Após a vitória expressiva de Milei nas eleições intercalares argentinas de 26 de outubro de 2025 — um resultado que contrariou as previsões da comunicação social portuguesa, que dava a Libertad Avanza como derrotada —, a Iniciativa Liberal tem procurado capitalizar o êxito do líder argentino como símbolo de campanha. Essa associação a Milei tem sido particularmente visível na retórica política recente, nomeadamente na campanha de João Cotrim Figueiredo para as eleições presidenciais de 2026.

Mas a questão que se impõe é, será a Iniciativa Liberal realmente semelhante a Javier Milei?

É certo que existem pontos de convergência entre ambos. Ambos defendem uma profunda redução da despesa pública, a diminuição da carga fiscal e uma contração da dimensão do monstro estatal. Contudo, embora coincidam no diagnóstico económico na defesa de uma maior liberdade de mercado, as diferenças ideológicas e estruturais entre Milei e a IL são profundas e incontornáveis.

Liberalismo Vs Libertarianismo

Numa análise mais académica e não política, convém distinguir o liberalismo clássico que inspira a IL do libertarianismo de Murray Rothbard que sustenta o pensamento de Javier Milei. O primeiro, de matriz institucionalista, aceita a existência de um Estado limitado, mas com funções regulatórias e garantísticas. O segundo, na linha do anarcocapitalismo, rejeita a própria noção de Estado como agente económico, fiscal e monetário.

Milei não é apenas defensor do mercado livre e do livre comércio, é um crítico feroz do Estado moderno e, em especial, dos Bancos Centrais, que considera instrumentos de expropriação indireta. Inspirando-se em Milton Friedman, sustenta que a inflação é sempre, a longo prazo, um fenómeno de origem monetária. Na sua perspetiva, o monopólio estatal de emissão monetária constitui uma forma de “imposto invisível” através da inflação, que permite ao poder político criar moeda ex nihilo para financiar défices e endividamento.

Como o próprio Milei frequentemente explica, quando os governos emitem dívida, os Bancos Centrais compram-na com dinheiro criado do nada. Quem recebe primeiro o dinheiro recém-criado são os bancos, os políticos e as elites próximas do poder que beneficiam antes que a inflação corroa o seu valor. Os mais pobres, que o recebem por último, já enfrentam a escalada dos preços. O que é, nas suas palavras, um confisco legalizado da propriedade privada.

Ora, esta crítica estrutural ao sistema monetário é algo que a Iniciativa Liberal não acompanha. O partido é declaradamente pró-Euro e não questiona a arquitetura institucional do Banco Central Europeu.

É evidente que o caso português difere do argentino, dado que a política monetária em Portugal é conduzida pelo BCE. Todavia, o raciocínio libertário de Milei aplicar-se-ia igualmente ao contexto europeu. A expansão monetária massiva durante a pandemia, promovida pelo BCE, desvalorizou silenciosamente o poder de compra dos salários e das poupanças, um fenómeno que a IL nunca criticou. Paradoxalmente, a única figura que denunciou este fenómeno não foi um partido liberal, mas sim Joana Amaral Dias, no debate entre partidos sem assento parlamentar nas legislativas de 2024, ao alertar para os efeitos corrosivos da criação desenfreada de moeda sobre a economia real.

Para Milei, o sistema bancário centralizado constitui o principal mecanismo através do qual o Estado consegue sustentar os défices, manipular as taxas de juro e fluxos de capital, bem como favorecer grupos de interesse. Neste sentido, num contexto adaptado à realidade portuguesa, um libertário defenderia a abolição do monopólio estatal de emissão monetária, substituindo-o por um sistema concorrencial de meios de troca, onde pudessem circular livremente moedas privadas e ativos como ouro, prata ou criptoativos — algo que o Direito Comunitário não proíbe desde que essas moedas não tenham curso legal obrigatório.

Embora a Iniciativa Liberal defenda uma flat tax, para um libertário os impostos são, em si mesmos, inaceitáveis, por representarem uma forma de confisco da propriedade privada. Para Milei, a emissão monetária promovida pelos bancos centrais traduz-se, na prática, na criação de um imposto invisível.

A IL, por seu lado, mostra-se confortável com o atual modelo monetário europeu e com o papel intervencionista do BCE. O que, do ponto de vista libertário, seria uma contradição de base, sendo que os Bancos Centrais são vistos como um problema de raiz.

A dimensão moral e cultural

As divergências não se esgotam na economia. Enquanto Milei se afirma como um combatente daquilo a que chama de “batalha cultural”, posicionando-se contra o progressismo identitário, as agendas woke e a imigração descontrolada, a Iniciativa Liberal tem adotado uma postura mais próxima do liberalismo social, aceitando parcialmente algumas das agendas culturais contemporâneas, desde as políticas de género até outras pautas de matriz progressista.

Milei, que se assume judeu e defensor de uma matriz civilizacional judaico-cristã, é também um opositor convicto do aborto por exemplo, argumentando que a vida e a propriedade privada são valores invioláveis. Já a IL tem-se vindo a afastar desse enquadramento moral, preferindo uma neutralidade institucional que, na prática, se traduz numa aceitação tácita de agendas progressistas.

O Papel do Estado

Javier Milei é perentório: “o Estado é o problema”. Para ele, a função do Estado simplesmente não deve existir, devendo a sociedade civil e o mercado autorregularem-se. Já os liberais clássicos, espectro onde se insere a IL, não negam a necessidade de intervenção do Estado, ainda que residual, para garantir o funcionamento do mercado e a proteção de direitos básicos.

Nos debates para as legislativas de 2025, Rui Rocha evitou comprometer-se com privatizações concretas ou com cortes efetivos na função pública, e até mesmo com uma aproximação ideológica à de Milei. Essa hesitação ilustra bem o antagonismo entre o discurso liberal português e a prática libertária argentina.

As alianças políticas e a “batalha cultural”

No panorama internacional, Milei tende a aproximar-se de movimentos conservadores que partilham a sua visão cultural e civilizacional, como o partido VOX em Espanha que está integrado nos Patriotas pela Europa no Parlamento Europeu, ou com o partido de Giorgia Meloni em Itália integrado na família dos Conservadores e Reformistas Europeus.

Em contrapartida, a IL alinha-se com forças políticas europeias liberais que, regra geral, se distanciam destas posições e até tendem a aproximar-se dos social-democratas. Perante esta tendência na Europa, não surpreende que após a tomada de posse de Milei em dezembro de 2023, apenas Tiago Mayan Gonçalves tenha parabenizado o novo presidente argentino. A postura oficial da IL foi de reserva, até que, em 2025, a popularidade global de Milei passou a ser politicamente conveniente face aos excelentes resultados económicos da autoria do economista argentino.

A inspiração noutras forças políticas

Curiosamente, quem também tem expressado admiração por Milei em Portugal não são apenas os liberais, mas figuras do Chega, como Rita Matias, que, em plena campanha legislativa de 2024, citou o argentino ao afirmar que “somos superiores moralmente, somos superiores esteticamente”, ou mesmo André Ventura, que citou Milei na semana passada ao declarar que “à extrema-esquerda não se pode ceder nem um milímetro”.

Embora Milei mantenha uma discrepância muito acentuada face a líderes como Donald Trump ou Santiago Abascal, é notório que as suas afinidades ideológicas e culturais se aproximam mais da direita conservadora do que do liberalismo europeu institucional.

Em suma, existem semelhanças pontuais entre a Iniciativa Liberal e Javier Milei, sobretudo no plano económico, semelhanças essas que se têm vindo a acentuar sob a liderança de Mariana Leitão. Embora possamos considerar a IL o partido mais próximo de Milei no parlamento, quase tudo o resto os separa, na conceção do Estado, na política monetária, na esfera cultural, e até nas alianças políticas.

A IL é, no essencial, um partido liberal moderado, que aceita o enquadramento europeu e o papel regulador do Estado. Javier Milei, pelo contrário, é um revolucionário do pensamento libertário, para quem o Estado é o inimigo e a liberdade o valor absoluto.

Talvez por isso, e apesar das tentativas de associação, a IL não consiga capitalizar politicamente o fenómeno Milei. Falta-lhe a coerência ideológica e a radicalidade filosófica de quem vê a liberdade não como um programa de governo, mas como uma verdadeira religião civil.