Existirá uma cidadela interior capaz de nos proteger da vulnerabilidade? Não falta quem diga que sim… Quem sabe, contudo, a resposta não seja assim tão cristalina, porque não nos basta proteger do desejo, mas também das feridas – algo que, para um ser finito, talvez não seja possível. As vidas dos corpos finitos são precárias, os objectos que nos acompanham, as relações que mantemos connosco e também com os outros são relações frágeis que se podem quebrar.

Um corpo é vulnerável (de vulnus, ferida) se puder ferir e ser ferido, razão por que não pode existir – não pode inventar-se – fora da compaixão e do consolo, da contingência, da vergonha e do perdão. É, no entanto, importante perceber que, precisamente porque a vulnerabilidade é estrutural, não é concebível – nem desejável – superá-la. Somos, desde o primeiro momento, corpos expostos às feridas causadas pelo mundo, pela vida e pelos outros, e, evidentemente, também às feridas que infligimos ao mundo, à vida e aos outros. Uma ferida não é, portanto, necessariamente sinónimo de dor ou sofrimento, mas de envolvimento, de pathos. O facto de a condição humana ser vulnerável implica que se aceite a existência como estando envolvida por qualquer coisa que não se pode dominar. Algo que nos surpreende, nos invade, nos salta ao caminho e a que nunca somos capazes de dar uma resposta – uma resposta a priori, definitiva e segura, pelo menos.

Para Kobayashi Issa (1763-1828), um dos grandes mestres japoneses do haiku, à fugacidade era por isso necessário acrescentar um ponto no universo para onde as sílabas e as imagens convergissem para que se pudesse aceder, como ele desejava, àquele translúcido e doce consolo que é a beleza. Um ponto breve, é certo, mas denso.

Issa acreditava que este mundo nos pede que desfrutemos dos seus detalhes, desde que, nesse preciso momento, estejamos dispostos a abandonar a nossa alegria ou a nossa dor à beira dos caminhos. Mas Issa era mais do que um poeta: ouvia o som das ondas ao longe e, sem ver o mar, conseguia distinguir mais de duas dezenas de aves em voo e sabia de cor as épocas de floração. Era amigo de mendigos e peregrinos, adorava ouvir histórias nas estalagens e ler, no fumo dos incensos, a direcção das brisas. Colecionava trivialidades com as quais mais tarde tecia os seus poemas; era um caçador de ângulos, um buscador de partículas de luz nas sombras das florestas de cedros. Apesar de ter aquela atenção preciosa, de possuir olhos claros e sinceros, não conseguia ultrapassar o selo de tristeza que via nas coisas.

Issa costumava dizer que não há um único mestre para muitas coisas, mas uma infinidade de ensinamentos para atenuar uma verdade inevitável: a perda. Tudo denuncia impermanência: a água que escorre, o dia que se esvai, a mão amada que se despede, a chávena de porcelana que se quebra, o terramoto que ruge debaixo dos nossos pés, os feridos por uma guerra que não compreendem e as crianças que, como ele, ficam órfãs e se transformam no papel amarrotado que a madrasta amachuca e deita fora. Perante todas estas perdas, o que é a poesia senão um monólogo reparador, uma pequena barragem de suspiros pontuada por palavras que, como cicatrizes na pele, mal iluminam a ferida?

Certa tarde, enquanto caminhava pelo campo, viu uma grande borboleta-de-asas-negras a ser perseguida, sem sucesso, por um pardal faminto. A fugitiva alada parecia tão tonta de medo que esbarrou num ramo antes de desaparecer nas sombras de um jardim. Issa aproximou-se do galho e apercebeu-se de um rasto do pó das suas asas. Suspirou emocionado e compôs este poema: Borboleta agitada, / também eu sou feito / de pó que se esvai.

A ele, contudo, não o perseguia um pardal, mas a antiga dor de uma infância indefesa, a incompreensão dos familiares próximos e a indiferença que lhe devotaram as pessoas que cruzaram o seu caminho. Casou tarde, com uma mulher com metade da sua idade, teve cinco filhos e o infortúnio de os ver morrer a todos. Sobre estas perdas escreveu que não é melhor o destino do orvalho sobre as pétalas da rosa: algo tão grato como um raio de sol acaba por conduzi-lo para o invisível.

Não há estabilidade na vida humana. Qualquer estabilidade será sempre provisória, momentânea. As ondas são a imagem que expressa o devir, aquele tornar-se necessariamente vulnerável, porque inquieto e também inquietante. O rio de que falava o velhinho Heraclito reflecte-se nas ondas de Virginia Woolf. A materialidade dos corpos é a do fluxo. Os corpos vulneráveis não são espessos (como a res extensa de Descartes), mas fluidos: suor, saliva, sangue, esperma, lágrimas… Um corpo vulnerável é um corpo sujeito a fluxos e, portanto, a transformações. É um corpo que não pode ser capturado, que não pode ser aprisionado em nenhum conceito, em nenhuma essência.

Um corpo vulnerável não pode, mesmo que o desejasse, exorcizar o acaso, porque a qualquer momento acontece o inesperado, o completamente inimaginável, o radicalmente incomum; algo que derrota todos os projectos e obriga a reconstruir a existência; algo que irrompe de repente e provoca agitação. Um corpo vulnerável é configurado mais pelo que lhe acontece do que pelo que faz, é um corpo apaixonado. Temos a tendência de pensar que somos aquilo que fazemos, aquilo que decidimos fazer, quando, na realidade, somos aquilo que nos acontece. Somos vulneráveis porque somos ambíguos e contraditórios.

Kobayashi Issa compôs cerca de mil versos sobre animais e insectos porque pensava que era preferível ser do que não ser, voar por um instante do que não chegar a voar nunca. Mudam as formas dos rios, das águas, da cor do céu, dos elementos, da Lua, das estações do ano, dos povos, das civilizações e dos costumes. Mas, antiga e terrível, permanece a persistente e teimosa interrogação da vida.

Perto do fim da sua vida, uma gueixa, reconhecendo-o, sorriu-lhe. Mesmo na gentileza daquele gesto, estava presente a ideia de que eram ambos, ela e ele, aquele pó que, depois de esvoaçar, desaparece.