Nos primeiros meses de 2014 o surto do Ébola na África Ocidental era uma curiosidade, uma dessas comoções longínquas que passam nos telejornais da noite e se digerem com o jantar. Depois, em agosto, os alarmes soaram. A OMS declarou o surto do ébola uma “emergência de saúde pública de âmbito internacional” e Margaret Chan, directora-geral da organização, veio dizer que “o surto está a mover-se mais rapidamente do que podemos controlar”.

As razões para a apatia inicial foram a mistura habitual de negligência e ignorância: negligência porque, aparentemente, ninguém pensou que aqueles países eram “muito pobres” e não tinham “meios para atender aos problemas”; ignorância porque a OMS ficou “feliz” por haver um “decréscimo no número de casos” e achou que a epidemia “estava a diminuir” – em vez de colocar a óbvia hipótese de estar a haver sub-notificação. Foi o director regional da OMS para África, Luís Sambo, quem o disse, há duas semanas, a um jornal português.

Depois o ébola entrou-nos portas adentro.

Um homem proveniente da Serra Leoa adoeceu nos EUA, foi internado, contaminou duas enfermeiras e morreu. Em Espanha, uma auxiliar de enfermagem da equipa que assistiu o missionário evacuado em agosto adoeceu durante as férias e só foi diagnosticada agora (porque não disse ao médico que tinha estado em contacto com o missionário e o médico, razoavelmente, pensou que era gripe). O cão lá de casa foi abatido, para escândalo das boas almas.

Foram anunciadas medidas, a bem da ordem pública. Que medidas? “Inquéritos” sobre os erros cometidos nos hospitais e as insuficiências dos protocolos. E, sobretudo, evitar a “circulação” das pessoas e conter os casos “importados”.

Cai bem nos telejornais. Mas vale pouco. Medidas como reforçar as normas de circulação ou vigiar as fronteiras não passam de brincadeiras dispendiosas. Não vão resultar. Nunca resultaram. Nem vale a pena recuar muito, basta recordar o que se passou com a gripe das aves e com a gripe A.

Ainda que sejam cancelados todos os voos e ninguém viaje para a Europa, os EUA e outros destinos, ainda assim será impossível impedir que as pessoas passem a pé, de jipe ou de barco para os países africanos vizinhos. Vamos encerrar África inteira? Como? E a que custo?

Não é possível manter a epidemia fora de portas.

Em contrapartida, reforçar (ou criar) estruturas sanitárias nos países da África Ocidental vale a pena. Basta olhar para a recente evolução da epidemia nos vários países da região para ver a diferença que faz a existência de estruturas sanitárias organizadas: a Nigéria, que as tem, parece estar a conseguir conter a epidemia; na Guiné-Conakri e na Libéria é o caos.

O Banco Mundial mobilizou logo em agosto 400 milhões de dólares para os países a braços com o surto, que se destinam à aquisição de medicamentos, equipamentos de protecção biológica, treino de pessoal e meios necessários para as campanhas porta a porta, de folhetos a jipes e combustível, É provável que tenha contribuído para essa resposta tão pronta o facto do actual director do BM ser médico e antropólogo, com um passado de activismo no financiamento de países pobres para organização de estruturas de combate à SIDA e à tuberculose. (Há pessoas que estão mesmo no lugar certo na altura certa.)

A directora da OMS também já tinha dito em agosto que a segurança global dependia “do apoio às operações de contenção” em África. É pena termos demorado tanto tempo a ouvir. Foi preciso começar a morrer gente “cá dentro” para percebermos que o ébola não é um desastre longínquo, não é um terramoto na América do Sul nem uma inundação na Índia.

Não faz mal, já se sabe que é assim que funciona.

Ainda vamos a tempo. Começam a ser mobilizados meios a sério, de hospitais de campanha a pessoal de saúde, tropa, tudo. Até Portugal resolveu fazer alguma coisa.

Tudo isto custa caro? É verdade, mas ficar a olhar custará ainda mais caro.

Médico patologista