Que mania a nossa de reclamar do que está mal, de nos irritarmos com o que não funciona, de chamarmos vigaristas a quem nos tem aldrabado e calaceiros a quem não mexe uma palha… Afinal, a vida é mesmo assim! A injustiça existe e temos que aprender a viver com ela. Não sabemos já como isso se faz? Por que raio é que nós — pelo menos uma parte de nós — ainda achamos que temos alguma responsabilidade para com o tosco mundo que se nos é apresentado todos os dias? De onde nos veio a ilusão de que podemos mudar o curso que as coisas levam? Consta que alguns (decerto mais afetados) têm até dedicado a vida a tentar provar que isso é possível… Mas, no fundo, sejamos sinceros: o que fizeram eles para que a nossa vida fosse diferente? Mais direitos? Mais liberdade? Mais dignidade? Seja… Ao fim e ao cabo, não é sempre tudo a mesma coisa? É que, bem entendido, andamos mas é todos atrás do mesmo… E — que diabo! — ninguém fica cá para semente. Não seríamos muito mais felizes se aprendêssemos a viver com o que temos? É por isso que digo: mais vale é procurarmos uma sombrinha, esticarmo-nos nela e não fazermos nada!
Sei — por teoria e por experiência — que há sempre um aluno que persiste no erro apenas por estar viciado em ser corrigido, em ser admoestado. Pode parecer-nos estranho, à primeira vista, mas a fórmula mais eficaz que alguns alunos, por vezes, encontram para se sentirem notados é a adoção de um comportamento desadequado pois sabem que, com isso, ser-lhes-á dita qualquer coisa; acontecer-lhes-á algo. Aquela determinada atitude, ainda que venha, mais tarde, a ser repudiada, irá surtir um efeito positivo (mesmo que apenas na sua ótica) e, por isso mesmo, alguns têm a ousadia de a tomar, na demanda de uma narrativa na qual, ainda que vilões, serão certamente personagens principais.
Não interessa aqui explorar as causas de tais comportamentos e a forma como estes foram sendo mais ou menos sistematizados, mas apenas constatar que, tendencialmente, estes são também os alunos que têm lidado mais de perto com frustrações de várias ordens. Curiosamente, nestes casos, quando o delito é aceite, acolhido, encorajado, quando o professor se coloca ao lado do aluno pronto a prevaricar com ele, o motivo da provocação tende a dissipar-se e, com ele, a vontade inicialmente irreprimível de chamar a atenção. Chamam-lhe psicologia inversa.
Nem todos os professores têm, no entanto, a ousadia de atuar desta forma, havendo mesmo aqueles que nem sequer perceberam que há aqui um vício que eles próprios alimentam. É certo que ninguém pode garantir, apenas por meio dessa ação, a reação desejada. Lidamos com alunos, o que significa que não estamos a trabalhar com fatores simples e variáveis controladas. Ainda assim, tenho sentido que, por vezes, vale a pena tentar.
Foi precisamente com esta premissa em mente que encetei esta reflexão apelando ao conformismo. A nossa indignação é crónica, e todos os dias os espíritos mais revoltosos lá encontram motivos para recobrar as energias de que necessitam. Contudo, acabamos muitas vezes por cair numa apatia, num estado vegetativo para o qual não temos lobrigado um antídoto. Todos os dias, alguém se manifesta e, com isso, procura a aquiescência dos seus semelhantes; a adesão dos que não se manifestando também se indignam; a atenção dos que não sendo pró-ativos, também são sensíveis. Todos os dias nos é dito (subliminar ou categoricamente) que temos que agir, acabando nós, na generalidade, por sermos tão solidários quanto inofensivos.
Mas será que, ao “Zé” — que é fraco demais, que é estúpido demais e que, por isso, melhor seria não se imaginar capaz de mudar o que quer que seja — conseguiremos fazê-lo pousar o copo e sair à rua? Será que a chave para a verdadeira mudança está na defesa da ideia de que de nada ela nos servirá e, com isso, acicatar as almas dos que, ouvindo essas profecias, possam ainda encontrar em si vontade de rechaçar o sistema só para contrariar o presságio? Se assim fosse, seria para mim uma honra poder ser o cavaleiro da letargia, o arauto do marasmo, o alto-comissário do torpor… Mas receio bem que o problema seja um pouco mais complicado.
O meu gato, criatura rebelde que deambula entre o quarto e a cozinha à procura de companhia – sem nunca ter, no entanto, encontrado um semelhante – adora subir para o piano. Detesto que ele o faça. É capaz de ser a única coisa que não tolero mesmo e levanto-me, de todas as vezes que ele o faz, para erguer a mão e ralhar com ele. Então ele desce. É um hábito, uma espécie de ritual que temos na nossa interação. Mas é também mais do que isso: é a fórmula que ele – o ser irracional da casa – desenvolveu para fazer com que toda a minha atenção seja canalizada para si, e há muito que testou ser praticamente infalível. Mais curioso ainda do que isso é o facto de que o meu piano nunca foi, sequer, um dos sítios de eleição para as suas sestas, nem um local onde goste de ficar muito tempo. Não é, de todo, um sítio para onde ele vai às escondidas. O meu piano é a alavanca que ele inventou para me fazer ralhar com ele. Não interessa se vai levar com o chinelo, se vai ficar de castigo sem ter festas, se lhe vai ser vedado o acesso à sala… Eu não ignoro, e ele sabe-o.
Temos passado muitos anos a reclamar de muitas coisas e a ouvir reclamar de mais ainda. Alguns de nós, desde que nascemos, habituamo-nos ao ritual na reclamação. Somos reclamadores por natureza e temos tido os melhores exemplos por perto. Reclamar, para nós, é vital e nem sempre tem um objetivo muito específico (para além daqueles que, de uma forma geral, se encerram em qualquer reclamação). Por isso, temos inventado diversificadas formas de reclamar, espaços específicos para o fazer e até especialistas que sabem, melhor do que ninguém, como tratar das nossas reclamações. A reclamação tem sido tão bem acolhida pela nossa sociedade, a ponto de lhe ser concedido um lugar distinto. Temos livros para reclamar, temos guichés para reclamar, temos linhas telefónicas para reclamar e, quando não nos apetece, ou não temos tempo (coisa contra a qual estamos fartinhos de reclamar), arranjamos alguém a quem pagamos — seja com dinheiro ou votos — para reclamar por nós. Somos reclamadores-natos, e vivemos numa nova era, a era do homo querens (o homem que reclama).
Do outro lado, está um bicho insubordinado que nos assalta a nossa serenidade há anos e anos. Não podemos estar satisfeitos, não sabemos o que seria sequer viver em clima de amena satisfação. Somos acossados por um felino que todos os dias salta para o nosso piano e que não nos dá descanso. Não interessa se vamos usar caneta, telemóvel ou cartazes. O bicho não se importa com esses detalhes. Amanhã, para a semana, mal possa, vai tornar a saltar, mesmo à nossa frente, para nos dar a oportunidade de reclamarmos. E enquanto reclamarmos, o bicho estará a salvo. E o mais importante é isso mesmo: que esteja a salvo para que possa saltar para o piano outra e outra vez.
Claro que tudo isto poderia ser diferente. Acontece que, nas primeiras vezes em que o meu gato subiu ao piano, ainda era um gatinho: apenas um gatinho traquinas e fofo como os daqueles shorts das redes sociais que não conseguimos evitar. Mesmo sem que lhe tivesse permitido ficar em cima do piano, ao início, limitava-me a ir logo buscá-lo, com toda a candura, apenas para que não viesse a arranhar o verniz. Um gatinho tão querido é capaz de desencorajar qualquer um a oferecer uma chinelada corretiva. Agora, já não é um gatinho. É um gato velho e chato, que tem o poder de me fazer perder a paciência, mais do que uma vez por dia. Não adianta ralhar com ele, não adianta bater-lhe: este gato não tem remédio. Habituou-se a puxar a alavanca da minha atenção e eu habituei-me a reclamar com ele.
Obviamente, todos conhecemos bem o bicho de que falo e, de alguma maneira, todos nos reconhecemos a nós como o seu dono. Somos manipulados por um bicho irracional que aprendeu a lidar connosco através de um algoritmo invariável, que se apropriou da lei causa-efeito a seu favor e que, enquanto a lei funcionar, saberá estar a salvo. E estará sempre a salvo porque sabe que nós gostamos dele; porque lhe fazemos festas; porque lhe damos de comer; porque lhe limpamos o caixote. E fazemo-lo todos os dias. Este bicho é, no fundo, um bicho perverso. Disso, ninguém o iliba. Mas seremos sempre nós o ser pensante.
Por isso, talvez sejamos nós os únicos a poder quebrar o feitiço desta relação viciada que temos protegido ao longo dos anos. Alguns dirão que é preciso fechar a porta e esquecer que aquela sala existe. Outros, mais radicais, dirão talvez que é preciso matar o gato. Quanto a mim, que não acho que grandes males se finem unicamente com grandes remédios, penso que o importante é sentarmo-nos ao piano e correr o teclado, de ponta a ponta. E se as nossas mãos não chegarem, havemos certamente de encontrar outras que nos queiram acompanhar. O piano é nosso, e enquanto formos nós a tocá-lo, não haverá espaço para onde o bicho saltar.