Há profissões onde o erro é inaceitável. Um médico não pode falhar um diagnóstico vital; um enfermeiro não pode errar na preparação e administração da medicação; um juiz não pode confundir justiça com conveniência. Nessas funções, a responsabilidade é medida em vidas salvas, liberdade e confiança.
Mas na política, o erro muito raramente tem rosto. Os mesmos que prometem transformação, acabam por governar através de gestos de manutenção. Os políticos locais, sobretudo sob a tutela de partidos de poder prolongado como o PS em tantas autarquias, aprenderam a sobreviver mais do que a inovar.
O resultado? Cidades doentes, sufocadas por políticas de gestão rotineira, onde o “não errar” se traduz em “não fazer”.
Odivelas: o espelho da complacência
Odivelas poderia ser hoje um caso de estudo, sobre o que acontece quando o poder se torna hábito.
Anos infindáveis de políticas socialistas, produziram uma cidade onde as pequenas vitórias mediáticas substituíram as grandes reformas estruturais.
O trânsito é caótico, o lixo acumula-se nos bairros periféricos, a pouca habitação social que existe, está degradada, o tecido cultural é frágil e o acesso à saúde pública é insuficiente.
Segundo o urbanista Henri Lefebvre, “o direito à cidade é o direito à vida urbana digna” — e em Odivelas, esse direito parece adiado.
As políticas locais focam-se no imediato, nas rotundas coloridas e nos parques de imagem, mas ignoram a raiz dos problemas: a mobilidade deficiente, a ausência de planeamento sustentável e o abandono dos espaços de convivência.
Richard Florida, especialista em desenvolvimento urbano, lembra que “as cidades que negligenciam a criatividade e a cultura morrem lentamente”.
Odivelas tem juventude e potencial, mas falta-lhe estratégia e investimento em educação, desporto e cultura de base — os pilares da coesão social.
Europa: quando o socialismo local se esquece do cidadão
Os problemas de Odivelas não são isolados. Várias cidades europeias com longa tradição socialista enfrentam dilemas semelhantes.
Marselha (França): décadas de governação socialista deixaram um legado de bairros degradados, corrupção urbanística e défice de habitação acessível. Só recentemente, com intervenções externas, a cidade começou a recuperar a sua identidade cultural.
Nápoles (Itália): uma das mais antigas cidades sob políticas públicas de esquerda, viu o crescimento desordenado e o lixo urbano tornar-se símbolo de má gestão.
Atenas (Grécia): o clientelismo e a falta de planeamento sob sucessivos governos socialistas provocaram o colapso de infraestruturas e uma das crises urbanas mais profundas da Europa.
Lisboa e Odivelas (Portugal): durante anos sob liderança socialista, viveram problemas idênticos — falta de habitação social estruturada, zonas verdes negligenciadas e políticas de saúde pública meramente reativas.
O geógrafo David Harvey, um dos mais respeitados críticos do urbanismo neoliberal e burocrático, afirmou que “as cidades refletem as prioridades de quem as governa — e a desigualdade é a assinatura da má gestão.”
E, de facto, o denominador comum em todas estas cidades são a inércia disfarçada de estabilidade.
As dimensões do fracasso
- Saúde Pública:
O acesso aos cuidados de saúde primários é precário. Unidades de saúde sobrelotadas, falta de médicos de família e ausência de programas locais de prevenção.
Em Odivelas, a resposta em saúde mental e envelhecimento ativo é quase inexistente. - Lixo e ambiente: O excesso de resíduos em zonas residenciais, aliado à falta de campanhas de sensibilização e reciclagem eficazes, cria problemas sanitários e degrada a imagem urbana.
- Trânsito e mobilidade: Planeamento rodoviário deficiente, ausência de alternativas de transporte sustentável e falta de estacionamento planeado. Odivelas é hoje uma cidade sem condições para o trânsito automóvel, mas que também não facilita a vida do cidadão, no que diz respeito a alternativas.
- Habitação social: Projetos habitacionais envelhecidos, falta de políticas de reabilitação e uma clara ausência de visão sobre a inclusão urbana.
- Cultura e educação: Os centros culturais são escassos e a educação artística é quase inexistente. A ausência de investimento cultural empobrece a identidade coletiva — um erro fatal, como defende Amartya Sen, ao dizer que “a cultura é uma dimensão essencial do desenvolvimento humano”.
- Desporto e bem-estar: A promoção da atividade física é mínima, as infraestruturas são limitadas e mal distribuídas. Num concelho com uma das populações mais jovens da Área Metropolitana de Lisboa, esta falta é incompreensível e prejudicial à saúde pública.
A ilusão da estabilidade
O maior risco das políticas socialistas locais é a normalização do insucesso. Zygmunt Bauman escreveu que “a estabilidade, quando mal compreendida, transforma-se em estagnação”. E em Odivelas — tal como em tantos municípios socialistas europeus — a estabilidade política transformou-se num travão do progresso.
Enquanto um médico revê o erro, o político repete-o; enquanto um juiz corrige a sentença, o autarca prolonga o mandato. A política tornou-se a única profissão onde errar é permitido e até recompensado.
Governar é cuidar
Governar uma cidade é, como curar um doente, um ato de cuidado.
Exige diagnóstico, intervenção e acompanhamento. Exige competência técnica, ética e coragem.
Odivelas precisa de uma política clínica: preventiva, humanizada e baseada em evidência.
Manuel Castells, sociólogo e especialista em cidades digitais, afirmou que “as urbes só prosperam quando a política serve as pessoas, e não os partidos.”
Talvez esteja aí a cura: devolver à política o sentido de missão e de responsabilidade.
Porque, no fim, governar é cuidar de vidas — e em nenhuma profissão que cuida de pessoas o erro deve ser tolerado.