Vamos ver o que as próximas eleições para o Parlamento Europeu nos vão mostrar quanto à habilidade de António Costa. Vamos ver se o negociador exímio, o malabarista ímpar e o construtor de consensos impossíveis se alcandora a novos patamares e se propõe “governar” os eurodeputados em conjunto, num bloco anti-Euro, anti-NATO, anti-UE (e pró-Maduro?). Para já está a começar bem.

Em campanha eleitoral (oficialmente inaugurada na cozinha de Cristina Ferreira), procurará Costa articular o seu PS com as mensagens e propostas de PCP e Bloco, ensaiando uma quadratura de um círculo muito maior?

Conseguirá o primeiro-ministro de Portugal demonstrar que é o único homem capaz de tirar da manga trunfos negociais e políticos de tal monta que lhe permitirão montar uma coligação europeia de partidos que, afinal, sendo amigos cá dentro também não podem estar desavindos lá fora? Será essa uma condição sine qua non para que Pedro Marques ocupe a cadeira de Comissário rapidamente? E será esse um passo decisivo para uma candidatura de António Costa à presidência da Comissão, depois de a geringonça estar transformada num monte de cacos e Portugal se confrontar com o diabo?

A imaginação é livre e o que temos visto permite tudo. Depois de apostar num Ministro do planeamento e das obras públicas que não fez nenhuma obra e que planeou, aparentemente, muito pouco, Costa decide apostar em Pedro Marques para seu cabeça-de-lista às europeias.

Nem é tanto a circunstância de ver Pedro Marques promoted away que me surpreende (o PS encontraria, por certo, pessoas de outra craveira para o lugar) — é mais o sinal que essa opção representa no que toca à visão para a União Europeia e à confiança (a que alguns chamam arrogância) de achar que já tem as eleições europeias “no papo”.

Do ex-ministro não se conhece um pensamento de fundo sobre a Europa nem se lhe ouviram propostas – apenas soundbytes vagos, tão-só proclamações genéricas. A melhor das quais, obtida no Carnaval de Torres Vedras (sim, é verdade!) onde um repórter da SIC, sem perceber se Pedro Marques se encontrava ali a desfilar (disfarçado de europeísta convicto) ou a fazer campanha, conseguiu obter umas declarações desconexas sobre a importância de a Europa estar próxima dos cidadãos.

Em tempos de indefinição no seio da União Europeia e de ameaças as mais várias à fidelidade à sua génese democrática, integradora e pacificadora (e também, por essa mesma via, à sua capacidade de influência global), impunha-se que as forças partidárias jogassem as suas melhores peças no tabuleiro eleitoral que se avizinha. Entendo que é assim que melhor se defenderia o interesse nacional e o interesse da Europa. E é isso o mínimo que um primeiro-ministro sério faria se não estivesse exclusivamente preocupado com a sua agenda e com a agenda dos seus guardas pretorianos.

Aplaudo por isso que Nuno Melo continue como o rosto do CDS para o Parlamento Europeu – todos lhe reconhecem méritos e por isso não será despromovido a uma função burocrática interna, ainda que com acesso mais directo a um lugar de governante no futuro.

João Ferreira e Marisa Matias são modelos de combatividade e quadros de primeira água nos respectivos partidos, que não poderiam deixar de ser pontas-de-lança numa disputa electiva para a União.

Paulo Rangel, sobretudo, é o político experiente, influente e brilhante que todos admiram em Bruxelas e que, podendo ter assento em qualquer lugar de qualquer instituição, optou por continuar o seu caminho europeu como candidato pelo PSD. E granjeou entretanto – o que não é de somenos — o apoio entusiástico de Carlos Moedas, a principal reserva expatriada de Portugal, como já aqui escrevi e expliquei, e que considera que Rangel é uma “referência na política europeia”.

De Pedro Marques, para além de lhe termos ficado a conhecer o gosto especial por serpentinas e confettis, ouvimos, para já (e não deveremos ouvir muito mais, pois o candidato não aprecia debates – mais uma manifestação que apoia a tese da arrogância e sobranceria do PS) que “Em toda a Europa, e também em Portugal, são necessárias políticas de criação de emprego, de combate à precariedade e de reforço da igualdade, incluindo a de género” e que isso “vai depender da opção por uma Europa mais solidária, que só o será se afastarmos definitivamente a política de austeridade das instituições europeias”.

Ou seja: pouco e mau. Pouca substância e má direcção. A não ser que o objectivo seja mesmo agradar aos parceiros do costume para que se entendam também lá fora, possivelmente com impostos europeus, reposição de regalias de funcionários e travagem a fundo de investimento público.

Parece ser este o símbolo do europeísmo de António Costa – que, lá como cá, privilegia a forma sobre o conteúdo e põe sempre a táctica à frente da estratégia substantiva.

No fundo, um Carnaval. Cá como na Europa, com algum pão e muito circo vamos levando a nossa avante. Até quando? Até quando?