Em Portugal, os fisioterapeutas são os profissionais não médicos mais presentes nos programas de reabilitação cardíaca, atuando em mais de 90% dos programas, que são normalmente coordenados por médicos cardiologistas, presentes em todos eles. O acesso a estes programas, apesar da ligeira evolução, continua a ser limitado em Portugal. Dados de 2018 indicam que apenas 8 a 9% das pessoas com doença cardiovascular pós-enfarte participaram num programa com estas características. Embora tenha ocorrido uma melhoria importante em comparação aos 3% de 2007, o acesso é ainda francamente inferior à média europeia – que ultrapassa os 30% – com alguns países a apresentarem índices superiores a 50%.

A fisioterapia cardiorrespiratória é uma área de especialidade da fisioterapia que se foca na abordagem a pessoas em todo o ciclo de vida com doença respiratória ou cardiovascular instituída, ou em risco de a desenvolver. Os fisioterapeutas cardiorrespiratórios atuam na promoção de saúde e prevenção de doenças não transmissíveis respiratórias e cardiovasculares, intervêm no funcionamento específico e integrado dos sistemas cardiovascular, pulmonar e neuromuscular, em contexto crónico, agudo e crónico agudizado. E são elementos centrais, por exemplo, nos programas de reabilitação respiratória e reabilitação cardíaca.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a reabilitação cardíaca como um conjunto de atividades coordenadas que visam influenciar positivamente a causa subjacente da doença cardiovascular, promovendo as melhores condições possíveis para que as pessoas possam preservar ou retomar o seu funcionamento ideal na comunidade. A reabilitação visa também otimizar comportamentos de saúde, retardando ou revertendo a progressão da doença. Este processo tem um forte suporte científico, especialmente para o tratamento de pessoas pós eventos coronários, como o enfarte agudo do miocárdio. Um dos componentes centrais destes programas é o exercício físico, presente em todas as recomendações de entidades internacionais como a European Society of Cardiology [Sociedade Europeia de Cardiologia], a American Heart Association ou o American College of Cardiology.

Os fisioterapeutas são profissionais de saúde capacitados de forma diferenciada na prescrição e implementação de exercício segura e efetiva em contextos clínicos, tal como o da doença cardiovascular. A participação em programas de reabilitação cardíaca traz benefícios claramente suportados pela literatura científica, como a redução da mortalidade por doenças cardiovasculares, a diminuição da repetição de eventos cardíacos, a redução do risco de hospitalização e uma melhoria significativa na qualidade de vida das pessoas que os realizam. Tendo em vista estes benefícios, a questão que se coloca é: o que limita ainda o acesso a esses programas em Portugal?

Uma das principais barreiras ao acesso é o número reduzido de centros dedicados formalmente a esta área. Em 2019, existiam apenas 25 centros, sendo que metade estava localizada na região de Lisboa e a outra metade no Norte do país. No entanto, havia apenas um centro na região Centro e um no Sul. Apesar do crescente interesse por modelos híbridos, como a telerreabilitação/telefisioterapia e outras intervenções com suporte digital, a acessibilidade geográfica continua a ser um desafio importante, especialmente para as pessoas com doença cardiovascular fora dos grandes centros urbanos. Este desafio é agravado pelas dificuldades de transporte, barreiras financeiras e falta de suporte familiar e social, o que torna o acesso ainda mais difícil para alguns grupos da população, sublinhando as desigualdades sociais presentes no acesso a cuidados de saúde.

Além disso, a referenciação para programas de reabilitação cardíaca também representa uma barreira significativa. Entre os fatores que contribuem para essa limitação, destacam-se o desconhecimento dos benefícios desses programas, tanto por parte dos profissionais de saúde como das próprias pessoas com doença cardiovascular. A falta de percursos de cuidados bem definidos e a ineficácia dos sistemas de referenciação  também dificultam o encaminhamento adequado. Adicionalmente, ainda existem crenças e mitos relativamente ao exercício físico para as pessoas com doenças cardiovasculares, como o medo de que possa ser prejudicial.

O crescente interesse nesta área, aliado ao desenvolvimento científico e à diferenciação profissional das equipas multidisciplinares, aponta para uma evolução positiva na oferta desses programas em Portugal. A criação do Colégio de Especialidade em Fisioterapia Cardiorrespiratória pela Ordem dos Fisioterapeutas será um passo importante para a capacitação e diferenciação dos fisioterapeutas que atuam nesta área.

Para garantir que os benefícios da reabilitação cardíaca cheguem a um maior número de pessoas com doença cardiovascular é essencial o investimento na expansão e na melhoria da capacidade dos centros existentes, bem como a optimização das redes de referenciação clínica. Além disso, a divulgação eficaz dos benefícios desses programas à população é crucial, não apenas do ponto de vista da saúde, mas também do ponto de vista económico, uma vez que a reabilitação cardíaca pode reduzir significativamente os gastos com saúde, prevenindo complicações graves e hospitalizações recorrentes.

Investir na reabilitação cardíaca em Portugal não só pode melhorar a saúde das pessoas com doenças cardiovasculares, mas também contribuir para reduzir os custos a longo prazo com cuidados de saúde. Ampliar o acesso a esses programas deve ser uma prioridade para melhorar a qualidade de vida da população, especialmente das pessoas com condições cardiovasculares crónicas. Superar as barreiras geográficas, melhorar a referenciação clínica e aumentar a consciencialização sobre os benefícios da reabilitação serão passos fundamentais para garantir uma abordagem mais acessível e eficaz à saúde cardiovascular.

Vitor Hugo Azevedo é professor adjunto da Escola Superior de Saúde de Alcoitão,  fisioterapeuta cardiorrespiratório e intensivista na ULS Lisboa Ocidental – Hospital de Egas Moniz. É ainda coordenador do FisiO2 – Centro de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Sarcopenia) da Unidade de Fisioterapia do Centro de Reabilitação e Integração para Pessoas com Deficiência (CRID) e membro do Conselho Geral da Ordem dos Fisioterapeutas. É um dos cronistas convidados do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.

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