A ocorrência de um evento cardiovascular grave, como um enfarte agudo do miocárdio, é marcante e pode originar diversas complicações. Aliás, nunca é demais relembrar que a principal causa de morte nos países desenvolvidos continua a ser a doença cardiovascular, sendo em Portugal responsável por aproximadamente 30% das mortes anuais. Mais alarmante é reconhecer que a maioria destes casos poderiam ser evitados porque estão associados a fatores de risco cardiovasculares modificáveis e relacionados com um estilo de vida desadequado. Ou seja, muitos destes eventos devem-se à ausência de uma prevenção eficaz. É urgente mudar este paradigma e todos nós — doentes, profissionais de saúde e sociedade em geral, somos parte interessada e temos um papel ativo a desempenhar nesta transformação.
Independentemente do risco prévio, os doentes que sofrem um enfarte agudo do miocárdio passam a ter um risco cardiovascular muito elevado. Ou seja, a probabilidade de terem outro evento é superior comparativamente às pessoas que nunca tiveram um episódio semelhante. Neste contexto, é fundamental que estes doentes não subestimem a importância da prevenção secundária, essencial para reduzir o risco de recorrência e preservar a qualidade de vida.
As reações dos doentes após um evento cardíaco agudo são muito variáveis, incluindo aqueles que infelizmente pensam que após um destes episódios estão “protegidos” e não voltarão a ter mais nenhum problema. Mas é precisamente o contrário e não poderiam estar mais enganados! Esta perceção errada pode ter implicações clínicas muito graves e, por vezes, irreversíveis.
Após um enfarte agudo do miocárdio os cuidados devem ser reforçados. É fundamental cumprir rigorosamente a medicação prescrita pelos médicos assistentes, alguma para o resto da vida. Paralelamente é essencial começar ou continuar a melhorar o estilo de vida promovendo hábitos mais saudáveis. A vigilância médica regular também não deve ser negligenciada, exigindo frequentemente a realização de exames complementares de diagnóstico, para monitorizar o estado da saúde cardiovascular. Como estas recomendações são muitas vezes ignoradas e desvalorizadas, há pessoas que voltam a ter eventos cardíacos agravando ainda o seu prognóstico.
Para melhorar a prevenção secundária é crucial envolver o doente ao longo de todo o processo. Aliás, a ocorrência de um evento clínico agudo poderá ser o momento-chave para motivar e incentivar alterações comportamentais. É importante estabelecer uma comunicação clara e eficaz entre médico e doente, permitindo o esclarecimento das suas dúvidas. A disponibilidade dos profissionais de saúde para estes esclarecimentos, a distribuição de materiais educativos e a aplicação de metodologias que simplifiquem esta comunicação, como o uso de plataformas digitais, poderão fazer a diferença, sobretudo nas fases iniciais, que são as mais críticas.
Idealmente, após um enfarte agudo do miocárdio, os doentes devem integrar um programa de reabilitação cardíaca. Apesar desta recomendação ser clara, Portugal está muito aquém do desejável, sendo reduzido o número de doentes que têm acesso a estes programas e ainda menor aqueles que os completam. Na realidade, através de uma equipa e abordagem multidisciplinares (com a intervenção de várias áreas da saúde), a reabilitação cardíaca ajudará os doentes a retomarem mais rapidamente a sua vida quotidiana, a reduzir o risco de complicações e a melhorar a qualidade de vida.
Neste programa é iniciada a otimização do estilo de vida, tendo por base a prescrição individualizada e a prática monitorizada de exercício físico. Aliás, o exercício físico, a adoção de uma alimentação adequada e o controlo do peso, apesar de ainda serem medidas muito subvalorizadas, têm comprovadamente um impacto benéfico em todos os níveis de prevenção cardiovascular.
Por tudo isto, é fundamental reforçar a importância da prevenção secundária após um evento cardíaco agudo. Pequenas mudanças e cuidados consistentes podem fazer toda a diferença e ter um impacto profundo na saúde destes doentes. Embora seja designada como “secundária”, esta forma de prevenção deve ocupar um lugar central no seguimento clínico e a sua implementação constituir inequivocamente uma prioridade.
Hélder Dores é médico cardiologista, coordenador da Cardiologia Clínica, Cardiologia Desportiva e Reabilitação Cardíaca do Hospital da Luz Lisboa. É ainda professor auxiliar na Nova Medical School e um dos cronistas convidados do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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