Vivemos numa época onde errar é um luxo e admitir o erro, um escândalo. Tudo se treina,  tudo se otimiza. O sucesso é exigido – e de preferência rápido, limpo, com filtros.

Já o erro? Esse é para apagar, esconder, suavizar com eufemismos. Mas o erro é a origem.  É a fundação. É o que nos separa – ainda – das máquinas.

Há quem ostente troféus nas prateleiras digitais, como selos de validação pessoal. Mas  ninguém fala da gaveta – aquela onde guardamos os enganos, as tentativas falhadas, as  verdadeiras frustrações do dia-a-dia, os projetos que nunca viram a luz do dia.

E, no entanto, é essa gaveta que nos revela. Que nos educa. Que nos humaniza; porque  errar, como se dizia antes de se tornar embaraçoso, é uma condição normal do  humano.

E se é verdade que o sucesso nos empurra, é o fracasso que nos estrutura!

É por isso que devemos prestar atenção à inteligência artificial – não apenas pelo que ela  faz, mas por aquilo que está, subtilmente, a apagar: a legitimidade do erro, o tempo da  dúvida, o valor do improviso.

E talvez o que está verdadeiramente em causa não seja o avanço da máquina – mas o  recuo do humano.

Eficiência sem humanidade

A promessa é tentadora, automatizar para libertar, composta por um verdadeiro trio  sedutor: Mais rápido, mais barato, mais preciso. Menos margem para errar, menos espaço  para desvios.

Mas a quem serve esta eficiência? E que tipo de humanidade sobra quando tudo é  otimizado?

A verdade é que os algoritmos não surgem do vazio. Aprendem connosco. Herdam os  nossos enviesamentos, as nossas preferências escondidas, os nossos critérios mal

resolvidos. E o que se apresenta como “neutralidade matemática” é, muitas vezes, apenas  o nosso preconceito – com maquilhagem digital.

A máquina reproduz com perfeição aquilo que somos… ou aquilo que, inconscientemente,  permitimos que ela aprenda.

A nova obsolescência: o trabalhador

Durante anos temeu-se que as máquinas roubassem empregos. Hoje, o cenário é mais  subtil, pois ao invés de recorrerem à força para substituir – Limitam-se a tornar irrelevante; Não é preciso despedir – Basta tornar dispensável. Perante esta condição, o  que será pior? O braço de ferro de um regime totalitário ou esta vontade sem rosto?

O ideal contemporâneo de trabalhador, parece ser o daquele que não adoece, não  questiona, não abranda – alguém que trabalha como uma máquina. Até ao dia em que a  própria máquina o substitua, sem drama, sem hesitação.

A lentidão é falha. A dúvida é fragilidade. A pausa é luxo. E assim, aos poucos,  o humano transforma-se num projeto de robotização mal disfarçado, à espera  da sua própria redundância.

O paradoxo moral da IA

A discussão gira muitas vezes em torno da ética da máquina: deve ou não tomar decisões  morais? Mas raramente se discute a ética dos humanos que as programam – e que  decidem quem vale a pena salvar, e quem vale apenas ser substituído.

Uma IA pode calcular vidas num acidente com rigor estatístico, com verdadeira frieza  metálica de uma máquina. Mas quem lhe ensinou o valor de uma vida? Um programador  exausto, um gestor sob pressão, ou um CEO a pensar no trimestre seguinte?

E com base em quê?

Delegar decisões morais a entidades amorais é uma escolha de conveniência – não de sabedoria. A máquina não erra por arrogância, nem acerta por  compaixão. É cálculo. Ponto Final. O grande problema é quando banalizamos  equitativamente o tratamento humano, tornamo-nos tão máquinas quanto elas  próprias!

A contradição histórica: de Abril ao algoritmo

Desde o 25 de Abril de 1974, Portugal traçou um caminho de resistência (por vezes  simbólica, outras vezes legislativa) a um modelo económico puramente capitalista. A  Constituição da República consagrou a dignidade do trabalho, o papel do Estado na  economia e uma visão de progresso que ia além do lucro imediato.

Durante décadas, o país oscilou entre a nostalgia do ideal revolucionário e a pressão de  Bruxelas para liberalizar. Privatizou-se, mas com pudor. Incentivou-se o mercado, mas  com o discurso da solidariedade. Criou-se um modelo híbrido onde o lucro não podia – pelo menos retoricamente – atropelar os direitos fundamentais.

Ora, é precisamente neste contexto que a massiva substituição da mão de obra humana  pela inteligência artificial surge como um paradoxo gritante.

Afinal, o que é a automação senão a mais recente e sofisticada forma de maximizar lucros,  cortar custos e remover a imprevisibilidade do fator humano? Que revolução é esta que  transforma pessoas em dados, e decisões sociais em cálculos probabilísticos?

Portugal, que tantas vezes resistiu ao ímpeto desumanizante do capitalismo selvagem,  parece agora deslizar para ele – não por ideologia, mas por inércia tecnológica.

A revolução digital pode ser inevitável. Mas abdicar da nossa consciência  histórica não é. E talvez seja esse o verdadeiro teste à maturidade democrática  de Abril: reconhecer que não basta termos liberdade se deixarmos que a  máquina dite quem merece tê-la.

A dignidade do erro: o que a máquina (ainda) não sabe fazer Há erros que mudam a história – e não por acidente

Fleming esqueceu-se de um prato sujo no laboratório. Descobriu a penicilina. J. K. Rowling foi rejeitada por doze editoras. Persistiu. Criou o Harry Potter.

E em ambos os casos, o erro e a recusa foram mais do que obstáculos: foram matéria prima.

A máquina não sabe falhar com elegância. Não improvisa. Não aprende por vergonha.  Não muda de rumo por intuição. Ainda não.

E é nesse “ainda” que reside uma última fronteira – a daquilo que nos torna humanos.

Talvez um dia a IA imite o nosso raciocínio. Mas duvido que alguma vez saiba  o que é hesitar antes de acertar; ou falhar antes de crescer.

Epílogo desconfortável

E agora, caro leitor, permita-me uma última provocação.

Este artigo foi escrito por um humano com tempo e ideias – ou por uma inteligência  artificial altamente treinada para pensar como ele?

Talvez tenha sido escrito por ambos. Ou por nenhum. Talvez seja só um reflexo bem  afinado das suas próprias inquietações.

Mas diga-me: sentiu falta de alma ao lê-lo? Ou apenas ficou incomodado com a ideia de  que – talvez – já não tem o exclusivo da falha… nem do génio?

Se sentiu desconforto, parabéns. Está a reagir como um ser humano. Se não sentiu nada… bem, nesse caso, talvez devêssemos conversar… ou calibrá-lo.

Caro leitor, permita-me ainda arriscar apenas mais uma observação, se algum dia a  história vier a ser escrita por máquinas, talvez comece da seguinte forma: Aqui jazem  os humanos, sonhavam com o futuro, mas cortavam nos próprios direitos  fundamentais.