O resultado das colocações de alunos no ensino superior, após a segunda fase divulgada este fim-de-semana, são deprimentes.  Pelas minhas contas, teremos cerca de 42.000 novos alunos na educação superior pública em Portugal – as contas não são fáceis porque, dos 39.500 matriculados da primeira fase, há 6.100 que se voltam a candidatar e que presumivelmente devem ser subtraídos aos 8.800 colocados na segunda fase.

Esta queda de cerca de 16% em relação aos mais de 50.000 novos alunos que entraram no ano passado – outra estimativa minha porque não consigo encontrar em lado nenhum quantos novos estudantes se matricularam no ensino superior em 2024 – é muito preocupante num país que tem aínda um grande défice de capital humano e em que quase um terço dos licenciados acaba por emigrar.

Mais: estes 42.000 novos alunos correspondem a 76% das 55.300 vagas abertas na primeira fase.  Mais de 30% dos cursos ficaram com mais de metade das vagas por preencher. Temos um enorme excesso de capacidade globalmente e muitos cursos sem procura.

Muitas explicações têm sido propostas para esta queda na procura, da demografia à alteração dos requisitos do concurso nacional de acesso, da dificuldade dos exames de matemática e de português ao custo da habitação, mas penso que há uma explicação mais profunda, mais importante e estrutural: muitos dos cursos superiores oferecidos por universidades e politécnicos são antiquados e de baixa qualidade, não acrescentam valor aos seus alunos.  Apenas alguns cursos valem o investimento: os das faculdades mais famosas, com muita procura e médias de entrada estratosféricas; quase todos os outros levam a baixos salários e carreiras pouco auspiciosas. (Lamentavelmente, o Ministério não divulga o número de candidatos a cada curso, nem as taxas de empregabilidade, nem os salários à saída.)

Mas a procura por educação verdadeiramente superior é muito grande, como prova a experiência da Escola 42 em Lisboa e Porto. Nos últimos 12 meses, mais de 15 mil candidatos realizaram os testes de acesso para 550 vagas: perto de um terço do total de candidatos ao ensino superior público. Tanta procura para um único curso de engenharia de software, que só começou há 5 anos e tem um diploma que, sendo muito reconhecido pelas empresas em todo o mundo, em Portugal não é (ainda) reconhecido como licenciatura ou mestrado – embora já o seja em França.  Como se justifica isto?

A escola 42 não tem fins lucrativos e é gratuita para os alunos, sendo financiada por fundações, autarquias, empresas e pessoas que acreditam na importância do projeto. Está sempre aberta, cada aluno evolui ao seu próprio ritmo e, depois do percurso “core”, pode voltar em qualquer momento para se requalificar ou fazer novas especializações. É uma escola em que não há aulas, em que os alunos aprendem uns com os outros, motivados por uma sucessão de desafios, obtendo um conhecimento muito mais profundo do que a “marrar” para exames, além de desenvolverem iniciativa e responsabilidade, curiosidade e pensamento crítico, capacidade de resolver problemas complexos, por si e em colaboração.  Aprendem a aprender, que é a competência mais importante para um futuro em que terão de se reinventar muitas vezes. Têm “agência” como responsáveis pelo investimento no seu capital humano.

A 42 atrai um conjunto de alunos muito mais diverso do que a universidade tradicional. A idade média dos alunos é de 28 anos, quase 40% trabalham enquanto estudam e mais de metade nunca tinha passado pela universidade. Temos exemplos de empregados de mesa que se tornam consultores, músicos que reinventam a sua carreira e jovens que sairam do sistema educativo por precisarem de ganhar a vida, mas encontram aqui uma segunda oportunidade. Os dois primeiros alunos a acabar o programa foram um engenheiro electrotécnico com um mestrado em matemática e um operário da Autoeuropa com o 12º ano.  A diversidade é académica, social e cultural, mas todos partilham a mesma ambição: mudar de vida através da escola.

Mais ainda, a experiência da Escola 42 é verdadeiramente internacional, com Lisboa e Porto ligados a outros 55 campus em 24 países, com mais de 21.000 alunos ligados entre si por uma plataforma de partilha de conhecimento. Uma verdadeira comunidade global de aprendizagem e colaboração.

E o impacto é muito claro. Os alunos da 42 saem ao fim de dois anos com os mesmos salários de graduados do Técnico ou da FEUP ao fim de cinco.

Está a começar uma revolução tecnológica na educação e a 42 é um exemplo do futuro – mas muitos outros estão a aparecer todos os dias.  A tecnologia permite oferecer melhor pedagogia, mais personalizada e eficiente. Mas, tal como em todas as disrupções tecnológicas a que assistimos noutros setores, dificilmente serão as instituições tradicionais a liderar a inovação. Ainda mais num país como o nosso, com uma regulação extrema, que legisla todos os detalhes de um curso superior, com incentivos errados, que não canalizam recursos financeiros para as universidades com maior procura nem fecham as que não têm nenhuma, e com modelos de governação endogâmicos, em que os reitores são votados pelos seus professores em vez de prestarem contas à sociedade que os financia.  Esta estrutura protege os incumbentes no curto prazo, mas condena-os no longo prazo, porque lhes retira o incentivo e a capacidade de responder às alterações do mercado.

Ficam os dinossauros a olhar para o cometa que se aproxima.

Em suma, o problema das universidades Portuguesas não é uma mera quebra de procura explicada por fatores conjunturais como a dificuldade do exame de matemática. O problema é a falta de coragem para admitir que o modelo educativo já não responde às necessidades dos jovens, nem às do País. Em vez de pedir proteção ao governo, multiplicar cursos sem procura e manter estruturas pesadas, as universidades deviam estar a discutir qualidade, inovação e accountability.

A queda nas candidaturas ao ensino superior e a explosão da procura pela 42 não são fenómenos isolados. São consequências do mesmo choque tecnológico. O futuro da educação não se constrói com mais regulação e protecionismo. Constrói-se com qualidade, diversidade e concorrência.