Depois de analisarmos o potencial da Economia Azul e os modelos de inovação, chegamos a uma questão essencial: como criar condições no terreno para que a inovação floresça nas PME costeiras e marítimas? Este artigo centra-se na criação de ecossistemas de inovação, ou seja, redes colaborativas entre empresas, universidades, instituições públicas e comunidades locais que possam apoiar o desenvolvimento sustentável no setor do mar.

A inovação não acontece no vazio, precisa de ambiente, estímulos, recursos e interações. Um ecossistema de inovação costeiro deve promover ligações entre atores que raramente colaboram, facilitar o acesso a conhecimento e infraestruturas, apoiar a experimentação e a prototipagem, e estimular o surgimento de novas ideias e negócios. Sem estas condições, a inovação permanece uma palavra bonita nos discursos, mas ausente da prática empresarial.

Ligações frágeis, redes escassas

A investigação mostra que, apesar de várias iniciativas políticas, a cooperação no setor da Economia Azul continua limitada, a maioria das PME não colabora com universidades ou centros de I&D, as redes entre empresas são frágeis ou inexistentes, falta apoio técnico e institucional para a criação de parcerias locais e o conhecimento empírico das comunidades costeiras continua subvalorizado.

Este cenário revela um vazio que precisa de ser preenchido por políticas e estruturas que incentivem verdadeiramente a cooperação.

Apesar das dificuldades, há sinais positivos e boas práticas que podem inspirar desde os Living Labs costeiros, ou seja, espaços de experimentação em contexto real, onde empresas e investigadores desenvolvem e testam soluções em conjunto, aceleradoras temáticas sustentadas por programas de apoio ao empreendedorismo especificamente dedicados à Economia Azul, associações locais e clusters como estruturas de promoção e partilha de recursos, formação e inovação colaborativa e políticas públicas,  embora ténues ou demasiado discretas, alinhadas com as realidades locais, e não meramente replicadas de outros setores ou regiões.

A importância do território e das pessoas

Um ecossistema de inovação costeiro não é apenas uma rede técnica, é uma rede humana. Valorizar o conhecimento local — dos pescadores, operadores turísticos, artesãos, associações culturais — é essencial para soluções que façam sentido no território. Há um potencial inexplorado nas chamadas inovações sociais e regenerativas, que aliam sustentabilidade ambiental à inclusão das comunidades.

Com base nas pistas da investigação, deixamos algumas ideias-chave para reflexão futura:

Criação de centros costeiros de inovação com recursos técnicos, mentoria e financiamento inicial, estimulando o apoio financeiro a redes colaborativas e não apenas a projetos isolados.

Reforço da ligação entre ensino superior e PME locais com estágios, projetos conjuntos e linhas de investigação aplicada.

Fomento da inovação social, valorizando soluções cocriadas com as comunidades.

Descentralização das políticas públicas de inovação, tornando-as mais próximas e adaptadas às regiões costeiras.

Portugal tem um mar de possibilidades, mas sem redes fortes e estratégias integradas, continuará a navegar à bolina. A construção de ecossistemas de inovação costeiros é um passo essencial para transformar potencial em impacto.

Ao longo destes artigos, percorremos o território da Economia Azul, da teoria à prática. O desafio que deixamos é claro: está na hora de passar da promessa à ação. Porque o futuro do mar — e do país — depende da forma como soubermos inovar juntos, a partir do território.

No mar da inovação, ninguém navega sozinho.