O João, jovem universitário, veio ter comigo para me dizer que não quer confessar-se a um padre, porque acha que não é necessário fazê-lo, para obter o perdão divino. Prefere reconciliar-se directamente com Deus. Afinal, não está Ele em toda a parte?! E não sabe já todos os nossos pecados?

Razão não lhe faltava e, por isso, concordei com ele:

– Tens toda a razão! Eu também acho o mesmo e, por isso, não me confesso a nenhum padre! Era o que mais faltava! Aliás, que sentido faria estar eu a dizer os meus pecados a uma pessoa que nem sequer ofendi?! Além do mais – e sei do que falo, porque eu próprio sou padre e sou pecador! – os padres nem sempre são os melhores cristãos. Eu confesso-me sempre directamente a Deus. Nunca me confessaria a um padre!

O João ficou perplexo com a resposta mas, na dúvida, perguntou-me:

– Mas, nunca se confessa a um padre?! Então a quem se confessa?

– Pois a Deus, directamente, como tu dizes e dizes muito bem. E pelas tuas mesmas razões! Nem outra coisa faz sentido, acho eu.

– Mas – alvitrou, ainda temeroso, o jovem universitário – não é isso que a Igreja ensina ou, pelo menos, a grande maioria dos padres dizem!

– Nisso estás tu muito enganado. Todos dizemos o mesmo e todos reproduzimos fielmente a doutrina da Igreja que, sobre este particular, não deixa lugar para dúvidas. Tu é que ainda não percebeste que o que desejas é o que a Igreja te oferece, ou seja, a confissão directamente com Deus!

– Como assim, se a confissão individual, para que seja válida, requer sempre o recurso a um confessor?!

– Diz-me primeiro: como falas tu com a tua namorada, a Mónica, que está a fazer Erasmus, na Bélgica?

– Pelo Skype, ou, se for muita a urgência, pelo telemóvel.

– Mas falas directamente com ela?

– Sim claro, é com ela que eu falo, embora através de um instrumento.

– Não falas com o Skype, nem com o telemóvel, não é verdade? Não começas as tuas conversas com ela cumprimentando o Skype, ou o telemóvel, pois não?

– Claro que não! Seria absurdo! Não falo com o Skype, nem com o telemóvel, apenas me sirvo deles para falar directamente com a Mónica!

– Pois, João, é isso mesmo! É o que acontece cada vez que me confesso: falo directamente com Deus, é a Ele e só a Ele que eu conto os meus pecados, porque também só Ele me pode perdoar. Faço-o também através de um instrumento, neste caso humano, que é o confessor. Mas não é a ele que me confesso, embora seja através dele que a minha contrição chega a Deus e o perdão de Deus chega a mim, pela absolvição sacramental.

– Mas, não seria muito melhor se o perdão divino nos chegasse sem necessidade de recorrer a um ser humano?!

– Mas, se fosse como dizes, como é que alguém, mesmo que verdadeiramente arrependido, poderia ter a certeza do perdão de Deus?! Não seria angustiante ficar sem saber se tinha sido, ou não, perdoado?! Não é reconfortante saber que o confessor, precisamente por que é também um pecador, nos compreende, por graves que sejam as nossas faltas?

– Tem razão, assim é mais fácil porque, quem nos ouve em confissão, sabe, por experiência própria, do que nos acusamos …

A conversa não ficou por aqui, mas o João já se confessa directamente a Deus. Disse-me, da última vez, que é como falar com a Mónica, mas com a vantagem de que, na Igreja, há sempre rede e é de graça! Pois é, é graça de Deus … que tem imensa graça! A confissão, que decidiu a conversão de Chesterton, é a jubilosa expressão do amor de Deus porque, segundo este autor, “a alegria, que era pequena publicidade do pagão, é o gigantesco segredo do cristão”.

Sacerdote católico