Comunicação Social

Rádio? Prazer. Porque a rádio pode ser muito sensual

Autor
  • Paula Cordeiro

Todos os anos o Prix Itália promove a qualidade, inovação e criatividade na comunicação social. Paula Cordeiro, investigadora e Provedora do Ouvinte da RTP, conta-nos o que de melhor ouviu este ano.

Apenas por ouvirmos. Sem qualquer conotação verdadeiramente sexual. Ou talvez com uma pequena conotação, pelo prazer que nos dá, através de pequenos apontamentos de rádio. Da rádio. Aquela que a maioria de nós já esqueceu como se faz porque se sente mais confortável ignorando. Não dói, assim. Aquela que gradualmente fomos apagando da memória em função da rádio pobre e preguiçosa, feita com base em receitas simples e eficazes. Como fast food, enche, mas não alimenta. Esta outra rádio é sensual, acaricia o ego e satisfaz quem ouve. Os exemplos desta rádio arrojada crescem como cogumelos agora que a Internet está disponível, literalmente, em cada esquina e em todos os dispositivos.

Sentei-me para escrever sobre os Prix Itália e dei comigo a pensar a rádio com conotações mais ou menos sexuais. Sensuais, sem dúvida. Porque, excepcionalmente, a rádio pode ser orgásmica. Ou tão simplesmente porque me falavam, ao ouvido, sobre vibradores. Eu explico.

Este ano, os Prix Itália criaram uma nova categoria, o Golden Award, para premiar a inovação e novos formatos. Pediram-me para apresentar os nomeados e discutir a novidade na rádio. Depois, foi com especial prazer que percebi que o vencedor era o meu preferido: um podcast que pode, também ele, falar de sexo. Se tal fizer sentido. Chama-se The Heart e assume-se como um formato artístico, baseado no som, resultando num podcast sobre intimidade e pessoas. Aquele que (já) ouvi, falava sobre vibradores, de uma forma tão natural que será impossível chocar alguém.

No The Heart é tudo bom. As vozes, o ritmo, o texto, a sonoplastia, a música. O silêncio. A rádio não tem de ser apenas assim (nem poderia), mas a rádio – a nossa rádio – poderia ser um bocadinho mais assim. O The Heart (link iTunes) venceu esta nova categoria dos Prix Itália 2015 por corresponder a um novo paradigma da rádio. Um formato recente – podcast – que recupera o que de melhor a rádio tem: as estórias e as pessoas. Brilhante.

Para quem não sabe – e eu própria desconhecia os detalhes – os Prix Itália celebram 67 anos a promover a qualidade, inovação e criatividade na comunicação social, unindo mais de 100 operadores de rádio, televisão e web players dos cinco continentes.

Actualmente, para além dos propósitos iniciais, procuram juntar à discussão a interatividade, convergência e potencial da digitalização para a comunicação. A atribuição dos prémios é o aspecto central mas, pela minha experiência, os Prix Itália estão mais para um ponto de encontro, troca de ideias e práticas, um fórum no qual a rádio, a televisão e a web assumem o papel principal, do que apenas uma entrega de prémios. Durante uma semana, de forma paralela à escolha e apresentação dos nomeados e vencedores, decorre um conjunto de sessões que reflectem, discutem e projectam o futuro da comunicação mediática, num verdadeiro laboratório de criatividade.

Calculo que, nesta edição, a escolha dos vencedores na área da rádio e televisão tenha sido extremamente difícil porque os nomeados eram todos bons. Destaco aqueles que, por uma ou outra razão, me ficaram na memória, nomeadamente o The Heart, vencedor do Golden Award. Mas também o vencedor do Prémio Especial Presidente da República Italiana o qual, confesso, me deu especial prazer anunciar, por ter sido produzido por mulheres, num formato pouco usual na rádio: o documentário.

O prémio ficção na rádio elegeu uma estória que traduz a influência da tecnologia na nossa sociedade: Five Modern Tales (CBS/SRC) simula a voz de um GPS que interage com o condutor e o confronta com os seus dilemas mais íntimos, enquanto a rádio pública sueca colocou o dedo na ferida: The Black Saint venceu a categoria documentário, numa abordagem sobre o racismo, através da história de uma menina indiana, adoptada e a viver na Suécia, que participou numa encenação para televisão das famosas celebrações de Santa Lucia. As reações não se fizeram esperar e, naturalmente, este documentário foca o lado mais obscuro do comportamento humano, numa sociedade (aparentemente) tão liberal como a sueca.

Gostei particularmente de dois dos vencedores das várias categorias dos prémios da Televisão. The Gay Wedding (Ch4, Grã-Bretanha), representa a mudança social através de um musical que transformou a realidade num objeto artístico. Finalmente, o documentário Children on the Frontline (CH4, Grã-Bretanha) acompanha cinco crianças Sírias que guardarão, para sempre, as marcas do conflito. Poderia ser rádio, mas não é. Poderia ser apenas uma estória, mas The Children of the Frontline, independentemente do formato ou meio de transmissão, conta a mais dura das histórias. A da Síria contemporânea.

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