Há uma debandada geral do mundo online. Primeiro os jovens em fuga do Facebook. Ontem a Essena. Hoje a anti-hipster Barbie. Quem se seguirá?

Isto significa, apenas, uma coisa: o mundo não está melhor sem a sua presença online. Mas, também, não piorou. Sequer, parou. Há temas muito mais importantes do que a cena que a Essena preparou, ou a mestria da Darby que transformou a not-that-hipster Barbie numa figura mais do que hipster, apesar das semelhanças. A única dissemelhança era com a realidade. A real, que vivemos todos os dias e que muitos afirmam não ser bonita.

A beleza está aos olhos de quem a vê, mesmo quando à nossa volta tudo grita feio. Não tenhamos dúvidas de que aquilo que percecionamos depende apenas de nós, das conotações que damos ao mundo e a forma como interpretamos o que está à nossa volta. No momento, preocupa-me mais a situação dos refugiados sírios perdidos por essa Europa ou o orçamento que (ainda) não temos, do que a miúda que lá nos antípodas resolveu acordar e perceber que andava a brincar ao faz de conta, bem como a outra que, na mesma altura (já dizia a Margarida Rebelo Pinto que não há coincidências), decidiu expor os objetivos da Socality Barbie.

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Em comum, apenas uma coisa: a verdade por trás dos factos e a denúncia da fantasia que pode acontecer online. E que, em boa verdade, já acontecia no cinema. Ou na televisão. Com a consequência de, online, haver quem pense que aquilo é verdade e a palavra ficção estar de tal forma associada à televisão e ao cinema a ponto de se tornar intrínseca. Não acontece isso relativamente ao contexto online, há muito associado a ideias de gratuitidade, genuinidade, diversidade, honestidade e veracidade… até prova em contrário.

De facto, nada do que se encontra na rede é verdadeiro. São milhares de píxeis que circulam em cabos de fibra ótica ou nos chegam pelo ar, convertendo-se em imagens perfeitas, reflexo do real. Poesia? Não. O sistema de comunicação online baseia-se na transmissão de dados que depende de protocolos para a distribuição da informação padronizada entre requisição e resposta. Demasiado técnico? Efetivamente, na comunicação online não há qualquer poesia, apenas técnica muito embora, para os utilizadores, a técnica seja apenas o veículo de acesso à poesia. Abstrato? Talvez. O contexto online – que não é exatamente o mundo virtual – foi criado com objetivos concretos de comunicação e troca de mensagens com disponibilidade imediata no acesso à Internet através da web. Porque as três palavras, ao contrário do que se pensa, não são sinónimos. Da mesma forma, o que projetamos para a rede, comummente usada como sinónimo da Internet, por representar as ligações entre computadores, tem tanto de real como a própria designação em si. O que está online está assente numa rede física que se propaga de forma virtual, invisível aos olhos, aproveitando-se desse facto para a projeção de todo o tipo de elementos e conteúdos na criação e construção de imagens. Uma delas, da perfeição.

Se a Essena vivia da sua imagem, a Darby decidiu criar uma imagem para criticar esse predomínio da beleza, levantando o véu sobre a aparente verdade nos media sociais. No Instagram as fotos são enquadradas, cortadas, editadas e filtradas. Raramente se parecem com a versão original dos factos. Mas isso, já sabíamos, não é? Afinal, se nós as melhorarmos, os outros também… Para mim, que já não tenho 20 anos, o mais interessante nestas notícias é o potencial de reflexão que produzem, por perceber que os principais utilizadores dos media sociais não pensam muito sobre a sua utilização. Tal como nós não pensámos sobre as consequências do fenómeno couch potato, pessoas sentadas no sofá, dominadas pelo comando da TV. A questão não se reduz a isto mas pode simplificar-se pela teoria que nos coloca a todos como objetos facilmente manipuláveis pelo poder da comunicação mediática, agora também ela digital. Essena e Darby provam que a sociedade, embora pareça, não é acrítica e, mesmo demorando o seu tempo, tem consciência de si própria, dos seus comportamentos e consequências dos meios que utiliza, contra este comodismo que teima em ignorar a distorcida noção de real ou a idealização da noção de perfeição.

Como acontece a algumas modelos, a Essena fartou-se. De não comer para manter a barriga lisa. De carradas de maquilhagem para tapar imperfeições da pele e horas infindáveis para a fotografia perfeita. Como também já aconteceu, decidiu denunciar os vícios de uma indústria que promove, acima de tudo, a beleza. Quoi de neuf? O facto de a Essena nunca ter saído do computador, do mundo online e deste, não depender desse paradigma da produção e fantasia que subjaz à comunicação social em geral e ao cinema, em particular.

INTERNET

A rede das redes, isto é, um sistema global de redes de computadores interligadas entre si que comunicam através de um conjunto de protocolos padronizados para o efeito (TCP/IP) servindo milhares de milhões de pessoas e organizações em todo o mundo.

WEB

A web, ou seja, a world wide web ou, simplesmente, os três w’s que antecedem qualquer endereço (URL) corresponde a um conjunto de documentos hipermedia interligados e executados na Internet, à qual acedemos através de um navegador (browser), como o Internet Explorer, o Google Chrome ou o Safari.

ONLINE

Deriva do verbo estar, ou seja, a disponibilidade das páginas na Internet, em tempo real. Estamos online, usamos um browser para navegar na web, à qual acedemos através da internet.