Num tempo em que a Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma quimera futurista para se consolidar como uma realidade ontologicamente disruptiva, assiste-se a uma polarização no debate público que oscila entre a exaltação tecno-deslumbrada e o receio distópico paralisante. É no meio desta tensão quase dialética que está a ganhar espaço de afirmação a ideia de “co-inteligência”, expressão vulgarizada por Ethan Mollick (que deu, em Portugal, lugar à publicação de uma obra com o mesmo nome, da Ideias de Ler) e que simboliza o que para muitos (nos quais me incluo) é a reconfiguração necessária para onde devemos, naturalmente, evoluir, de valorização do pensamento e da capacidade humana com o auxílio da tecnologia.
Reduzir o advento da IA a uma dicotomia entre obsolescência humana e supremacia algorítmica é um reducionismo que não resiste a um exame mais rigoroso. O verdadeiro desafio reside na compreensão do modo pelo qual a IA pode amplificar, complementar e catalisar as capacidades cognitivas humanas. É nesta linha que Ethan Mollick se tem posicionado, com base em profunda investigação empírica, sustentando que a IA, longe de aniquilar a criatividade humana, potencia a resolução de problemas e a tomada de decisões mais informadas.
Importa, porém, realçar que a mera acessibilidade a estas tecnologias não garante, por si só, uma transformação consequente dos potenciais utilizadores. O que mais abunda são utilizadores incapazes de extrair valor das ferramentas de IA, mesmo das mais simples e de uso amigável. Agora, o verdadeiro diferencial não reside na capacidade instrumental da IA, mas na capacidade humana de curadoria, interpretação crítica e orientação estratégica dos sistemas de IA para os resultados desejados.
A IA, em especial a que tem base generativa, não se limita a inaugurar um novo ciclo tecnológico: como defendi num artigo publicado na obra “88 Vozes sobre Inteligência Artificial”, editada pela Oficina do Livro, e tenho argumentado em alguns seminários de liderança, a IA instaura uma “rutura epistemológica”, desafiando os pressupostos estruturantes do conhecimento e da cognição humana. A relação tradicional entre sujeito e objeto do conhecimento é substancialmente alterada, uma vez que a IA não apenas media, mas reconfigura a própria “operativa” do processo cognitivo (a forma como adquirimos conhecimento de forma consciente): os sistemas de IA recusam ser meros objetos passivos, assumindo-se como “influenciadores” do próprio processo de conhecimento, gerando conteúdos, inferindo padrões e participando ativamente na tomada de decisão.
Neste cenário, torna-se imperioso abandonar algumas das conceções anacrónicas de literacia que são hoje dominantes, que incentivam os estímulos exteriores e o espírito acrítico, em especial no sistema de ensino (do básico ao universitário), e recuperar as fórmulas de sempre, de estruturar o conhecimento, centradas na autonomia intelectual, no pensamento crítico e na capacidade de interpretar o impacto da IA na estrutura social. Mas isso não basta: não vai ser possível obter benefícios da IA sem uma grande dose de experimentação – e “transpiração” –, numa lógica de “tentativa-erro” que permita que utilizadores dotados de espírito crítico e persistência compreendam o funcionamento das tecnologias emergentes e o seu potencial concreto. Caso não haja uma alteração massiva neste campo, a concentração do conhecimento nas elites mais letradas – que não deixarão de se adaptar rapidamente – aprofundará assimetrias estruturais e potenciará a exclusão de amplos segmentos da população.
Obviamente não sou irrealista ao ponto de acreditar ser exequível levar todos, e todos ao mesmo tempo, para patamares de preparação que lhes permita extrair os máximos benefícios das soluções de IA, embora isso fosse, num plano utópico, o cenário desejável. Mas até no plano da inclusão há muito a fazer. Desde logo, a IA generativa atualmente disponível revela-se demasiadamente genérica, pouco contextualizada e insuficientemente adaptada aos desafios reais de segmentos específicos, sendo motivo de frustração ou chacota por parte daqueles que não conseguem criar casos de uso. Ora, o estado da arte atual tende a beneficiar os detentores de capital intelectual sofisticado, deixando para trás os que carecem de literacias críticas para interagir com sistemas de IA poderosos (mesmo os gratuitos) e de elevada complexidade. A meu ver, a solução passa por se acentuar modelos de “IA by design”, nos quais a tecnologia venha a ser concebida de raiz para servir diferentes perfis de utilizadores e mitigar a exclusão e riscos resultantes de uma menor adaptabilidade (ou até capacidade) cognitiva, com as seguintes premissas:
As soluções de IA devem focar-se mais na resolução de problemas mais tangíveis, evitando a superficialidade e a dispersão informativa dos sistemas genéricos.
As soluções de IA devem oferecer interfaces mais intuitivas e acessíveis, reduzindo as barreiras de entrada e garantindo usabilidades amplas.
As soluções de IA devem incorporar mecanismos de transparência e explicabilidade, trabalhando as sugestões, de forma a dotar os utilizadores de capacidade crítica para avaliar as inferências da IA e riscos de uso indevido.
As soluções de IA devem implementar salvaguardas e defesas contra a manipulação informativa e a desinformação, assegurando um uso ético e responsável.
Longe da visão de uma IA generalista e descontextualizada, a solução passa, acredito (embora esteja a fazer futurologia) pela vulgarização de sistemas ultra-especializados, orientados para contextos mais circunscritos e tangíveis que respondam a necessidades mais específicas.
A IA vai ter, finalmente, um papel muito relevante no futuro do trabalho e da decisão estratégica. O advento da “co-inteligência” implica uma reconfiguração dos paradigmas de liderança e de gestão organizacional. Se “quase” todos estamos convictos que a IA vai assumir um papel ativo e crescente no processo decisório, a prerrogativa dos líderes (ou dos que têm funções com decisão, como v.g., médicos, políticos, advogados, juízes) não reside na mera incorporação da tecnologia nos seus processos de trabalho, mas na capacidade de integrar e dirigir estas ferramentas de modo estratégico, ou seja, de forma que, no final, se aumentem as capacidades humanas e o valor das suas decisões.
Embora seja inevitável que muitas tarefas humanas possam vir a ser substituídas por soluções tecnológicas, está por demonstrar que a IA virá a ser, do ponto de vista agregado, um fenómeno de substituição, havendo sobretudo espaço para que esta amplifique e desafie a inteligência humana para nos levar a outros patamares que, sem as máquinas, dificilmente poderíamos atingir.
Até porque, como defendi o ano passado numa crónica nesta coluna, por mais sofisticada que a IA se torne, há dimensões da inteligência humana que permanecerão insubstituíveis num horizonte previsível. A capacidade de compreender e gerir emoções, de construir empatia autêntica e de estabelecer conexões genuínas continuam a ser prerrogativas exclusivamente humanas. O mesmo se aplica ao pensamento criativo e inovador: ainda que a IA possa otimizar processos e até gerar ideias com base em padrões preexistentes, a verdadeira inovação – intencional, disruptiva e carregada de significado – nasce da intuição, da experiência e da subjetividade humanas. Não acredito que o futuro venha a ser moldado por uma utilização passiva, acrítica das ferramentas de IA, mas pelos que souberem aplicá-la criativamente, com sentido, ampliando a sua inteligência e explorando novos territórios cognitivos que, sem as máquinas, permaneceriam inexplorados.