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Portugal é um país de despedidas. Umas ocorrem naturalmente. Outras são forçadas. Lembram-se da Constança Urbano de Sousa? Independentemente da vontade humana a vida continua e tenta-se, desesperadamente, suprir os vazios. António Costa despediu-se de quatro ministros mas nós não ficamos mais sós. Outros apareceram. O que corre o sério risco de ficar órfão é a explicação para o episódio de Tancos. Como tal, é necessário que a dimensão desta remodelação governamental não sirva para secundarizar as explicações que são devidas aos portugueses sobre o caso de Tancos. Questões de segurança nacional são sempre prioritárias e nunca devem ser desprezadas.

Apesar desta remodelação não ser em si surpreendente, algo me diz que foram os ditos os primeiros a serem surpreendidos com a saída do governo. Talvez Azeredo Lopes seja a excepção. Talvez? Espero que, ao menos, lhes tenham agradecido a maratona que fizeram para o término do Orçamento de Estado (OE). Contudo, este agradecimento é altamente improvável. A importância das opiniões e sugestões dos Ministros para a distribuição das verbas do OE pelos respectivos ministérios aparenta ser cada vez mais relativa. Isto se não for insignificante. E mesmo que consigam influenciar alguma coisa já sabem que podem sempre contar com as cativações de Mário Centeno.

Mas esta remodelação, nomeadamente no que respeita a junção da energia ao ambiente, levanta-me a seguinte dúvida. Será que António Costa gosta de João Pedro Matos Fernandes? Pode, no limite, considerar as suas habilitações técnicas e achar que Matos Fernandes é competente no que faz. Mas gostar dele é outra questão. Como é que se explica que o secretário de Estado da Energia seja João Galamba? Até admito que o novo secretário de Estado da Energia saiba que voltagem e potência são duas coisas distintas. Já quanto ao conhecer a Lei de Ohm tenho dúvidas. Porém, haja esperança. Galamba revela ter alguns conhecimentos e interesse na matéria. O seu twitter demonstra-o:

Há, efectivamente, algo de estranho nesta nomeação. Não deveria ser a Secretaria de Estado da Energia o arquétipo da competência técnica? Que tipo de qualificações possuiu João Galamba para o desempenho desta função? É, porventura, engenheiro? Não. Galamba é licenciado em economia e frequenta um doutoramento em filosofia política. Se a ética é um factor de consideração nesse curso é uma incógnita. Contudo, como variável no processo de decisão relativamente ao aceitar desta função é provável que tenha sido completamente desconsiderada.

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Mas João Galamba não tem apenas defeitos e não é um homem qualquer. Não. É um homem pleno em virtudes que se coloca cegamente ao serviço do socialismo (marxismo será mais adequado). E quais são essas virtudes? Antes de tudo, João Galamba é leal. Não aos outros. A ele próprio! Basta recordar que mandou o seu padrinho político bugiar sem pestanejar. Sócrates? Quem? Agora só existe Costa. Até ver, evidentemente. Segundo, é honesto. João Galamba é incapaz de distorcer a verdade porque sabe que mentir é um dos sete pecados capitais. Terceiro, João Galamba é responsável e responsabilizável. Integralmente! Para além de estar sempre disponível para assumir os erros ainda dá o peito às balas pelos colegas. António Costa e, já agora, Mário Centeno sabem que têm as costas protegidas. João Galamba não terá qualquer pejo em atribuir as culpas ao Passos Coelho. A culpa é sempre do Passos Coelho! Quarto, é coerente. Basta ver como se posiciona ideologicamente. João Galamba é o que for preciso ser. Principalmente quando lhe for conveniente. Quinto, João Galamba é o cúmulo do realismo porque só há uma realidade. A dele e mais nenhuma. É por isso que Galamba fica perplexo quando os outros questionam os seus ditames. Tal questionamento está para além da sua compreensão. Finalmente, João Galamba é o exemplo acabado de educação e cortesia. Já estou a ver a elevação com que irá responder às perguntas que lhe forem colocadas. E que dizer da qualidade do léxico? Será que profundidade e elegância são substantivos suficientes?

Com Galamba ao leme vamos viver tempos electrizantes e energéticos. Literalmente!

António Costa enganou-se. Um homem com estas faculdades e clarividência não deve ser apenas Secretário de Estado. No mínimo, ministro.

O dramaturgo e poeta romano PubliusTerentiusAfercunhou duas expressões muito utilizadas nos nossos dias. A primeira – “Sou um homem: nada do que é humano me é estranho” – caracteriza o que penso sobre as decisões de António Costa. A segunda – “Enquanto há vida, há esperança” – refere-se a todos nós. Há sempre a esperança que Portugal venha um dia a ser condigna e criteriosamente governado.

Até lá, e depois do adeus, homens sem competências continuarão no governo sem explicar Tancos.

Post-Scriptum: A proposta do Bloco para a descida do IVA da electricidade em potências abaixo dos 3,45 kVA evidencia o desconhecimento do BE sobre a realidade portuguesa. Nesse sentido, a indicação de João Galamba para este cargo é perfeita. Resta saber para quê.

Politólogo, Professor convidado EEG/UMinho