No mesmo dia em que o presidente venezuelano Nicolas Maduro era capturado e transportado até Nova Iorque, Katie Miller antiga “conselheira” do DOGE (Department of Government Efficiency) de Musk e esposa de Stephen Millers considerado por muitos como o mais influente conselheiro (e ideólogo) de Trump publicava no X um post com o mapa da Gronelândia com a bandeira dos EUA.

Horas depois, numa intervenção telefónica em direto na Fox, o presidente dos EUA declarava que “temos que fazer alguma coisa sobre os cartéis no México” dando a entender operações de extração semelhantes no México o que aliás ficou também no ar nas suas declarações no dia da operação quando saiu do “script” (algo comum em Trump) e disse “temos de fazer isto, outra vez, noutros países. Ninguém nos consegue parar”.

A publicação de Katie Miller e as múltiplas declarações de Trump exprimindo o interesse na ocupação da Gronelândia, o empoderamento actual e a existência – cada vez mais flagrante – de “Novas Tordesilhas” que deixam aos EUA as Américas (incluindo a Groenlândia), a Europa e a África do Norte à Rússia e o resto do planeta à China, indicam que Trump não se vai ficar por uma operação cirúrgica na Venezuela e vai aprofundar a sua “posse” da parte do mundo pisando, de passagem, o Direito Internacional, a União Europeia e a própria NATO realizar uma ocupação militar do território autónomo, sob soberania dinamarquesa, da Groenlândia.

Na minha opinião o controlo militar da Gronelândia pelos Estados Unidos não colocaria, em termos estritamente militares e operacionais, um problema sério de resistência armada convencional. A Gronelândia, oficialmente Kalaallit Nunaat (nome em língua gronelandesa, que significa “Terra dos Gronelandeses”), é um território gigantesco em área, com cerca de 2,16 milhões de Km2, cerca de 80% dos quais cobertos por gelo, o que reduz drasticamente a área habitável e defensável. A população é muito reduzida, em torno de 56.000 habitantes, concentrados em algumas localidades costeiras ao longo da costa (como Nuuk, capital, Sisimiut, Ilulissat, Qaqortoq, Aasiaat), sem ligações ferroviárias ou rodoviárias entre si e totalmente  dependentes do transporte aéreo e marítimo.

Não existe uma profundidade estratégica defensiva relevante em termos convencionais: não há forças armadas locais, não há indústria de defesa, não existem sistemas de defesa aérea ou forças terrestres mecanizadas, e a população não está militarizada nem organizada para resistência armada nem motivada ou preparada para acções de guerrilha em caso de ocupação militar. Em termos de soberania formal, a Gronelândia é um território autónomo dentro do Reino da Dinamarca, com amplas competências internas e possibilidade de autodeterminação, mas sem capacidade própria de defesa militar credível contra uma grande potência como os EUA.

Os EUA já dispõem de presença militar permanente e estrategicamente decisiva através da base hoje designada Pituffik Space Base. Essa base assegura funções de alerta precoce de mísseis balísticos, vigilância espacial e apoio a operações no Ártico, com pista capaz de receber grandes aeronaves de transporte. Isto significa que o essencial do controlo estratégico, da vigilância territorial e de parte da capacidade de projeção de força no Ártico já existe operacionalmente, mesmo sem qualquer cenário de ocupação formal do território.

Por seu lado, a presença militar da Dinamarca na Gronelândia é centrada em funções de soberania, fiscalização e busca‑e‑salvamento e não em combate convencional. Inclui navios de patrulha aptos para operações em gelo, a patrulha especial Sirius, destacamentos reduzidos e infraestruturas de apoio limitadas. Não há forças terrestres mecanizadas estacionadas no território, nem aviação de combate baseada permanentemente na Gronelândia, nem sistemas de defesa aérea de médio ou longo alcance. Em termos globais e num contexto europeu, as forças armadas dinamarquesas são relativamente pequenas e orientadas para defesa territorial europeia e contribuições multinacionais (como o Afeganistão onde sofreram baixas ao lado das forças dos EUA), o que significa que, na prática, não têm meios para travar, sozinhas, uma operação convencional de grande potência sobretudo num cenário tão distante como a Gronelândia. Isto significa que em caso de ataque não terão capacidade para projectar forças defensivas que possam alterar o desfecho final da operação dos EUA.

Assim, qualquer cenário em que os EUA decidam assumir controlo militar total e explícito da Gronelândia para além da presença consentida existente teria, portanto, um desequilíbrio de forças esmagador. É razoável admitir que um contingente terrestre de alguns milhares de militares (talvez menos de 5 mil), apoiado por meios aéreos e navais adequados (menos de 20 F-35/F-22 e 3/4 destroyers), bastaria para ocupar e controlar os principais portos, aeroportos e centros urbanos costeiros, bem como as principais infraestruturas de comunicações e energia, numa operação concebida como ocupação administrativa‑militar e não como guerra de alta intensidade. A dificuldade central não estaria no combate contra forças dinamarquesas de 200 militares, 4 navios de patrulha ártica (classe Knud Rasmussen / Thetis) e unidades da patrulha de soberania Sirius Dog Sled Patrol) mas sim na logística em ambiente ártico, na manutenção de linhas de abastecimento e na gestão de uma população civil pequena e dispersa e potencialmente hostil.

No plano aéreo, os EUA teriam capacidade para assegurar rapidamente superioridade total, utilizando uma combinação de caças, aviões de transporte, meios de vigilância e helicópteros, desdobrados a partir de bases já existentes e de infraestruturas aeroportuárias gronelandesas ampliadas ou adaptadas. Não existe, realisticamente, qualquer cenário em que a Dinamarca colocasse aviões de combate a disputar o espaço aéreo groenlandês contra a força aérea norte‑americana, tanto por razões de capacidade como por razões políticas. No domínio naval, a superioridade norteamericana também seria clara.

Qualquer tentativa de quantificar com exatidão o número de militares, aeronaves ou navios necessários é, contudo, um exercício de cenarização e não um dado factual: depende de pressupostos operacionais sobre duração da presença, grau de resistência local, regras de empenhamento, condições meteorológicas e objetivos políticos da operação. Servem para ilustrar a assimetria de poder, não como plano de operações real ou estatística verificável. Do mesmo modo, estimativas de prazos como as 24 a 72 horas que estimo serem necessárias para controlo territorial têm de ser entendidas como aproximações ilustrativas: mostram que a resistência militar convencional seria mínima, mas não podem ser tratadas como cronogramas de referência.

Onde o cenário deixa de ser militar e se torna verdadeiramente problemático é no plano político, jurídico e estratégico. Uma ação militar unilateral dos Estados Unidos para ocupar a Gronelândia, contra a vontade da Dinamarca e das autoridades gronelandesas, colidiria frontalmente com a Carta das Nações Unidas, com os princípios de integridade territorial e de não‑uso da força e com os fundamentos políticos da NATO, da qual a Dinamarca é membro fundador. Romperia a confiança entre aliados, criaria um precedente de agressão intra‑aliança e abriria uma crise profunda na relação transatlântica, com consequências imprevisíveis na coesão euro‑atlântica.

Além disso, tal ação daria argumentos poderosos a adversários estratégicos de Washington, reforçando narrativas de “imperialismo” e “hipocrisia” e enfraquecendo a capacidade dos EUA para liderar coligações e defender uma ordem internacional baseada em regras. Geraria uma reação política e económica forte da União Europeia e alimentaria movimentos antiamericanos e anti‑NATO em vários países europeus. Em termos de custo‑benefício estratégico, qualquer ganho marginal adicional de controlo formal sobre a Gronelândia ficaria largamente eclipsado pelos danos duradouros à credibilidade, às alianças e à posição internacional dos EUA.

Se Trump e os MAGA fossem racionais e tendo em conta que, do ponto de vista militar, os EUA já detêm na Gronelândia, através de Pituffik/Thule e de acordos bilaterais com a Dinamarca, o essencial do que lhes interessa (presença estratégica, alerta precoce, vigilância e capacidade de projeção limitada no Ártico) um cenário de invasão seria impensável num líder normal. Mas Trump não é um líder normal: está disposto a pagar o preço político e diplomático de uma agressão armada contra um aliado e não o considera proibitivo nem incompatível com a manutenção do papel dos EUA como líder de um sistema de alianças democráticas.

Desenvolvendo o cenário de forma realista e sem retórica excessiva, importa dizer que se os EUA decidissem avançar para um controlo explícito da Gronelândia, a única forma de o travar não seria através de declarações diplomáticas, resoluções ou comunicados da NATO ou da UE, mas através de uma presença militar europeia concreta, visível e coordenada no terreno. Não por capacidade de vencer militarmente os EUA, o que é irrealista, mas para elevar o custo político, jurídico e estratégico de qualquer passo desse tipo a um nível que Washington não pudesse ignorar.

Neste contexto, a França é o único país europeu que, de forma credível, poderia reagir rapidamente com meios militares relevantes. Não apenas porque mantém forças armadas com capacidade expedicionária real, mas porque é uma potência nuclear, tem autonomia estratégica e experiência operacional em ambientes extremos. Além disso, a França mantém ainda território soberano no Atlântico Norte, através do arquipélago de Saint-Pierre-et-Miquelon, situado ao largo do Canadá, o que lhe dá uma base jurídica e logística próxima da Gronelândia, algo que nenhum outro país europeu possui.

Em termos práticos, a França poderia enviar para a Gronelândia forças terrestres ligeiras especializadas em ambientes frios, nomeadamente unidades de infantaria alpina e forças de montanha, apoiadas por engenharia militar e logística ártica. Não se trataria de grandes números. Uma força francesa de 1.000 a 1.500 militares seria suficiente para marcar presença política e operacional em pontos-chave, como aeroportos, portos e centros administrativos, funcionando como força de interposição e sinal claro de compromisso europeu. Estas unidades não iriam combater os EUA, mas tornariam qualquer ação unilateral americana imediatamente num confronto entre aliados, algo que Washington sempre evitou.

No domínio aéreo, a França poderia destacar meios de transporte estratégico, aviões de vigilância e um destacamento limitado de caças para policiamento aéreo, não para superioridade aérea, mas para afirmar presença soberana europeia no espaço aéreo da Gronelândia. A simples presença de aeronaves francesas, operando sob bandeira nacional ou europeia, teria um peso político muito superior ao seu valor militar estrito.

No plano naval, Paris dispõe de fragatas oceânicas, navios de apoio logístico e experiência de operação em mares difíceis. Um pequeno grupo naval francês no Atlântico Norte, operando em coordenação com Canadá e países nórdicos, seria suficiente para assegurar presença contínua e reforçar a mensagem de que a Gronelândia não é um vazio estratégico disponível para ocupação silenciosa. Aqui, novamente, o objetivo não seria bloquear os EUA, mas tornar qualquer passo americano num ato explícito de força contra parceiros europeus.

Outros países europeus poderiam complementar este esforço. A Alemanha poderia contribuir com logística, transporte aéreo e apoio médico, os Países Baixos com meios navais, a Itália com aviação de transporte e vigilância, e os países nórdicos com conhecimento do terreno e apoio regional. Mas é crucial ser honesto: sem França, nada disto seria credível. E sem coordenação política ao mais alto nível, seria apenas teatro dispendioso e inútil.

Quando os EUA passam a afirmar abertamente que a União Europeia é um ator secundário,  a questão da confiança estrutural torna-se inevitável. Alemanha, Países Baixos e Itália mantêm cerca de 300 mil milhões de euros em ouro armazenados nos cofres da Reserva Federal americana,um símbolo claro de dependência estratégica herdada do pós-guerra. Esse arranjo só funcionou enquanto existia uma percepção de interesses alinhados e limites implícitos. Se esses limites começam a desaparecer, então a Europa tem de demonstrar capacidade de acção autónoma, não em palavras, mas em actos e preparar a deslocação desses activos financeiros.

Se a Europa não mostrar força unida, visível e antecipatória, os EUA não precisarão de usar a força. Bastará explorar o vazio. E se há uma lição constante na história, é que territórios que não são defendidos politicamente acabam sempre por ser ocupados de facto, mesmo sem um único tiro disparado.