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Essena. Quem? Ou antes, o quê?

Autor
  • Paula Cordeiro

A beleza está aos olhos de quem a vê, mesmo quando à nossa volta tudo grita feio. Não tenhamos dúvidas de que aquilo que percepcionamos depende apenas de nós, das conotações que damos ao mundo.

Há uma debandada geral do mundo online. Primeiro os jovens em fuga do Facebook. Ontem a Essena. Hoje a anti-hipster Barbie. Quem se seguirá?

Isto significa, apenas, uma coisa: o mundo não está melhor sem a sua presença online. Mas, também, não piorou. Sequer, parou. Há temas muito mais importantes do que a cena que a Essena preparou, ou a mestria da Darby que transformou a not-that-hipster Barbie numa figura mais do que hipster, apesar das semelhanças. A única dissemelhança era com a realidade. A real, que vivemos todos os dias e que muitos afirmam não ser bonita.

A beleza está aos olhos de quem a vê, mesmo quando à nossa volta tudo grita feio. Não tenhamos dúvidas de que aquilo que percecionamos depende apenas de nós, das conotações que damos ao mundo e a forma como interpretamos o que está à nossa volta. No momento, preocupa-me mais a situação dos refugiados sírios perdidos por essa Europa ou o orçamento que (ainda) não temos, do que a miúda que lá nos antípodas resolveu acordar e perceber que andava a brincar ao faz de conta, bem como a outra que, na mesma altura (já dizia a Margarida Rebelo Pinto que não há coincidências), decidiu expor os objetivos da Socality Barbie.

Hey guys, my name is Darby Cisneros and I am the creator of SocalityBarbie. I just wanted to introduce myself and thank all of you for enjoying this account. I started SB as a way to poke fun at all the Instagram trends that I thought were ridiculous. Never in 1 million years did I think it would receive the amount of attention that it did but because of that it has open the door to a lot of great discussions like: how we choose to present ourselves online, the insane lengths many of us go to to create the perfect Instagram life, and calling into question our authenticity and motives. It's been a blast running this account but I believe SB's work here is done. I will be leaving this account open for a while for people still want to look through and enjoy it. Again, thank you for following along. If anyone has any questions or just want to say hi feel free to email me at socalitybarbie@gmail.com ✌️#RIP (account NOT for sale)

A photo posted by Socality Barbie (@socalitybarbie) on

Em comum, apenas uma coisa: a verdade por trás dos factos e a denúncia da fantasia que pode acontecer online. E que, em boa verdade, já acontecia no cinema. Ou na televisão. Com a consequência de, online, haver quem pense que aquilo é verdade e a palavra ficção estar de tal forma associada à televisão e ao cinema a ponto de se tornar intrínseca. Não acontece isso relativamente ao contexto online, há muito associado a ideias de gratuitidade, genuinidade, diversidade, honestidade e veracidade… até prova em contrário.

De facto, nada do que se encontra na rede é verdadeiro. São milhares de píxeis que circulam em cabos de fibra ótica ou nos chegam pelo ar, convertendo-se em imagens perfeitas, reflexo do real. Poesia? Não. O sistema de comunicação online baseia-se na transmissão de dados que depende de protocolos para a distribuição da informação padronizada entre requisição e resposta. Demasiado técnico? Efetivamente, na comunicação online não há qualquer poesia, apenas técnica muito embora, para os utilizadores, a técnica seja apenas o veículo de acesso à poesia. Abstrato? Talvez. O contexto online – que não é exatamente o mundo virtual – foi criado com objetivos concretos de comunicação e troca de mensagens com disponibilidade imediata no acesso à Internet através da web. Porque as três palavras, ao contrário do que se pensa, não são sinónimos. Da mesma forma, o que projetamos para a rede, comummente usada como sinónimo da Internet, por representar as ligações entre computadores, tem tanto de real como a própria designação em si. O que está online está assente numa rede física que se propaga de forma virtual, invisível aos olhos, aproveitando-se desse facto para a projeção de todo o tipo de elementos e conteúdos na criação e construção de imagens. Uma delas, da perfeição.

Se a Essena vivia da sua imagem, a Darby decidiu criar uma imagem para criticar esse predomínio da beleza, levantando o véu sobre a aparente verdade nos media sociais. No Instagram as fotos são enquadradas, cortadas, editadas e filtradas. Raramente se parecem com a versão original dos factos. Mas isso, já sabíamos, não é? Afinal, se nós as melhorarmos, os outros também… Para mim, que já não tenho 20 anos, o mais interessante nestas notícias é o potencial de reflexão que produzem, por perceber que os principais utilizadores dos media sociais não pensam muito sobre a sua utilização. Tal como nós não pensámos sobre as consequências do fenómeno couch potato, pessoas sentadas no sofá, dominadas pelo comando da TV. A questão não se reduz a isto mas pode simplificar-se pela teoria que nos coloca a todos como objetos facilmente manipuláveis pelo poder da comunicação mediática, agora também ela digital. Essena e Darby provam que a sociedade, embora pareça, não é acrítica e, mesmo demorando o seu tempo, tem consciência de si própria, dos seus comportamentos e consequências dos meios que utiliza, contra este comodismo que teima em ignorar a distorcida noção de real ou a idealização da noção de perfeição.

Como acontece a algumas modelos, a Essena fartou-se. De não comer para manter a barriga lisa. De carradas de maquilhagem para tapar imperfeições da pele e horas infindáveis para a fotografia perfeita. Como também já aconteceu, decidiu denunciar os vícios de uma indústria que promove, acima de tudo, a beleza. Quoi de neuf? O facto de a Essena nunca ter saído do computador, do mundo online e deste, não depender desse paradigma da produção e fantasia que subjaz à comunicação social em geral e ao cinema, em particular.

INTERNET

A rede das redes, isto é, um sistema global de redes de computadores interligadas entre si que comunicam através de um conjunto de protocolos padronizados para o efeito (TCP/IP) servindo milhares de milhões de pessoas e organizações em todo o mundo.

WEB

A web, ou seja, a world wide web ou, simplesmente, os três w’s que antecedem qualquer endereço (URL) corresponde a um conjunto de documentos hipermedia interligados e executados na Internet, à qual acedemos através de um navegador (browser), como o Internet Explorer, o Google Chrome ou o Safari.

ONLINE

Deriva do verbo estar, ou seja, a disponibilidade das páginas na Internet, em tempo real. Estamos online, usamos um browser para navegar na web, à qual acedemos através da internet.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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