Esta semana, Carlos Moedas voltou a pedir o fim do Volta. O lixo espalhado nas ruas e o drama social associado à procura de garrafas e latas nos contentores justificaram a sua tomada de posição. É uma posição atendível. Um presidente de câmara tem de responder por uma cidade onde se possa viver, e os lisboetas têm todo o direito de exigir ruas limpas. E quem trabalha na higiene urbana também merece mais consideração do que a recomendação implícita de continuar a limpar os estragos.
Continuo, porém, a achar que acabar com este sistema seria uma resposta insuficiente. Mais: seria uma resposta ao lado. Quando aqui escrevi sobre o Volta, chamou-me a atenção o pouco que bastava para levar alguém a revolver um contentor: dez cêntimos por embalagem. Entretanto, a discussão sobre o assunto foi crescendo. Ainda bem. Ainda assim, convinha que não nos esquecêssemos o que a motivou.
Se o Volta desaparecesse amanhã, algumas ruas poderiam ficar mais limpas. Contudo, as pessoas que procuram embalagens continuariam pobres. Algumas perderiam uma fonte de rendimento, sem que lhes fosse oferecida qualquer alternativa. A miséria tornar-se-ia menos visível e, por isso, mais fácil de esquecer. Seria bastante cómodo podermos dar o assunto por resolvido e partir para o novo tópico na ordem do dia.
O Volta encontrou em Lisboa, e na sociedade portuguesa, uma vulnerabilidade que nenhum sistema de reciclagem poderia ter inventado em cinco meses. Essa vulnerabilidade tem o nome da pobreza, e a urgência de corrigir os seus efeitos deve obrigar-nos a olhar para ela com ainda maior atenção da que damos ao lixo espalhado na rua. De outro modo, estaríamos a ignorar o iceberg do qual os contentores revolvidos são apenas a extremidade.
O Governo, pela voz da Ministra Maria da Graça Carvalho já disse que o Volta é para continuar. Há razões ambientais e financeiras para procurar que funcione: quanto mais plástico conseguirmos reciclar, menos teremos de pagar a Bruxelas pelo que fica por reciclar. Se acabar com o Volta significasse um recuo na recolha, esse recuo teria também um custo. Mas defender o sistema obriga o Governo a corrigir os seus problemas. As dificuldades apontadas pela restauração e pela hotelaria, as avarias e a insuficiência dos pontos de recolha exigem respostas. A Câmara e as Juntas de Freguesia não podem ficar entregues às consequências de uma decisão nacional, enquanto o debate se resume a anunciar quantas embalagens foram devolvidas.
Mas poderíamos, talvez, aproveitar esta correcção para dar outra utilidade ao Volta. Por que não envolver as instituições sociais, em colaboração com o comércio e a restauração, para que as primeiras procedam à recolha diária, fazendo com que o valor das embalagens vá directamente para financiar as suas causas? Por que não, como já se faz noutras latitudes, orientar os pontos de entregas e circuitos para apoiar diretamente as franjas sociais, como as pessoas em situação de sem-abrigo, dando-lhes um horizonte de esperança diferente do actual? Lisboa, através da coligação que governa a cidade, com o cariz social do CDS-PP, pode e deve promover esse encontro, apoiando quem já conhece estas pessoas e trabalha com elas. Há aqui uma possibilidade que merece ser considerada.
As dificuldades apontadas pela Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal apontam para que se comece, precisamente, por aí; por um sistema integrado de recolha, em articulação estreita com a restauração e o comércio, que faça funcionar a recolha e a entrega em quiosques já previstos para o sector.
Naturalmente, não seria a bala de prata que acabaria com a pobreza. No entanto, podia ajudar. E obrigava-nos a discutir o que fazer por quem anda a procurar dez cêntimos no lixo, para além de impedir que o lixo fique espalhado. A habitação, o tratamento das dependências e a possibilidade de viver do trabalho continuam a exigir respostas, com ou sem Volta.
Carlos Moedas tem razão em exigir que se faça alguma coisa. Crédito lhe seja dado, a sua insistência ajudou a trazer o problema para o centro da discussão. Seria bom aproveitar essa atenção para mobilizar o Governo, o município e as instituições sociais. Acabar com o Volta seria relativamente fácil. Acabar com a pobreza que ele revelou dá muito mais trabalho. E se se desse a volta ao Volta?