Somos animais gregários, ou, pelo menos, gostamos de pensar que somos. Mas a associação a um grupo, bairro, comunidade, clube, País, raça ou religião é uma moeda de duas faces: por um lado, faz-nos maiores que a nossa pequena individualidade – e esse sentimento de pertença dá-nos uma parte importante da nossa força intrínseca – mas por outro, o privilégio que nos é concedido tem um custo que é pago através do empenho na defesa do grupo, nalguns casos exigindo a oferta da própria vida.
A nossa associação a um grupo pode ser voluntária, ser o produto de uma escolha pessoal – racional ou não – mas, na prática, resulta muitas vezes do que nos rodeia: do meio e época onde nascemos ou vivemos, da nossa família e de quem temos à nossa volta seja na escola ou no trabalho. Mais recentemente, resulta também da plataforma social em que participamos. Somos, afinal, soldados de vários exércitos em que vamos sendo incorporados e que, na maior parte das vezes, ninguém nos tenha perguntado qual era a nossa opinião, mas em cujas causas militamos de alma e coração. Ora uma das mais importantes referências gregárias é, sem dúvida, a da Pátria ou da Nação, de cujo importante património material e imaterial somos co-proprietários, riqueza que é o nosso orgulho e que julgamos ser a inveja de todos os outros. O curioso é que esta grandeza singular, este atestado de supremacia, aplica-se ao mesmo tempo aos membros de todas as Nações do nosso Planeta.
No caso de Portugal, ensinam-nos a ter orgulho nos Pais da Pátria, que conquistaram o espaço onde existimos, nos Navegadores Descobridores que deram o Mundo ao Mundo e ainda em todos aqueles que por palavras, pensamentos e obras nos permitiram sermos hoje uma comunidade independente que vai a caminho de um milénio de existência. Temos uma galeria impressionante de troféus que merece, sem dúvida, ser honrada pelo contributo dos membros da associação. Contributo dedicado e entusiasta que, por vezes, origina mais prejuízo do que benfeitorias. Como esquecer o nosso querido el-rei D. Sebastião que pediu a Portugal que acorresse a honrar o privilégio de ser Português e Cristão, tal resultando na perdição colectiva de homens, de riqueza e da própria independência?
Actualmente, estamos de novo num período onde os riscos relativos à independência nacional são evidentes, pelo que o apelo à defesa do grupo é absolutamente legítimo. Mas importa garantir que a leitura da situação não venha da emoção, que se tenha presente o que está em jogo, sabendo que os riscos dos séculos que passaram não são os que nos devem preocupar. Se cometermos erros de paralaxe, teremos em Portugal uma sequela do abismo de Alcácer-Quibir. Como honrar hoje a nossa História? Fechando as fronteiras e alimentando-nos de sonhos? Não resultará a nossa sobrevivência como Nação antes da capacidade para identificar os verdadeiros riscos, sejam eles económicos, políticos ou militares, mas também os culturais? Ora isto exige racionalidade e o recurso a informação.
Atacada pela Rússia, pela China e por Trump, a Europa – de que Portugal faz parte – vive provavelmente um dos momentos mais difíceis da sua História, com pesados desafios externos e internos. Externamente, temos a maior potência nuclear em guerra de conquista às nossas portas, mais a China empenhada na conquista do monopólio de potência industrial e, ao mesmo tempo, estamos desgraçadamente sem poder contar com a protecção da Aliança Militar dos EUA, onde adormecemos nos últimos 80 anos. Internamente, enfrentamos uma forte imigração que veio possuída por uma religião que não reconhece o direito dos outros e que tem como razão de existir, a conquista do espaço e a obediência das Almas.
Face à realidade, nada melhor do que considerar os factos. Desta vez, olhando para uma destas frentes, a China, sobre a qual a informação é, apesar de tudo, esparsa ou acrítica. Interessante, por isso, o recentemente publicado estudo do Centre for European Reform, sob o título “China e Europa, podem a UE e o RU encontrar uma estratégia partilhada?” que considera que a Europa, para sobreviver, tem de resolver a forma como se relaciona com a China, chamando a atenção para os seguintes elementos que se passam a citar:
- Sobre a economia e a tecnologia
- O comércio entre a União Europeia (UE) e a China representava em 2024 cerca 30% do total do comércio mundial, valor superior ao registado entre a China e os EUA. A Balança Comercial UE-China é, como no caso dos EUA, esmagadoramente favorável à China (519 mil milhões de euros importados pela UE contra 213 mil milhões exportados), sendo, contudo, a Balança de Serviços favorável à UE, embora em muito menor escala, (67 mil milhões de euros contra 45 mil milhões). Comercialmente, a UE é mais importante para a China do que os EUA, mas, com a UE sem unidade e liderança, a China nem sequer nos dá atenção.
- Estão identificados 1.153 produtos para os quais a UE não tem um substituto interno fácil. Para 554 destes produtos – ou seja, em 48% dos casos – a China é o fornecedor dominante.
- A UE depende fortemente da China para ingredientes farmacêuticos activos e de baixo custo, incluindo analgésicos como paracetamol, ibuprofeno e muitos antibióticos. Cerca de 45% destes produtos (em volume) foram importados da China em 2019, a que acrescem mais de 10% originários da Índia.
- A China domina a produção global de REE (Rare Earth Elements), os elementos de terras raras e compostos, vitais para componentes electrónicos, incluindo smartphones, LEDs, baterias e ímanes para as turbinas eólicas. A UE é 100% dependente das importações para estes produtos, dos quais a China forneceu, durante o período de 2016-2020, cerca de 80% dos elementos conhecidos como REE leves e 64% dos REE pesados.
- A China deixou de ser um imitador, antes passando a ser um país inovador. Em 2023, a China fez 1,68 milhões de pedidos de patentes, quase metade do total mundial de 3,55 milhões. O Instituto Europeu de Patentes registou apenas 10% do total. A China foi responsável por mais de metade das aplicações de design industrial enquanto a Europa menos de um quarto.
- O Critical Technology Tracker do Australian Strategic Policy Institute (ASPI) analisou 64 tecnologias e classificou os países (ou grupos de países, no caso da UE) pela sua participação em pesquisas de alto impacto no período 2019-2023. A China liderou em 56 tecnologias. A UE liderou em duas.
- A China poderá vir a ter uma situação de monopólio para 21 tecnologias, nomeadamente em comunicações ópticas (e.g., fibra óptica), materiais compósitos avançados, baterias eléctricas e equipamento de guerra electrónico.
- A Europa que costumava recear que a China lhe roubasse a sua propriedade intelectual, vê agora recusado o acesso à tecnologia chinesa, em especial em áreas vitais como baterias, materiais compósitos avançados, sensores, motores eléctricos, etc..
- Se aceitasse condenar a sua indústria, a Europa poderia facilmente diminuir as emissões poluentes, importando produtos chineses mais baratos.
- Sobre a influência política e económica
- Os financiamentos da Belt and Road Initiative (BRI) parecem ter terminado, mas a China empresta agora centenas de milhares de milhões para resgatar quem não pode pagar as dívidas contraídas. À BRI sucederam várias outras iniciativas: a Iniciativa de Desenvolvimento Global (GDI), a Iniciativa de Segurança Global (GSI) e a Iniciativa de Civilização Global (GCI), que dão hoje à China uma influência considerável na Ásia, África e América Latina, enquanto os países ocidentais reduzem a assistência.
- Para muitos países exportadores de matérias-primas, a China é agora o mercado mais importante e o seu grande investidor. O desmantelamento da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional permite à China o aumento da sua influência nas áreas abandonadas pelos EUA.
- Sobre a Defesa e a investigação científica
- O crescimento do poderio militar chinês é impressionante. O stock de ogivas nucleares mais do que duplicou desde 2019. A Força Aérea – que tinha por base a tecnologia russa – foi, entretanto, reinventada. A Marinha tinha 221 navios em 2005 e, mantendo-se as taxas de crescimento actuais, terá 435 em 2030, o que é bem acima dos 294 navios previstos para os EUA.
- Segundo a Henry Jackson Society, mais de 500 pós-graduados chineses estudavam em 2020 em Universidades Britânicas nas disciplinas de “alto risco”, como Ciência dos Materiais, Física (incluindo Física Nuclear), Engenharia Mecânica, Aeronáutica e Aeroespacial, Engenharia Química de Processos e de Energia, Tecnologia de Minerais e Materiais, depois de se terem formado na China nas Universidades “Seven Sons” especializadas em Defesa ou em Institutos de Investigação com laços estreitos com os serviços militares ou de segurança chineses.
- O Instituto Central Europeu de Estudos Asiáticos concluiu que, em 2025, das 1.518 relações entre Universidades Britânicas e Institutos de Investigação Chineses e outras entidades, quase um terço estava ligado ao exército chinês.
- Entre os graduados das Universidades militares Chinesas que procuravam doutoramentos em Universidades Holandesas, um deles afirmava num jornal chinês que tinha sido enviado pelos militares para estudar no estrangeiro, para que pudesse “assumir a pesada tarefa de fortalecer e modernizar o exército”.
- Quase três quartos das 483 relações entre Universidades Francesas e entidades Chinesas têm ligação com o exército chinês. A própria UE financiou pelo menos 14 projectos envolvendo Instituições Europeias em parceria com investigadores das “Seven Sons”.
- Sobre a Rússia e a Ucrânia
- De 2021 a 2024 as exportações chinesas para a Rússia aumentaram mais de 70%, preenchendo, assim, a lacuna deixada pelas sanções ocidentais.
- Cerca de 80% das componentes importadas que a Rússia usa na produção de armas vêm através da China (produzidas na China ou por ela importadas).
- A China aumentou a compra de petróleo à Rússia, que passou de 115.000 toneladas por dia para cerca de 155.000 toneladas. Na Índia o aumento foi superior, passando de 4.000 para 192.000 toneladas diárias.
- A Rússia também terá concordado em fornecer à China equipamentos e treino necessários para montar um ataque aéreo sobre Taiwan.
Com todos estes desenvolvimentos, o estado das independências nacionais já não é o que era, bastando olhar para o que se passa no Reino Unido. Ainda há cem anos Senhor do Mundo (a supremacia Portuguesa foi bem mais breve e longínqua no tempo), o Reino Unido está hoje condenado a ser uma subserviente colónia da sua antiga colónia americana. Comporta-se como uma Nação-satélite que entra em festa quando recebe o Suserano, fazendo-o com a mesma distinção com que, na Idade Média na Europa, eram obsequiados os Reis que estavam de passagem. E como as humilhações nunca acontecem sozinhas, o Reino Unido fez prova nestes dias de outra subserviência dolorosa, desta vez para com a China. Depois dos serviços de informação e da polícia britânicos terem identificado no seu solo uma rede de agentes que actuava ao serviço de uma potência estrangeira, actividade considerada como tão ou mais perigosa que o terrorismo, o Governo inglês preferiu fazer de conta e desculpar, recusando-se a inculpar as pessoas e os mandantes. Paralisado de medo, o Reino Unido não teve coragem sequer para impor tarifas aduaneiras aos carros eléctricos chineses, o que a União Europeia não deixou de fazer. Com as portas abertas a carros altamente subsidiados e agora de altíssima qualidade, a indústria automóvel inglesa colapsou e o mercado do Reino Unido para os automóveis eléctricos é chinês. Como potência, o Reino Unido eclipsou-se e com o Brexit – que o isolou dos seus antigos parceiros continentais – a sua fraqueza económica e financeira é, agora, indisfarçável.
Quanto à União Europeia, o mais rico mercado do mundo, a sua força – que é eminentemente económica – também empalideceu dramaticamente neste novo cenário geoestratégico, sobressaindo o medo causado pela agressão russa e a caducidade do guarda-chuva militar americano, cuja validade está limitada aos momentos de humor do Presidente americano. Mas ao contrário do Reino Unido, a UE não teve dificuldade em corrigir o preço dos automóveis eléctricos chineses no mercado comunitário, depois de ter avaliado o valor dos subsídios estatais recebidos pelos construtores chineses. Mas no seu conjunto, a posição europeia face à China é titubeante e incompreensível e tem sido ditada pelos países exportadores como a Alemanha que, tendo visto as suas exportações cair fortemente, receiam ser definitivamente expulsas do mercado chinês.
Com tantas frentes inimigas em acção, como se lhes pode fazer frente? O problema começa logo no próprio conceito de inimigos, matéria que afinal é muito volátil. Serão a Rússia, a China, Trump e o Islão nossos inimigos? Para alguns, tudo indica que não. Os saudosistas do PCP e a extrema-direita czarista vêm a Rússia como uma referência mítica a respeitar ou a venerar. Quanto à China, os meios financeiros e do comércio na Europa, consideram-na um parceiro ideal, competente, fiável e competitivo. Para o meio populista, Trump não é o inimigo, mas sim o herói que limpa o planeta dos insuportáveis esquerdistas. Finalmente, para a extrema-esquerda envenenada pela mitologia que inventou, o Islão é apenas mais uma ilha de liberdade dentro da diversidade que deveríamos respeitar. Em que ficamos? Afinal, não podemos esquecer que, em Portugal, nos finais do Séc. XVI, os Filipes reinantes eram os protectores respeitados pela maioria da nobreza Portuguesa.
O que significa hoje para nós, em Portugal, a Independência Nacional? Adquire-se tão simplesmente enchendo a boca e os ouvidos com Afonso Henriques, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral? Na realidade, ao contrário do que muita gente pensa e diz, não é a União Europeia que limita a nossa independência. Bruxelas é acima de tudo o garante de que Portugal existe e que o governo Português é o legitimo representante do seu povo. Algo que já acontecia nos tempos medievais, com o papel que era à época exercido pela Roma dos Papas.
Perante a adversidade de termos agora pela frente inimigos tão poderosos – económica e militarmente – que podem efectivamente por um ponto final na nossa independência, vai-se desenvolvendo na sociedade portuguesa a ideia de que nada mais é possível fazer do que nos abrigarmos à protecção dos senhores que vêm do leste.
Chegados aqui, é urgente relembrar que essa não era de todo a equação de Afonso Henriques ou de Nuno Álvares Pereira.
José Veiga Sarmento