Faça-se um cerco a Lisboa e deixem-na isolada, sitiada, por um período de tempo determinado; proceda-se de igual modo uma qualquer aldeia de Trás-os-Montes. A ideia de que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem, é vergonhosamente aceite há tempo demais, mas de peito cheio, por quem pode e nada faz para mudar o mau exemplo de que governar o país com base naquela monstruosidade, é caso para que fiquemos tão arrepiados como enojados.

Ser português em Portugal não é sinónimo de coisa nenhuma. Ups!, o que eu quis dizer, era que, ser português fora de Lisboa é o mesmo que ser um cidadão desqualificado, sem os mesmos direitos dum lisboeta mas com todos encargos de o ser. Está tudo em Lisboa: o Governo, instalado no luxo dos seus aposentos, com locomoções de alta gama e cilindrada, as Artes, os Museus, os Hospitais e tudo o resto, incluindo a rede de Transportes Públicos, oferece a preços subsidiados aos seus residentes, o que um não Lisboeta dificilmente poderá alcançar. Lisboa funciona como um íman maligno, pois tem uma força centrípeta que atrai enganosamente quem de lá não seja; cria uma falsa necessidade de tudo ter que acontecer por lá, e não pelo resto do país.

A maldade da centralidade de Lisboa é tão mais nociva que a sua capacidade extractora dos recursos nacionais é de tal maneira egocêntrica que os condutores do sistema de maquinaria nela existente não têm um vislumbre de humildade na redistribuição da riqueza que sorve nas origens, levando à penúria todas as populações que são paisagem. O desprezo é tanto, é tão gritante, que já se perdeu o decoro na roubalheira, pois agora, e cada vez mais, o que se rouba já não são só bens materiais e riqueza natural, mas, invadindo sem qualquer pudor o íntimo daquelas gentes, agora roubam  a dignidade dos habitantes das paisagens naturais.

Não sou fundamentalista, activista ou outro qualquer ‘ista’  que possam inventar para me catalogar, simplesmente  acho que já é tempo de se olhar para a Terra que somos, a Gente que temos, e os Sonhos que sempre tivemos, mas nunca realizados, ao contrário dos pesadelos que, estes sim, sempre existiram, pese embora os sorrisos engravatados dos que anunciam, lá em Lisboa, que nós somos o melhor país do mundo. Em Portugal, lá em Lisboa, há um enorme salão onde muitas cabeças se juntam, mas desconhecem o Portugal real que somos. Fora de ‘lá’, nós, os outros, fazemos a Portugalidade.