Andava cada um na sua actividade quando os telemóveis apitaram uma mensagem: é para reunir, ao meio dia novo, na Escola. Uma mensagem inusitada, em dia de trabalho e, eles e elas, cada qual nas suas tarefas, uns a cuidar das vinhas, outros trabalhando como trolhas, cozinheiras e cuidadoras de Lar de Idosos, apesar de desconhecerem a razão da chamada, sabiam de antemão que falhar ao chamado não era opção. Só faltou a Amélia, que sendo telefonista no Quartel dos Bombeiros Voluntários, e a difusora da mensagem enviada por ordem superior, é que ficou em pulgas por não estar presente.
Na Escola, passados escassos minutos, já com todos presentes, o responsável pela estranha convocatória disse o que se passava: há um apagão de luz. Teve que explicar uma e outra vez que o assunto era sério, pois havia quem se pusesse a rir, desconfiado, pois se há coisa que aquelas gentes não gostam, é serem tomadas por tolas. Devido ao apagão decidiram que iriam ajudar quem, durante o dia, precisasse e, quando a tarde começasse a findar, se deveriam reunir novamente na Escola, completamente fardados, pois nessa noite teriam a maior actuação das suas vidas.
E assim foi. O sol ainda sorria um adeus de despedida quando, às ordens de quem sabia da poda, os primeiros sons, bastante vigorosos, fizeram-se ouvir. O bombo grande foi o primeiro a dar sinal, seguindo-se em catadupa a gaita de foles, as caixas e as estarolas. E quem normalmente fazia de Cabeçudo ou Gigantone ficou com as tarefas de aguadeiro, apoio logístico e tudo o resto que fosse necessário, pois aquela noite iria ser a noite mais longa das vidas daquela malta. Com a noite instalada, alumiados com velas de procissão, os Zés-Preiras foram até ao Terreiro e, bem em cima do adro da Igreja, repicaram, rebombaram; tornaram a repicar e a rebombar até que todo o povo soubesse que naquela noite, escura como breu, não estariam sós e o mafarrico, com tamanha barulheira, por certo não teria a coragem de se aproximar daquelas terras e daquelas gentes. Assim foram andando, toda a noite, a gaita de foles a chorar a dor do cansaço e o bombo a lembrar que, quem por gosto anda, nunca se cansa. E repicaram, rebombaram e tornaram a repicar e a rebombar. Já o barulho se colara à pele quando o sol, sorrindo, trouxe a luz do dia, os Zés-Preiras, deslumbrados… apagaram.