É caso para dizer que, de tanto o chamarem, eis que…, ei-lo!, aqui está ele, o famoso, ‘the great pretender’, o Racismo, essa querida e tão nossa peculiaridade. Até será prazeroso dizer que, se o Racismo fosse produto comestível, estaria aí ao nível do tremoço, do coirato, da sardinha e do bacalhau; de preferência em salada.

Há quem encha o peito devido a um cruel, maldoso e faccioso orgulho premonitório e nos lembre, agora, que já há muitos anos havia avisado que os portugueses, essa espécie de humanos de puros-sangues, afinal, eram uns fingidos, uns promíscuos, tal quais moralistas evangélicos, e amigos de Frei Tomás, olhem para o que ele diz e não para o que ele faz. Para mim é difícil compreender, chegar a Portugal e correr o risco de me chamarem racista.

Africano que sou de nascença e vivência, sim, mas debaixo da bandeira de Portugal, fiz e tenho amigos de todas as religiões, cor de pele e cultura. Desde o Aliberato, que combateu contra o Exército Português, passando pelo Ping, filho de chineses fugidos, via Macau, da Revolução Chinesa, até aos dois amigos improváveis, Tarik, de ascendência paquistanesa e Radesh, de ascendência indiana, muitas foram as pessoas com que eu cruzei ao longo da vida e nunca senti nenhum laivo de hostilidade e denúncia de racismo sobre os portugueses em geral.

Tendo vivido na Ásia, fiz questão de deambular por terras onde os nossos navegantes andaram. Mesmo naquelas em que a maldade e perfídia foi praticada, o sentimento que ficou com aquelas gentes não foi a maldade dos Vice-Reis representantes da Nação, mas sim a bondade e amizade do seu povo, sim, dos portugueses. Amiguei com essas pessoas, orgulhosas de serem descendentes de Portugal, mesmo já tendo esquecido o linguarejar, ou falando um rudimentar português, os seus nomes continuaram a ser de portugueses.

Maldivas: local onde Portugal esteve só de passagem, apenas dezasseis anos, mal desembarquei e o guia informal que arranjei no local soube da minha nacionalidade, não descansou enquanto não me levou até ao mercado para me mostrar uma espécie de tabaco enrolado duma maneira muito peculiar e que ali eram conhecidos por ‘portuguese cigarretes’.

A forma como em Macau as autoridades chinesas preservam e dão a conhecer às novas gerações o legado português não era possível se fossemos um povo de racistas. É necessário ter calma, respirar fundo e não dar a parte pelo todo.