Se a Economia Azul é o mar onde Portugal pode navegar rumo a um futuro sustentável, a inovação é o vento que pode acelerar essa viagem. Mas que tipo de inovação estamos a falar? E que obstáculos enfrentam as PME portuguesas para inovar no contexto do mar? Este artigo aborda o papel da inovação no desenvolvimento da Economia Azul, explorando os modelos teóricos e a realidade prática das PME costeiras e marítimas.

Muito para inovar, pouco apoio para fazê-lo

Apesar do discurso político promissor, muitas PME do setor enfrentam condições adversas à inovação como a falta de infraestruturas tecnológicas, o acesso restrito ao financiamento, especialmente para projetos de risco ou sustentáveis, a burocracia e políticas genéricas, que não consideram a especificidade do setor marítimo e o isolamento geográfico e institucional.

Estes obstáculos não são novos, mas tornam-se mais visíveis quando contrastados com a urgência de responder aos desafios ambientais, energéticos e sociais.

Modelos de inovação aplicáveis ao mar

A literatura aponta para diversos modelos de inovação que podem servir de inspiração às PME da Economia Azul: a Inovação aberta (Chesbrough) em colaboração com universidades, startups e outros parceiros externos, a Inovação frugal (Radjou) com soluções de baixo custo adaptadas ao contexto local,  a Inovação sustentável (Adams) pela integração de preocupações sociais e ambientais no processo inovador, a Inovação baseada no utilizador (von Hippel) através do aproveitamento do conhecimento dos próprios pescadores, operadores turísticos ou comunidades costeiras, ou a Inovação digital (Gawer) pelo uso de plataformas e tecnologias para modernizar processos e ligar agentes dispersos.

O problema não é só técnico, é organizacional

Estudos revelam que muitas barreiras — e oportunidades — residem dentro das próprias organizações com modelos de gestão tradicionais e pouco flexíveis, falta de cultura de experimentação, uma aversão ao risco e escassa formação em inovação e pouca articulação com os ecossistemas de apoio.

Neste contexto, a criação de redes colaborativas e a capacitação interna surgem como estratégias-chave. A inovação precisa de pessoas, processos e tempo. Não basta financiar projetos; é preciso criar as condições para que floresçam.

Que pistas temos para o futuro?

Com base na investigação desenvolvida, propõem-se cinco dimensões onde a inovação pode (e deve) ser aprofundada nas PME da Economia Azul. A Dimensão Tecnológica, ou seja, como integrar energias renováveis, digitalização ou biotecnologia de forma adaptada, a Dimensão Organizacional apresentando modelos de gestão flexível que possam acelerar a mudança, a  Dimensão Social e Territorial, entendendo como envolver as comunidades e valorizar os saberes locais, a Dimensão Política e Institucional, identificando as políticas públicas que criam verdadeiro valor e a Dimensão Financeira, que deve garantir o acesso a financiamento e fundos de forma eficaz e justa.

Cada uma destas dimensões exige abordagens específicas, mas todas têm um ponto em comum: sem inovação, não há Economia Azul sustentável.

As PME portuguesas ligadas ao mar têm criatividade, conhecimento do território e vontade de inovar. Falta-lhes, muitas vezes, o ecossistema certo. Falta-lhes tempo, financiamento e políticas desenhadas à sua medida.

Vimos que a inovação não é um luxo, mas uma necessidade estratégica para o setor. No próximo e último artigo, vamos explorar como construir ecossistemas de inovação costeiros que liguem empresas, universidades, administrações locais e comunidades.

Porque só juntos podemos transformar inovação em impacto duradouro.