação e controlo sobre o outro pai ou a outra mãe. Com efeito, quando um dos pais não aceita a separação ou a autonomia do outro, a ameaça de perder um filho pode transformar-se numa poderosa forma de pressão psicológica. Neste caso, a mãe considerou que o afastamento do filho foi utilizado como castigo pela sua decisão de reconstruir a vida e conquistar a sua autonomia.

O estigma social de uma mãe que perde os filhos

Para além do sofrimento provocado pelo afastamento do filho, esta mãe descreveu uma outra realidade particularmente dolorosa, o julgamento social que recaiu sobre ela quando o filho começou a rejeitá-la: «Existe também o julgamento das outras pessoas, que pensam “Mas o que é que se está a passar? Deve haver aqui qualquer coisa, porque esta criança não quer ficar com a mãe”».

Existe ainda um forte estigma social associado à ideia de uma mãe que perde a proximidade com os filhos. Muitas pessoas partem do princípio de que, se uma criança rejeita a mãe, é porque alguma responsabilidade do que terá acontecido é da responsabilidade desta última. A mãe enfrentou, assim, uma dupla dor: o afastamento do filho e a suspeita por parte de outros de que será ela responsável por essa rejeição.

Mas o seu sofrimento não resultou apenas da perda de proximidade. Existiu também a preocupação com aquilo que o próprio filho poderia estar a viver emocionalmente: «É muito difícil. É muito difícil ver os nossos filhos, que são as pessoas que mais amamos, a passar por tudo isto. E também é muito difícil saber como agir». E esta dificuldade em saber como agir constitui uma das questões mais complexas nos processos de alienação parental. Como continuar a ser mãe, estabelecer regras e exercer a autoridade parental, quando existe o receio permanente de que o filho deixe de querer estar consigo?

«A mãe está sempre aqui. A mãe está aqui para tudo o que acontecer»

Ao recordar o acompanhamento psicológico e parental, esta mãe destacou uma das mensagens mais importantes que procurou transmitir continuamente ao filho,  a certeza de que poderia contar sempre com ela, de que o seu amor era incondicional e de que, independentemente das dificuldades, dos conflitos ou dos comportamentos de rejeição, nunca deixaria de ser sua mãe, nem desistiria da relação com ele. Como recordou no seu testemunho: «Lembro-me de a Dra. Eva me dizer aquilo que eu fazia e que continuo a fazer: “A mãe está sempre aqui. A mãe está aqui para tudo o que acontecer”». Esta mensagem traduz um dos princípios fundamentais da segurança afetiva, a criança precisa de sentir que o amor dos pais não depende dos seus comportamentos e que, mesmo nos momentos de maior dificuldade, pode continuar a contar com a sua presença, proteção e disponibilidade emocional.

Contudo, manter esta proximidade afetiva tornou-se particularmente difícil nos momentos de transição entre a casa do pai e a casa da mãe. Segundo a mãe, o filho regressava frequentemente da casa do pai emocionalmente alterado, sendo necessário algum tempo até recuperar a tranquilidade: «Havia momentos em que a criança também tentava criar um incidente, uma situação qualquer. Vinha sempre muito alterada e, quando vinha da casa do pai, vinha mesmo muito alterada. Era muito difícil, até conseguir acalmar-se, relaxar e estar bem. E, quando finalmente estava calmo e tranquilo, chegava o momento de voltar para a casa do pai. Eram sempre períodos muito pequenos». Grande parte do tempo de convivência foi, assim, dedicada a ajudar o filho a recuperar a tranquilidade emocional e a restabelecer a proximidade entre ambos. Quando, finalmente, conseguiam estar bem juntos, aproximava-se o momento de uma nova separação, deixando pouco espaço para os momentos de afeto, partilha e cumplicidade que anteriormente faziam parte da sua relação quotidiana.

Quando se perdem as pequenas rotinas que constroem a relação entre mãe e filho
Uma dos aspetos mais dolorosos do testemunho desta mãe, é a referência à perda das rotinas quotidianas que, ao longo dos anos, tinham contribuído para construir uma relação de grande proximidade com o filho: «Eram períodos muito pequenos e perde-se um pouco o vínculo, porque há coisas que fazem parte da relação com os nossos filhos,  a criança dormir e acordar connosco, o momento de a deitar, o beijinho antes de dormir, fazer a oração, acordar de manhã, tomar o pequeno-almoço, receber um beijinho. E tudo isto se perde, porque passa a ser tudo muito corrido. É dar o jantar e, pouco depois, a criança tem de ir embora. É muito complicado.»

A relação entre pais e filhos não se constrói apenas através de grandes acontecimentos, mas sobretudo da continuidade dos pequenos momentos do quotidiano. São estas experiências de cuidado, proximidade e partilha que contribuem para fortalecer os vínculos afetivos e a segurança emocional da criança. Quando o tempo de convivência é reduzido e a criança chega emocionalmente alterada, como esta mãe descreve, torna-se mais difícil recuperar a tranquilidade necessária para viver esses momentos e preservar a continuidade da relação afetiva.

«Se não fizeres assim, eu vou dizer ao meu pai e não volto mais»

Esta mãe revelou-nos ainda uma outra dimensão particularmente preocupante do processo de alienação: a forma como o filho começou a utilizar a ameaça de deixar de estar com ela sempre que era contrariado ou quando esta procurava estabelecer regras e limites: «Lembro-me de que, depois de todo este conflito, quando estava com o meu filho, sentia que, no fundo, o pai lhe tinha dado um poder enorme, tudo tinha de ser feito como ele queria, porque, caso contrário, criava-se um incidente. Era como se ele me dissesse: “Se não fizeres assim, eu vou dizer ao meu pai e não volto mais.” Foi-lhe dado um poder muito grande, e isso é muito doloroso». Esta partilha coloca-nos perante uma questão fundamental: como pode um pai ou uma mãe continuar a exercer a parentalidade quando vive com o receio de que cada regra, limite ou contrariedade possa desencadear uma nova rejeição do filho? O pai ou a mãe que enfrenta uma situação de alienação parental pode começar a evitar contrariar a criança, corrigir comportamentos ou estabelecer limites, por medo de perder definitivamente o contacto com ela. Cria-se, assim, o risco de uma inversão de responsabilidades, em vez de serem os adultos a assegurar a estabilidade da relação, é a criança que passa a sentir que pode decidir em que condições aceita manter o contacto com um dos pais.

Uma criança precisa de ser escutada, compreendida e respeitada, mas também necessita de regras, limites e segurança emocional. Não deve ser colocada na posição de decidir, perante cada conflito ou contrariedade, se continua ou deixa de estar com o pai ou com a mãe. É precisamente esta uma das dimensões mais dolorosas deste testemunho, uma mãe que procurava continuar presente, disponível e afetivamente próxima, mas que sentia o exercício da sua função parental permanentemente ameaçado pela possibilidade de perder o filho.

A alienação parental, quando se verifica, não compromete apenas a relação entre a criança e o pai ou a mãe rejeitada. Pode também afetar a segurança emocional da criança, a estabilidade familiar e o exercício da parentalidade. Nenhuma criança deve ser utilizada como instrumento de castigo ou controlo sobre o outro pai ou a outra mãe, nem colocada na posição de ter de escolher entre ambos para se sentir amada e protegida. A responsabilidade de proteger os vínculos afetivos, garantir a segurança emocional e assegurar a continuidade das relações familiares pertence aos pais e nunca aos filhos.