A resposta à pergunta do título é difícil. Tanto tempo depois corremos sempre o risco de estar a descontextualizar. Mas, ainda assim, é possível ter uma ideia. Em primeiro lugar, é preciso ver que Cristo viveu num tempo extremamente polarizado. Saduceus e Fariseus eram os “homens do sistema”, controlando grande parte da vida religiosa e política da região, mas sem qualquer capacidade de criarem qualquer “pacto de regime”, porque discordavam “nas questões essenciais”. De um lado e do outro estavam os extremos. Os zelotas: um grupo nacionalista radical, que possuía, inclusive, uma espécie de braço armado terrorista, os sicários. E os essénios: que tinham cortado com as autoridades, viviam em comunidades isoladas, rejeitavam a vida urbana e a corrupção do Templo de Jerusalém. Mas ainda temos que acrescentar pregadores ambulantes, que hoje apelidaríamos de populistas e demagogos, como João Batista, que proclamava uma purificação dos pecados no Rio Jordão, ou seja, fora do grande centro político e religioso da época. Sem esquecer, claro, que a região onde Jesus nasceu, viveu e morreu estava ocupada pelo Império Romano.
Neste contexto, conseguimos entender alguma coisa sobre a posição de Jesus olhando para o nome dos seus discípulos. Na lista dos 12 temos, por exemplo, Mateus, Simão e Judas. Ora, Mateus era cobrador de impostos e, por isso, um vendido ao imperialismo romano. Simão era conhecido como o zelota e, por isso, um patriota fanático, daqueles de bandeira tatuada no peito. E Judas, apelidado de Iscariotes, via a sua alcunha remontar aos sicários, ou seja, os já referidos terroristas. Não é de surpreender, assim, que às vezes até os Evangelhos falem de tensões entre os discípulos. Mas o mais curioso, só para falar destes três, é que o objetivo de Simão e de Judas era, pela sua filiação social e política, matar, sem qualquer piedade ou escrúpulo, pessoas como Mateus, que eram comumente vistos como traidores.
Isto é muito importante atualmente, porque há boleia da justa afirmação de que é incompatível com o Cristianismo o racismo, a xenofobia e o ódio, tem existido uma espécie de apartheid social das pessoas que expressam ideias algumas vezes sem qualquer sentido ou fundamento. Reparem: de modo algum é claro que Simão ou Judas tenham renunciado plenamente às suas convicções, quando seguiram Jesus. Alias, só isso explica, a título de exemplo, os contactos que terão facilitado a traição orquestrada por Judas. E, pelo menos quanto sabemos pelos Evangelhos, Jesus nunca tive nenhum discípulo saduceu ou fariseu. O primeiro que conhecemos até é Paulo, o que desmente a ideia comum de que o Cristianismo se expandiu, antes de mais, entre escravos e camadas pouco formadas da população.
Ora, Jesus não seria a favor do paradoxo da tolerância de Karl Popper. Ainda para mais se ele corresponde à infografia viral que invade, ocasionalmente, as redes sociais e que nada tem a ver com a obra do filósofo de origem austríaca. Cristo, aliás, tinha uma atitude estranha diante da realidade. Em certos lugares, tornava a lei mais radical do que efetivamente já era. Noutros, agilizava-a e libertava-a do fundamentalismo normativo. E se há constante na vida de Jesus é a oposição à sobranceria intelectual e incompletude moral das ideias, a princípio justas, da elite do seu tempo. E a seu lado não estavam os maoistas e os marxistas do seu tempo – muito embora estes movimentos não sejam, de todo, inocentes a nível étnico –, mas os supremacistas brancos da ocasião.
Esta é uma visão redutora, mas os companheiros de Jesus não eram só trabalhadores precários de uma região periférica da Palestina do séc. I. E isso é o que torna o Cristianismo tão difícil e desafiante. Afinal de contas, Jesus tinha linhas vermelhas. Mas elas não eram um programa político. Era a hipocrisia.