A morte do Papa Francisco obriga-me à introspeção, mas quanto mais reflito, mais evidente se torna uma verdade desconfortável que expõe a hipocrisia: se Jesus voltasse hoje à Terra, nas mesmas condições em que nasceu no Médio Oriente, de pele escura, pobre, estrangeiro, seria barrado por muitos dos que mais alto hoje gritam o seu nome.

Seria afastado por aqueles que hoje se arrogam serem seus representantes. Seria acusado de ser “de fora”, “ameaça”, “incompatível com os nossos valores”. Seria, ironicamente, rejeitado em nome Dele próprio.

A realidade é que muitos não amam Jesus! Amam apenas uma ideia confortável de Jesus. Um Cristo branco e de feições arianas, ocidentalizado, culturalmente europeu. Um Cristo ficcional para servir alguns interesses ideológicos extremistas e politicamente duvidosos.

Veja-se o discurso da extrema-direita. No caso português, o Chega usa referências cristãs com frequência quase ritual. Mas fá-lo enquanto defende políticas que excluem os mais frágeis, criminalizam os pobres, tratam todos os migrantes como ameaça e recusam ver Cristo no rosto de quem sofre. Falam de valores, mas ignoram a essência. Dizem proteger a fé, mas praticam tudo aquilo que Jesus Cristo condenou: o orgulho, o julgamento fácil, a ausência de compaixão.

Como católico e moderado, que acredita numa Igreja enraizada na tradição, mas aberta ao mundo, que defende regras e responsabilidade, sem jamais esquecer a dignidade humana, não posso aceitar esta apropriação do cristianismo para fins políticos tão rasteiros. A fé nunca pode ser desculpa para a desumanidade. E quem a instrumentaliza assim, trai não só o Evangelho, mas também a herança da civilização cristã que dizem defender.

O ódio não cabe nos Evangelhos.

Mas foi precisamente neste mundo fraturado que luziu a figura luminosa de Francisco. O Papa que acabámos de perder foi, acima de tudo, um homem bom. Um reformador. Um pastor que, em tempos de muros, insistiu em construir pontes. Que nos lembrou, tantas vezes, que “a realidade é mais importante do que a ideia”, como escreveu na encíclica Evangelii Gaudium. 

Francisco recusou a fé abstrata, desencarnada, para resgatar uma Igreja com os pés no chão e os olhos no próximo.

Nestes tempos de discursos desumanizantes, ele reafirmou: “Os migrantes não são perigosos, estão em perigo.” E foi ainda mais longe, quando denunciou, com clareza: “O verdadeiro perigo é a cegueira e a surdez de quem se recusa a ver e ouvir os outros.”

Mas Francisco não esteve sozinho nessa missão. Também São João Paulo II, tão querido das gerações anteriores, alertou com sabedoria que “a dignidade da pessoa humana não depende da sua nacionalidade, raça, religião ou condição social.” E mais: “O racismo é um pecado que constitui uma ofensa direta contra o Deus criador.” Palavras duras, mas necessárias, ditas por um Papa que ninguém poderia acusar de modernista.

Ambos, à sua maneira, foram ecos vivos do Evangelho. Ambos apontaram para uma Igreja que não se fecha sobre si mesma, mas que se abre ao mundo sem perder a sua alma.

A morte de Francisco não é apenas o fim de um pontificado. É o coroar de uma vida inteira dedicada a aproximar a Igreja da sua missão original: servir.

A ele devemos mais do que uma homenagem. Devemos continuidade. Devemos a coragem de continuar a defender uma fé que não compactua com o medo, com a divisão e com o ódio.

A ele, deixo um obrigado profundo por ter sido, neste tempo tão confuso, um farol de fé, de lucidez e de humanidade.

Que a sua morte inspire a vida de uma Igreja viva.

Francisco partiu e com ele, a lembrança de um Cristo que ainda desafia os que o invocam sem o seguir.