Hoje, os portugueses estão divididos entre os que querem celebrar a sua existência num solilóquio sobre a liberdade na Assembleia da República e os cidadãos que, temporariamente, estão impedidos de visitar um familiar gravemente doente num hospital ou mesmo de o acompanhar num derradeiro adeus num funeral. Entre os que todos os dias, corajosamente, saem de casa para trabalhar na linha da frente de combate a esta pandemia, que nos possibilitam a saúde, segurança e o acesso a bens essenciais e os que insistem em manifestar-se nas ruas no 1.º de maio como se os ajuntamentos fossem recomendados pela saúde pública nacional e internacional, contrariando até as regras básicas de bom senso.

No entanto, não é sobre isso que vos escrevo. Este artigo é sobre os nossos idosos, quantos são, como vivem e de que modo estão a ser atingidos pelo vírus SARS-CoV-2, e pela doença COVID-19. Enquanto enfermeiro especialista em reabilitação, dirigente sindical e, principalmente, como neto e cidadão, tenho acompanhado com especial atenção a população mais velha e o modo como estão a vivenciar esta fase.

O aumento da longevidade e da população idosa e a redução da natalidade e da população jovem, não são novidade em Portugal, acompanhando a tendência do resto da União Europeia. Segundo dados da Pordata, em 2018, as pessoas com 65 ou mais anos representavam 21,6% de toda a população residente em Portugal, ou seja, 2 228 750 do total de 10 283 822 residentes. A esperança de vida atingiu os 77,8 anos para homens e 83,4 anos para as mulheres, em dados referentes a 2017. O índice de envelhecimento em Portugal passou de 21,3% em 1961 para 128,6% em 2018, o que naturalmente exerce um forte impacto na sociedade como um todo e exige adaptações e respostas em diversos níveis, nomeadamente por parte dos seus sistemas de suporte, como é o caso dos sistemas de saúde, segurança social, educação, justiça e transportes. É ainda de referir que o índice de dependência total na população acima dos 65 anos passou de 60,2% em 1961, para 51,6%, o que significa que em 2018, mais de 1 milhão de idosos eram independentes ou tinham uma dependência parcial na realização das suas actividades de vida diária. Muito embora o aumento da longevidade da população portuguesa seja notável, a qualidade dos anos de vida ganhos apresenta ainda um imenso potencial para melhorar. Considerando o conceito de Envelhecimento Ativo proposto em 2002 pela Organização Mundial da Saúde esta melhoria dependerá muito do empenho de cada um, enquanto agente da sua própria saúde ao longo da vida, da sua participação e segurança, e da sociedade como um todo, de forma a que sejam garantidas as oportunidades para tal, à medida que as pessoas envelhecem.

Em matéria do envelhecimento ativo e saudável, Portugal está comprometido formalmente com a Estratégia e Plano de Ação Global para o Envelhecimento Saudável da OMS e com os valores e objetivos fundamentais da União Europeia (UE), previstos nas propostas de acção da UE para a promoção do Envelhecimento Ativo e Saudável e da Solidariedade entre Gerações (Decisão N.º 940/2011/U, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 14 de setembro). O envelhecimento activo e saudável não é mais do que o aumento das garantias das oportunidades para a saúde, participação e segurança, para a melhoria da qualidade de vida, sendo a capacidade funcional o resultado da interação das capacidades intrínsecas da pessoa idosa (físicas e mentais) com o meio envolvente.

Tendo o que referi anteriormente, receio que a partir do dia 2 de março (1.º caso de infecção com SARS-CoV-2 em Portugal) a situação das pessoas com mais de 65 anos em Portugal tenha agravado.  Os números desta pandemia não enganam: 24,3% dos casos de infecção e 87% do total de óbitos em Portugal, ocorreram em pessoas com mais de 70 anos (Boletim n.º47 de 18/4/2020 DGS). De nada adianta referir que em 2018, segundo a Pordata, morriam 90 pessoas por dia com doenças do aparelho circulatório, ou que existiam 76 óbitos diários relacionados com tumores malignos e 36 mortes diariamente devido a doenças do aparelho respiratório. É preciso conhecer os números certos, analisar com os métodos apropriados, planear correctamente e antecipar problemas futuros.

Falhamos todos quando não planeamos a aquisição de equipamentos de protecção individual suficiente para os profissionais de saúde e para os trabalhadores do sector social. Falhamos todos quando não contratamos recursos humanos qualificados em número suficiente para tratar dos nossos idosos, seja no domicílio, no hospital ou nos lares. Falhamos todos quando não fazemos testes em número suficiente, sobretudo aos grupos de risco e aos profissionais que deles cuidam.

Não podemos aceitar que os mais velhos, aqueles que lutaram dia e noite por melhores condições de vida para os seus filhos e netos sejam aqueles que mais sofrem com esta pandemia. Aos que por diversas razões vivem e morrem nos lares, juntam-se milhares de cidadãos na terceira e quarta idade, mais ou menos activos e sem grandes problemas de saúde física e mental que se vêm obrigados a ficar confinados às suas casas há mais de um mês, sem sequer poder receber visitas de familiares ou amigos, pois fazem eles mesmo parte integrante dos grupos de risco. Aos menores rendimentos e condições físicas e mentais mais frágeis que o resto da população, junta-se o isolamento social imposto e prolongado sem limite. Não podemos deixar que as nossas referências, as nossas memórias desapareçam sem o afecto daqueles que lhes são próximos. Se esta situação de confinamento dos mais idosos continuar indefinidamente, arriscamo-nos todos a perder uma parte significativa da nossa identidade cultural, cívica, social e moral, fundada naquilo que nos une profundamente, como os laços de amor e amizade entre familiares e amigos. Decididamente, a cura matará mais que a doença, simbólica e literalmente.

Estamos no momento certo para repensar os modelos e as estratégias para concretizar o envelhecimento activo e saudável, pois depois desta crise sanitária virá uma crise económica que afectará de modo especialmente significativo os mais velhos e com menores rendimentos. Só sairemos dela se respeitarmos os portugueses ilustres e os cidadãos anónimos que nos antecederam e que fizeram Portugal como o conhecemos, ou seja, se honrarmos os nossos egrégios avós.